Desativada 2

Planície de inundação

Redação DM

Publicado em 2 de outubro de 2016 às 02:13 | Atualizado há 2 anos

Localizada no centro-norte da Capital, numa região denominada como Vale do Meia Ponte, a Vila Roriz (nome popular atribuído ao Setor Urias Magalhães II) é objeto de estudo de várias pesquisas acadêmicas que tratam dos problemas socioambientais causados pelo descaso do poder público com habitação ao longo dos mais de 80 anos da cidade. O local é citado como “aglomerado de exclusão”, por ser uma alternativa mal planejada – e guiada pela especulação imobiliária – para lidar com a pressão popular por moradia em uma cidade em expansão contínua. A Vila foi construída visando a desobstrução do espaço que hoje abriga o prolongamento da Avenida Goiás Norte (realizado em meados da década de 1980), antes ocupado por residências.

A última grande enchente do Ribeirão Anicuns a atingir a Vila Roriz ocorreu em janeiro de 2016. O volume da cheia chegou a 1,70m e causou o desalojamento de várias famílias. Para a geógrafa Helen Macedo, autora da dissertação de mestrado ‘Saneamento e saúde – um estudo de caso da Vila Roriz’, o grande risco de enchentes na região aumenta consideravelmente a susceptibilidade da população a algumas doenças. “É uma área de alto risco a inundações e de grande situação de insalubridade das condições de vida, devido principalmente ao acúmulo de lixo no local, o que leva à incidência de doenças hídricas que atingem a população”, afirma. A população mais atingida é a que fica na parte mais baixa do bairro. A autora revela que um dos apelidos pejorativos da vila é “Sapolândia”.

A região é marcada pelo encontro das águas do Ribeirão Anicuns e do Rio Meia Ponte, que recebem de seus afluentes águas que transitam canalizadas por boa parte da cidade [como Cascavel e Botafogo], e funcionam como verdadeiros canais de esgoto a céu aberto nos períodos de seca. Para Helen Macedo, o problema é empurrado desde o início do setor. “Desde seu assentamento, as famílias convivem com falta de infraestrutura adequada, como falta de água tratada e mínimas condições de higiene”. O trabalho da geógrafa incluiu consulta aos moradores. “Segundo opinião dos próprios moradores [nas partes mais próximas ao rio], sobressai como desvantagem residir na Vila Roriz devido à existência do rio, das enchentes e do mau cheiro”.

O professor Bernardo Cristóvão também traz uma leitura do processo de consolidação da vila em seu artigo ‘Vila Roriz: o maldito exemplo de desterritorialização e reterritorialização’. Ele esclarece que a sede da especulação imobiliária e o descaso do poder público com a demanda por moradia são um problema antigo na Capital e se acumulam ao longo dos anos. Muito disso, segundo ele, aconteceu no fim do controle estreito do Estado sobre a malha urbana de Goiânia. “Com o fim do Estado Novo (1945), extingue-se o governo Pedro Ludovico Teixeira, causando uma ruptura entre o Estado e a produção do espaço urbano. A partir de então, a especulação imobiliária campeia solta e estende seus tentáculos sobre o processo de produção do tecido urbano”, conclui.

Histórico

Helen Macedo explica o contexto que levou ao prolongamento da Avenida Goiás Norte e, consequentemente, à consolidação da Vila Roriz. “Durante os anos 1980, houve uma expansão da cidade no sentido Norte, onde se alojou o Terminal Rodoviário de Goiânia, o que favoreceu a construção de uma via de acesso integradora que fizesse a ligação rodoviária para a Região Norte do Brasil, além de sediar parte do polo de distribuição atacadista da cidade, que abastece parte das regiões Norte, Nordeste e Sudeste”. Surge então a consequência: “houve a ocupação de áreas insalubres principalmente para a construção de moradias, com grandes desequilíbrios ambientais e riscos de alagamento. Entre as novas áreas ocupadas encontra-se a Vila Roriz”.

O remanejamento, segundo a autora, foi liderado pela prefeitura. “A ocupação pelos moradores iniciou-se em 1987, com a retirada e transferência de 86 famílias, promovida pela Prefeitura de Goiânia, tendo como interventor Joaquim Roriz. O interventor apoiou o loteamento Setor Urias Magalhães II logo em seguida, pelo decreto 1250. As famílias residiam na área onde seria construída a Avenida Goiás Norte”. O remanejamento fortaleceu uma ocupação já existente na área. “A transferência resultou na ocupação de uma área que na época já era um loteamento irregular, incentivando a transferência voluntária de outras famílias. Foram todas caracterizadas como população ribeirinha”, conclui Helen Macedo.

 

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