Poesia marginal de Goiânia
Redação DM
Publicado em 11 de setembro de 2015 às 17:40 | Atualizado há 11 anosWalacy Neto
Com intenção simples de provocar qualquer grito dentro da gente, a coluna Berro é um apanhado de poesias e poetas das ruas e de agora. É levar o nome e um pouco do que o tal escritor cria e daí pra frente (com esta bomba nas mãos) o leitor entra no rio e nada em direção aos demais trabalhos. Proposta simples como dois e dois são quatro, pois acreditamos que tudo isto no passado teria muito de futuro. E avante!
Nesta primeira edição apresentamos poetas de Goiânia com um pé no que se chama literatura marginal, no caso poesia das ruas mesmo. Aja vista que nenhum destes tem nenhum livro publicado por editoras e divulga tudo o que constroem na boca, no zine ou em outro qualquer lugar que se caiba. Enfim, toda semana algo novo.
meu deus não construiu o infinito em sete dias
tampouco se fixa no aconchego de seu pedestal
meu deus constrói a eternidade todos os dias
num trabalho duro que já dura dezoito anos
ele não vê tudo do alto de uma nuvem branca
ele vê quase tudo a 1 metro e 80 de altura
com um olho embaçado e o outro bem mais ou menos
meu deus é um saco infindo que carrego pelos becos
um saco de vidas passadas e vidas que se passaram pelas minhas
meu deus é um processo
é o processo que não tem pressa
de transformar a mim – pedra bruta –
na estátua nada estática do meu próprio nirvana
meu deus é uma lista riscada de tudo que me inspira e me dá tesão
meu deus é o orgasmo nas mãos
daquilo que um dia hei de ser
Ícaro
CEGUEIRA
Abriram os portais do tempo
Emendaram o cordão umbilical de deus
e limparam os anjos do paraíso.
As trombetas do vento uivam nas
Cortinas fechadas da minha visão…
Destruíram as ruínas dos meus sonhos
E Quebraram os devaneios da minha alma…
… Enterraram a luz do meio dia
Dobraram as cobertas laranja do céu.
Corto os pulsos da velhice e
acendo a morte em crânios vazios
A lua solta tragos que derramam o
Perfume da embriaguez nos olhos fechados dos hotéis…
Os gatos caçam com unhas e dentes
Os cachorros:
PRESOS A CORRENTES
Cospem faíscas nas lágrimas da escravidão.
Gotas de sangue caem da carruagem de satã
O infinito solta baforadas de seu cachimbo e cochila com a
Cidade…
QUE DE TODO BARULHO CONSTANTE
NADA SE ESCUTA!
Enxergo cores e palavras e formas e desenhos
Faces e expressões
Mas nada realmente vejo!
E PELEJO!
Meus joelhos rasgam o peito da metafísica
As galhas secas da eternidade caem em meu sonho amargo,
Que levo ao epitáfio
Vomito os dentes do inferno em meu castelo de ossos
Invoco os gritos dos meus olhos em
Relâmpagos na escuridão…
enquanto a nuvem negra da vida, com gotas ácidas da juventude
Lacrimeja sobre mim,
E não hesita em chorar!!!
Mazinho Souza
Friboi
Pele interpela carne crua
Carne de imatura
quer se esconder,
apodrece
Carne sente o tempo
É a finitude
Na carne passa gente
que é violência e paixão
Vontade de vida
Línguas sem barbárie
Saxofones traz de
volta o mundo encantado
Chuva de Molotovs
Anunciam a dança de Tânatos e Eros
Na cidade passam ônibus
Superfaturados
Fratura exposta na perna de Berenice
Mordida pelos interesses
da classe dominante
Ladainhas, os costumes
e boa moral
Interpela
Viver sem tempos mortos
é morta a carne do progresso
E pro matadouro
seguem nossos pés
Siririca Poética
Me gasto mais que me gosta
e eu me desfaço
na tentativa estúpida de me por no foco
Não da certo
me retorço, me desdobro
faço picuinha
Você nem liga
volta quase de manhãzinha
com sorriso no rosto
deita devagar, não querendo atrapalhar
Tarde demais
já bebi demais, fumei demais
chorei um pouco
Mas decidi não me entregar
pois se não há fogo pra mim
não tenho pra que esperar
E amanhã vai ser dia de frevo
meia calça, batom vermelho
salto 15
Que é pra cair o queixo
e nego dar em cima
Eu vou rebolar, ralar até o chão
vou subir em cada negão que eu tiver a fim
E quando eu chegar em casa
com a meia calça rasgada
salto na mão
batom borrado e descabelada
ai de neguim que não tiver de prontidão
Meu fogo é grande e eu sou esperta meu amor
sei guardar isca pra peixe e pra tubarão
Alice Flor