Sebastião Salgado e a questão da Terra
Redação DM
Publicado em 14 de setembro de 2015 às 22:33 | Atualizado há 1 anoFoi inaugurado no hall de exposição da Biblioteca Central da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), uma exibição de fotografias clicadas por Sebastião Salgado, presentes no livro fotográfico Terra, lançado em 1997. A obra tem como foco o registro de momentos da vida de pessoas excluídas socialmente no Brasil: trabalhadores rurais sem-terra, mendigos, crianças de rua, entre outros. A exposição tem início às nove horas, com entrada franca.
O livro Terra, editado pela Companhia das Letras, conta com 109 fotografias marcantes e realistas, documentando principalmente as lutas e as dificuldades de trabalhadores agrícolas injustiçados pela divisão absurda das terras produtivas no Brasil, que favoreceu poucas pessoas que detinham o poder sobre o país devido ao dinheiro. A obra foi lançada juntamente com um CD com cinco músicas de Chico Buarque e conta com prefácio escrito pelo português José Saramago, primeiro escritor da língua portuguesa a ser premiado com um Nobel de literatura.
De acordo com a coordenação do evento na PUC Goiás, a exposição faz parte do projeto Leituras e tem objetivo de estimular outras formas de leitura que não sejam apenas a do texto verbal. A exposição será composta por textos visuais, musicais e verbais carregados do elemento estético. Ficará disponível no hall de exposição até o dia 31 de outubro, e pode ser conferida das 7 da manhã até as 10 da noite.
A situação das terras produtivas do Brasil é descrita por Saramago com toda sua habilidade metafórica e literária, sendo a narrativa conduzida com alusões à criação da humanidade por Deus, que deu ao homem a ordem de reproduzirem-se para povoar o mundo e forças para trabalhar, mas permitiu que parte de sua cria fosse explorada por outra parte, favorecida por condições financeira. “tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar”.
O escritor critica ainda a falta de investimento e de prontidão do Estado brasileiro em resolver o problema, tendo em vista que políticos e latifundiários jogam do mesmo lado. “A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, actualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva, encontra-se em estado de improdutividade, de abandono. sem fruto”.
A capa do livro Terra traz o retrato de uma criança, a menina Joceli Borges, filha de trabalhadores rurais sem terra. A foto da menina correu o mundo, e hoje, aos 24 anos ela ainda permanece na luta por terra. Teve a oportunidade de mudar-se para São Paulo para estudar em instituto criado por Sebastião Salgado, mas recusou para não ter que desligar-se da família. Em entrevista ao site Vermelho.org, foi questionada sobre o que diria ao fotógrafo se ela o encontrasse. “Nem saberia o que falar. Quero é conquistar meu pedaço de terra. Acho que estudar não é mais importante para mim”, respondeu.
Cinema
Recentemente a história de Sebastião foi retratada no cinema através do documentário O sal da Terra, dirigido pelo renomado cineasta alemão Wim Wenders e pelo filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado. A produção, lançada em 2014, foi indicada ao Óscar na categoria de Melhor documentário, e ganhou o César, premiação anual realizada na França, na mesma categoria.
Wenders é um dos cineastas mais aclamados dos entre entusiastas da sétima arte no mundo todo, tendo dirigido filmes como Parix, Texas (1984), Asas do desejo (1987) e Buena Vista Social Club (1999), considerados clássicos do cinema de suas épocas de lançamento. O sal da Terra marca ainda a estréia de Juliano Ribeiro Salgado no cinema. A produção perdeu a disputa do Óscar para Citizenfour, documentário que conta a história de Edward Snowden, conhecido por tornar público detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA.
O longa-metragem tem ligação principalmente com o livro fotográfico Genesis, lançado em 2013. Neste trabalho, Sebastião desliga-se um pouco do cunho social da maioria de seus trabalhos para retratar a natureza crua presente no mundo. Em entrevista ao jornalista Daniel Solyszco, da revista Istoé, Sebastião explicou-se “Eu passei mais de 40 anos fotografando aspectos sociais, imagens às vezes duras. Chegou uma hora que eu queria ver o planeta. Tive uma vontade muito grande de me aproximar da natureza e da ecologia em ‘Genesis’. E tive de me organizar muito para fazer isso. Foram oito anos. Me ofereci o maior presente que uma pessoa pode se dar na vida”.
Ideais
Sebastião Salgado sempre se manteve em um patamar de documentar realidades através de princípios humanistas e ambientalistas. Já fotografou os índios, já fotografou a fragilidade da natureza e já fotografou a sensibilidade de crianças abandonadas. Em sua época universitária, graduou-se em economia e mudou-se para Paris, onde esperava seguir sua carreira na área. Começou a fotografar em uma viagem à Africa, encomendada pelo Banco Mundial. Em 1973 já era um fotógrafo independente, com dedicação exclusiva ao ofício de congelar momentos em filme.
Considerado um cidadão do mundo – com raízes no Brasil, mas histórias deixadas em várias partes do planeta, levadas na memória de seus olhos e registradas por suas lentes – viajou para mais de 100 países entre os anos de 2004 e 2012 visitando regiões como o Alasca, a Patagônia, a Etiópia e a Amazônia. Seu trabalho pretendia “registrar a majestade e a fragilidade da natureza, assim como sua relação com o homem e os animais”, como relata na página de apresentação de um de seus livros.
O fotógrafo comentou do possível fim da fotografia como arte, que parte do princípio da grande produção de imagens na atualidade, em entrevista à Istoé. “Nunca se produziu tanta imagem. Fotografar é algo que se faz cada vez menos. A mudança dos instrumentos de captação, as infinitas possibilidades que existem hoje, como mexer, mudar, manipular a imagem depois que ela foi capturada, mudam completamente a linguagem. Antigamente existia uma espera para captar, depois o tempo da revelação e a impressão. Agora você vê a imagem, mas ela não passa mais pela fotografia”.
