Desativada 2

Tempestade em camadas

Redação DM

Publicado em 16 de maio de 2017 às 02:54 | Atualizado há 1 ano

Passadas mais duas décadas desde o lançamento do álbum Pygmalion (1995), está de volta ao cenário musical (“alternativo”?) uma das bandas de rock alternativo mais adoradas das últimas décadas, a Slowdive. A banda ganha um status cada vez mais icônico para os fãs da fase etérea do rock produzido nos anos 1990, principalmente com o estabelecimento da internet, que criou pontes transoceânicas imateriais e possibilitou uma facilidade histórica e inédita de acesso à música. O disco mais celebrado, Souvlaki, foi lançado em 1993, e é visto como uma das grandes obras-primas de sua época e do chamado dream pop (literalmente: pop-sonho, por utilizar texturas ecoantes, vocais sussurrados e flertar com elementos da música ambiente).

A banda reuniu sua formação clássica, com as presenças marcantes de Neil Halstead (vocalista, guitarrista e principal compositor) e Rachel Goswell (vocalista e guitarrista), amigos de infância que formaram a banda em 1989, depois de terem tocado em alguns grupos que faziam cover de canções famosas de rock. Christian Savill, Nich Chaplin e Simon Scott completam a formação da banda. Rachel, que faz hoje 46 anos, conheceu Neil ao mudar-se ainda criança para Reading, uma importante cidade da Inglaterra, localizada entre Londres e Oxford. A banda lançou três álbuns nos primeiros anos da década de 1990, e encerrou suas atividades em 1995. Com o fim do Slowdive, os dois seguiram juntos numa nova banda, Mojave 3, que encontra-se em hiato desde 2008.

Shoegaze revival 

A década atual presencia um interessante fenômeno musical: o ressurgimento de bandas de um subgênero do rock pouco conhecido no Brasil, o shoegaze, que estourou em países da Europa e da América do Norte na primeira metade dos anos 1990. Shoegaze significa literalmente “observar os sapatos”, uma referência à postura introspectiva e não enérgica dos músicos, um gigantesco contraposto à visão geral popular que se tem do rock. Os vocais são opacos, entoados com suavidade e soterrados por uma “parede de sons” feita por guitarras mais interessadas em texturas homogêneas que em virtuosidade. A banda My Bloody Valentine, cujo clássico Loveless (1991) cresce monstruosamente, também voltou em 2013 depois de 22 anos sem lançar um álbum.

Novo álbum 

A chegada de um novo disco do Slowdive já era esperada desde a reunião oficial do grupo, em 2014, 19 anos após terem encerrado a banda. Naquele mesmo ano, o grupo tocou em vários países da Europa, além dos Estados Unidos. Em maio do ano passado, Rachel Goswell anunciou que o novo disco já estava em fase de produção. No dia 17 de janeiro deste ano, a gravadora Dead Oceans disponibilizou nas plataformas virtuais o single do álbum, Star Roving, primeiro lançamento da banda em 22 anos. Em 28 de março, revelaram que o quarto álbum teria o mesmo nome da banda. No mesmo dia foi lançado o segundo single, Sugar For The Pill, acompanhado de um vídeo com participação dos dois vocalistas.

O álbum foi lançado oficialmente no último dia 5, mas já tinha sido escutado por milhares de pessoas, pois vazou em alguns sites no dia 18 de abril. Rachel Goswell ficou irritada com o vazamento, e comentou o ocorrido em sua conta no Twitter, enviando um emotion ofensivo: “Para quem quer que tenha vazado nosso álbum hoje”. A cantora também argumentou com fãs que responderam sua postagem. “Passamos 18 meses criando nosso álbum. Estou chateada por alguém ter decidido compartilhá-lo antes da data de lançamento”. Apesar da quebra da surpresa, o disco foi um dos 20 mais vendidos do Reino Unido na primeira semana, feito jamais alcançado pela banda, que foi abraçada pelas novas gerações nas décadas em que esteve inativa.

O disco, através de oito canções, retoma vários elementos apresentados no passado, com momentos minimalistas, flutuantes, e hipnóticos. Também há espaço para o shoegaze, que toma conta de algumas faixas do disco com suas paredes de som. As músicas seguem linhas de composição simples, e ao mesmo tempo conseguem desenhar degraus de notas num aspecto tridimensional, retomando às paisagens espaciais presentes nos trabalhos anteriores. No site RateYourMusic, o usuário Stargazer deixou sua opinião sobre o álbum: “À medida em que as letras evocam imagens de navios destruídos e tempestades, uma camada é colocada sobre a outra até que isso se torne um redemoinho inóspito que faz você sentir-se em meio a um milhão de flocos de glitter caindo do céu”.

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