Damien Chazelle mergulha no lado obscuro da era dourada do cinema
Redação DM
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 09:12 | Atualizado há 38 minutos
Depois de conquistar o Oscar com La La Land, Damien Chazelle decidiu trocar os musicais românticos pelo retrato brutal da Hollywood dos anos 1920. O filme babilonia chega como uma carta de amor e ódio ao cinema, mostrando o período de transição do mudo para o sonoro através de personagens que vivem no limite entre o glamour e a decadência.
A produção não economiza em excessos: festas regadas a álcool e drogas, cenas de nudez explícita e um retrato sem filtros de como a indústria cinematográfica operava em seus primeiros anos. Chazelle constrói um mosaico caótico onde sonhos e pesadelos se misturam, revelando que por trás das telas de prata existia um universo de ambição, exploração e autodestruição.
Um elenco poderoso para retratar o caos
Brad Pitt interpreta Jack Conrad, uma estrela em declínio que representa o velho sistema hollywoodiano prestes a ser engolido pela modernização. Margot Robbie dá vida a Nellie LaRoy, uma aspirante a atriz disposta a tudo para alcançar o estrelato, sem medir as consequências de suas escolhas. Diego Calva completa o trio principal como Manny Torres, um imigrante mexicano que serve como nosso guia por esse universo fascinante e perturbador.
A química entre os três protagonistas sustenta as mais de três horas de duração da produção. Cada um representa uma faceta diferente do sonho americano: o ícone que não aceita seu fim, a jovem faminenta por reconhecimento e o estrangeiro que acredita poder pertencer a esse mundo. Suas trajetórias se cruzam em momentos de pura adrenalina cinematográfica.
O elenco de apoio também merece destaque, com nomes como Jovan Adepo, Li Jun Li e Jean Smart compondo um painel diverso de personagens que habitavam os bastidores da indústria. Cada figura adiciona camadas à narrativa, mostrando como diferentes grupos sociais navegavam (ou tentavam navegar) naquele ambiente hostil e competitivo.
A transição tecnológica como metáfora da mudança
Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é como ela utiliza a chegada do cinema sonoro para explorar temas universais sobre mudança e obsolescência. Chazelle não está apenas documentando um momento histórico específico — ele está refletindo sobre como a tecnologia transforma (e destrói) carreiras, sonhos e vidas.
As cenas que mostram as primeiras gravações com som sincronizado são ao mesmo tempo cômicas e angustiantes. Atores acostumados à liberdade do cinema mudo precisam agora se adaptar a microfones escondidos, marcações rígidas e a tirania da captação de áudio. O que antes era arte pura se transforma em técnica, e nem todos conseguem fazer essa transição.
Essa mudança tecnológica serve como espelho para reflexões contemporâneas sobre como plataformas digitais e novas formas de consumo estão transformando o entretenimento atual. A ansiedade dos personagens diante do desconhecido ressoa com os dilemas que profissionais da indústria enfrentam hoje.
Excesso visual e narrativo como escolha estética
Chazelle faz uma aposta arriscada ao construir um filme que não apenas retrata o excesso, mas que é em si mesmo excessivo. A montagem frenética, a trilha sonora pulsante de Justin Hurwitz e a fotografia saturada de Linus Sandgren criam uma experiência sensorial intensa que pode tanto fascinar quanto exaurir o espectador.
As sequências de festa que abrem a produção estabelecem o tom: elefantes desfilando por mansões, corpos entrelaçados, drogas circulando livremente e uma energia caótica que parece prestes a explodir a qualquer momento. Não há espaço para sutileza nesse universo onde tudo precisa ser maior, mais rápido, mais intenso.
Essa escolha estilística divide opiniões. Alguns críticos elogiaram a coragem de Chazelle em criar algo tão visceral e descontrolado, enquanto outros sentiram que o diretor perdeu o equilíbrio entre homenagem e indulgência. O fato é que a produção não deixa ninguém indiferente, ela provoca reações fortes, sejam elas de admiração ou rejeição.
A fotografia merece menção especial por capturar tanto a beleza quanto a sujeira daquele período. Cenas banhadas em luz dourada contrastam com momentos filmados em ambientes claustrofóbicos e sujos, criando um retrato visual que oscila entre o sonho e o pesadelo. Cada frame parece cuidadosamente composto para transmitir a dualidade daquele mundo: fascinante na superfície, podre por dentro.