Crise dá nova cara para o lar doce lar
Redação DM
Publicado em 6 de dezembro de 2015 às 04:05 | Atualizado há 11 anosRIO – Pátina no móvel da sala, persiana em vez de uma parede de vidro, além de muitas almofadas no sofá. Esqueça a nova pia de granito no banheiro. A solução é pintar a louça antiga. É assim que boa parte dos brasileiros vem se arrumando com orçamento mais apertado. Enquanto a compra da casa nova e até a reforma completa do imóvel entraram definitivamente na gaveta, a reforma mais ganha espaço neste fim de ano.
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A estratégia já é observada pelas redes de material de construção, que constataram vendas maiores dos chamados itens de decoração do que dos de reforma propriamente dita. Na Leroy Merlin, por exemplo, itens como almofadas, luminárias, tintas e até lâmpadas devem fechar em alta de até 25% nas vendas neste ano, enquanto produtos de acabamento, como pisos e revestimentos, não avançam.
Walter Cover, presidente da Abramat, associação que reúne os fabricantes de material de construção, diz que, com a falta de perspectiva e o medo de entrar em grandes financiamentos, a saída do brasileiro foi apelar para pequenas reformas. É o que tem estimulado parte do mercado, apesar da previsão geral ser de queda nas vendas este ano. Ele afirma que o momento é propício para as compras, já que o Índice de Preços da Construção Civil (INCC) subiu 6% nos últimos doze meses até outubro, bem menos que os quase 10% da inflação geral.
— Isso demostra o que está acontecendo com o setor, que nos últimos anos teve demanda maior que a oferta — diz Cover. — Hoje, há um movimento de reformas menos estruturantes, com o uso de itens mais ligados ao acabamento.
C&C MUDA MOTE PUBLICITÁRIO
Foi assim que a corretora Paula Moreira, moradora da Zona Sul do Rio, apostou na criatividade para reformar a casa sem gastar muito. Ela conta que usou uma persiana para dividir dois ambientes, em vez de instalar uma parede de vidro, devido ao preço menor.
— Usei ainda muitas almofadas novas e luminárias diferentes. Trocar o piso e fazer obras mais estruturais estão completamente fora de cogitação. Papel de parede também é uma boa saída, e trocar quadros de lugar. Enfim, dá para fazer muita coisa sem gastar muito — diz Paula, que mudou a posição dos quadros para revigorar o ambiente.
A iniciativa de Paula é endossada pela arquiteta Gorete Golaço, cujo escritório criou um serviço chamado Express. O objetivo, diz a profissional, é fazer reformas e repaginar o ambiente de olho no orçamento dos clientes, cada vez mais enxuto por causa da crise econômica. Ela diz que o atual momento da economia criou dois efeitos, que impulsionam as reformas. Além de a compra de uma casa nova ter ficado mais distante, muitas pessoas também deixaram de sair para economizar e, assim, estão passando mais tempo em casa.
— Como as pessoas estão mais em casa para gastar menos, elas querem uma casa bonita e bacana. Por isso, a procura pelo Express aumentou muito com a crise. As pessoas querem gastar cada vez menos — explica a arquiteta.
Ela cita várias alternativas de reformas que vêm ganhando novos adeptos. Em sua lista, está a criação de um closet embaixo de uma escada, o aumento do tamanho das janelas, o uso de claraboias para economizar na conta de luz e a pintura do granito e da pia velhos do banheiro como alternativa à compra de uma peça nova.
Esse movimento do consumidor forçou a rede C&C a mudar de slogan. Se antes o mote era “Sua vida muda com a C&C”, hoje a companhia aposta no “Está esperando o quê?”. Jefferson Fernandes, diretor de Marketing da empresa, diz que passou a treinar seus funcionários, porque sentiu a necessidade de ensinar os clientes a pintarem e instalarem prateleiras, por exemplo.
— Treinamos nossos funcionários para ensinar ao cliente qual é a melhor tinta para pintar uma parede. Foi o movimento que percebemos e, por isso, usamos isso em nosso comercial na TV. Para este fim de ano, já começamos o saldão antecipado dos produtos de Natal, com descontos de até 50% — diz Fernandes.
LEROY MERLIN: PARCELA DE R$10
César Borba, diretor da Leroy Merlin no Rio de Janeiro, acrescenta que, com o dólar alto, muitas famílias desistiram de viajar e decidiram reformar a casa. Com a ajuda das almofadas e luminárias, ele espera uma alta entre 15% e 25% na venda dos itens de decoração. Para isso, a empresa aposta no pagamento em até dez vezes, com parcela mínima de R$ 10.
— Todo mundo quer ter um bem-estar e uma fuga da crise — destaca Borba.
A especialista em recursos humanos e psicanalista Lorena Coutinho, da empresa Atelier de Gente, concorda. Ela diz que as famílias vêm buscando compensações para a falta de perspectiva no mercado de trabalho. Se antes elas procuravam sair, ou até mesmo usar as economias para viajar, hoje é crescente o número de pessoas que optam por morar em um ambiente confortável. Ela cita ainda o caso dos profissionais que trabalham em suas próprias residências.
— É extremamente importante estar em um ambiente sereno no momento de crise. As pessoas não precisam se endividar. Usar a imaginação é essencial. Sempre digo isso aos meus clientes que estão procurando novas oportunidades e, muitas das vezes, optam por trabalhar em casa — diz. — Mesmo o desempregado precisa ter uma estrutura de home office para, em algumas horas por dia, responder e-mails, fazer contatos, pesquisas e networking. As pessoas se sentem mais produtivas. Sentir-se bem em casa é a chave para enfrentar a crise e dar a volta por cima.