Em busca de estratégia para o cenário de juros atual
Redação DM
Publicado em 15 de fevereiro de 2016 às 04:05 | Atualizado há 10 anosRIO — Além de controversa, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter inalterados os juros básicos da economia em sua última reunião, em 20 de janeiro, deixou os investidores com uma dúvida: para onde, afinal, vão as taxas que remuneram as aplicações? Por ter surpreendido, a decisão do Banco Central levantou questões sobre sua independência dificultou a tarefa de prever a trajetória futura da Selic, hoje em 14,25% ao ano. De acordo com analistas, o que ficou claro é que uma postura aparentemente mais leniente com a inflação por parte do BC reforça a aposta em títulos de renda fixa atrelados ao aumento dos preços. Recomenda-se, porém, não deixar de lado investimentos que acompanham os juros (pós-fixados), tanto pela liquidez que proporcionam como por não estar totalmente descartada uma alta da Selic.
— O mercado ainda não tem uma visão clara sobre se os juros vão permanecer onde estão, subir ou mesmo cair, e também até que ponto há pressão política nas escolhas do BC. O que fica cada vez mais claro é a vantagem de aumentar a exposição em ativos ligados à inflação. Essa nova postura do BC, para mim, mostra que ele deixou de lado o objetivo de buscar a convergência da inflação para o centro da meta — afirma Felipe Pinheiro Steinfeld, diretor da Guide Investimentos.
Outro fator de incerteza deve-se ao fato de vários BCs estarem adotando juros negativos — como o Banco Central Europeu, o japonês e o sueco —, ou perto de zero, caso do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Na semana passada, em depoimento no Congresso dos EUA, a presidente do Fed, Janet Yellen, disse que a adoção de juros negativos não está descartada. Isso poderia conter a valorização do dólar frente ao real, facilitando o combate à inflação pelo BC brasileiro e reduzindo a pressão pela alta da Selic.
ATENÇÃO AO RISCO
Segundo Steinfeld, além dos tradicionais títulos públicos Tesouro IPCA (que pagam juros mais inflação), outra opção são as debêntures incentivadas, títulos de dívida emitidos por empresas que rendem IPCA mais juros. Estes embutem não só a Selic, mas também o risco associado à companhia emissora.
— Além do claro benefício de serem isentas de Imposto de Renda (IR), as debêntures incentivadas estão entregando alta rentabilidade e vêm crescendo muito em liquidez, com grande procura por pessoas físicas e maior oferta por parte de corretoras e fundos dedicados de bancos — explica. — Mas quem aplica deve saber que se trata de um investimento de risco, que oscila muito.
As debêntures incentivadas também não têm a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ou seja, em caso de calote, o investidor fica no prejuízo.
Embora tenham circulado no mercado rumores de que o BC poderia até reduzir a Selic este ano, a maioria dos especialistas acha isso improvável. Essa percepção fica clara nos contratos de juros futuros, que refletem a expectativa dos investidores com relação à Selic. Os DIs com vencimento em janeiro de 2017 caíram, desde a última reunião do Copom, de 15,14% para 14,20% ao ano. Ainda assim, seria arriscado sair de uma estratégia pós-fixada (que ganha com a alta dos juros) e ir para uma prefixada (que se aproveita da tendência oposta).
— Na minha opinião, o BC acertou ao não subir os juros, por causa da preocupação com a situação da economia global, que inspirava certa cautela. Mas é muito cedo para pensar em cortar juros. Pelo contrário. A alta dos preços administrados ainda não foi repassada para os serviços, por causa da demanda fraca. Ao contrário do que se fala, não dá para esperar queda da inflação por causa da recessão econômica. Então, não vejo lógica em trocar a estratégia de pós-fixada para prefixada — diz Pablo Spyer, da Mirae Asset.
Renato Nobile, diretor executivo e de Investimentos do Bullmark Financial Group, concorda:
— Prevemos que haverá aumento da taxa de juros no futuro, só que ainda não dá para saber, a curto prazo, em qual reunião do Copom ele virá.
Já Sandra Blanco, consultora da distribuidora Órama, recomenda ao investidor com capital a partir de R$ 50 mil dividir igualmente a carteira entre estratégias pós e prefixadas. Isso porque, como os juros já estão bastante elevados, seria justificável apostar parte dos investimentos em um recuo da Selic a longo prazo. Além disso, a incerteza com relação ao BC favoreceu os juros dos papéis prefixados. Para Sandra, vale a pena aproveitar os altos rendimentos oferecidos agora, pois eles podem recuar tão logo fique clara a posição do BC:
— A taxa de juros já está bastante alta. É claro que o cenário ainda exige cautela, mas já vínhamos recomendando aplicações de renda fixa prefixada ou atrelada à inflação. Mesmo que exista risco de os juros subirem ainda mais, as oportunidades nas aplicações prefixadas são muito atraentes.
SEGUNDO O PERFIL DE CADA UM
Nos títulos públicos prefixados e atrelados ao IPCA, Sandra recomenda optar por prazos mais curtos, como 2019, dada a volatilidade do cenário. E é preciso, ressalta, carregar os títulos até o vencimento: resgates antecipados podem acarretar prejuízo. O Tesouro Prefixado 2019 oferecia, em 5 de fevereiro, rentabilidade anual de 15,64%. Sandra também chama a atenção para títulos privados prefixados, como CDBs:
— Há alguns pagando 18%, 19%. É claro que eles representam um risco adicional, mas têm cobertura contra calote de até R$ 250 mil pelo FGC.
Marcos Figueiredo, superintendente de investimentos do Santander, também defende que, com a incerteza sobre os juros, o melhor é diversificar. Ele propõe que a divisão da carteira respeite o perfil do investidor. Quem é conservador deve tentar acompanhar mesmo os juros e manter pelo menos 75% dos investimentos em renda fixa pós-fixada, seja em títulos públicos ou fundos DIs. As letras de crédito (LCA e LCI) têm a vantagem de serem isentas de IR, mas não têm liquidez e obrigam o aplicador a esperar o vencimento do papel.
Os poupadores de perfil moderado podem, recomenda Figueiredo, colocar 40% em aplicações pós-fixadas, 25% em investimentos totalmente prefixados e 15% em papéis atrelados à inflação. Outros 15% podem ir para os fundos multimercados, que podem mudar de estratégia sempre que houver alterações de cenário. Os 5% restantes podem ser aplicados em Bolsa, mas por meio de fundo ativos de ações ou de carteiras recomendadas por uma corretora.
Aos investidores de perfil arrojado, a dica é menor exposição à renda fixa (20% tanto em pós como em prefixados, e 20% em papéis que seguem a inflação) e maior aos fundos multimercados. Segundo dados da Anbima, em 2 de fevereiro, os fundos Multimercados Livre renderam 18,69% em 12 meses.