Famílias brasileiras perdem R$ 62,5 bilhões para bets, aponta Comsefaz
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 11:45 | Atualizado há 1 hora
Bets movimentaram bilhões de reais via Pix e geraram perda líquida de R$ 62,5 bilhões às famílias | Foto: Adobe Stock
As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets, em 2025. No mesmo período, essas empresas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix.
Os dados estão na 3ª edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda) em parceria com o Cicef (Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento) com base em informações do Banco Central, das Epae (Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica) e em cálculos próprios.
O levantamento considera como perda o valor líquido das transações, calculado pela diferença entre o total apostado pelos usuários e o dinheiro devolvido pelas empresas na forma de prêmios. Os R$ 62,5 bilhões representam aproximadamente 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.
Segundo o boletim, o resultado mostra que a expansão das plataformas de apostas já produz efeitos que podem ser identificados na movimentação financeira dos domicílios brasileiros.
Até meados de 2024, os valores enviados por pessoas físicas para empresas dos setores de artes, cultura, esporte e recreação permaneciam relativamente próximos das quantias transferidas por essas empresas de volta aos usuários. O cenário mudou a partir de 2025.
Naquele ano, os pagamentos das famílias destinados a empresas desses segmentos cresceram de maneira significativa, enquanto os valores devolvidos avançaram em ritmo bem menor. Para os pesquisadores, esse comportamento é compatível com a dinâmica do mercado de apostas, no qual apenas parte do dinheiro colocado pelos jogadores retorna na forma de premiações.
Regulamentação e movimentação via Pix
O estudo relaciona a mudança no comportamento das transações à regulamentação das bets no Brasil. A partir de janeiro de 2025, as empresas passaram a ser obrigadas a se cadastrar para operar de forma regular no país.
Para medir o impacto da entrada das apostas no mercado regulamentado, os pesquisadores analisaram as transferências via Pix realizadas entre pessoas físicas e empresas dos setores de artes, cultura, esporte e recreação entre outubro de 2024 e março de 2026.
A metodologia consistiu em estimar qual seria o volume de transferências caso a mudança provocada pela regulamentação não tivesse ocorrido. Em seguida, os pesquisadores compararam essa projeção com os valores efetivamente registrados. A diferença entre os dois cenários foi utilizada como estimativa do impacto associado às bets.
O estudo calculou uma média mensal adicional de R$ 24,1 bilhões atribuída às plataformas de apostas. Considerando somente 2025, o valor acumulado chegou a R$ 350,97 bilhões.
Os autores, porém, fazem uma ressalva: por se tratar de uma simulação estatística, os resultados não comprovam uma relação direta de causa e efeito entre a regulamentação das bets e o aumento das transferências.
Diferença entre bets legais e clandestinas
O valor estimado pelo Comsefaz é superior ao registrado pelo Ministério da Fazenda para as casas de apostas autorizadas a funcionar no Brasil. Segundo a pasta, as bets legais tiveram receita de R$ 36,9 bilhões em 2025.
Uma estimativa elaborada pela consultoria LCA, a pedido do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), aponta que as plataformas clandestinas representaram entre 41% e 51% de todo o mercado de apostas no período.
A diferença de R$ 25,6 bilhões entre os R$ 62,5 bilhões calculados pelo Comsefaz e os R$ 36,9 bilhões informados pelo Ministério da Fazenda corresponde a aproximadamente 41% do valor apontado pelo boletim. O percentual coincide com o limite inferior da estimativa apresentada pela LCA, embora os levantamentos utilizem metodologias diferentes e não possam ser comparados diretamente.
O boletim também identificou uma mudança após a proibição de apostas por beneficiários do Bolsa Família, implementada em outubro de 2025. A medida foi seguida por uma desaceleração no crescimento das transações e por uma maior aproximação entre o volume projetado pelos pesquisadores e o que foi efetivamente observado.
Para os autores, o efeito da restrição sobre o volume total de transferências indica que famílias de menor renda têm participação significativa no mercado brasileiro de apostas esportivas on-line.
O estudo relaciona esse cenário ao endividamento e ao comprometimento da renda das famílias e afirma que os resultados reforçam a existência de um quadro de vulnerabilidade financeira entre os domicílios brasileiros no atual ciclo econômico. (FOLHAPRESS/MÁRCIA MAGALHÃES)