Sem definir voto no referendo, gregos sacam dinheiro e temem o futuro
Redação DM
Publicado em 26 de junho de 2015 às 22:42 | Atualizado há 11 anosATENAS – Às 3h30m da madrugada deste sábado, Dimitris, um aposentado de 60 anos, pedia a vez em uma grande fila ante um caixa automático no bairro de classe média ateniense de Galazi. Duas pessoas haviam discutido sobre o referendo anunciado horas antes pelo governo sobre o a proposta de resgate do credores internacionais. E Dimitris não sabia bem o que pensar. Entre sinais de cansaço, uma voz mais alta que a outra e gestos de resignação e estupor, mais de 20 pessoas aguardavam a para sacar algum dinheiro e garantir um pouco de liquidez, com todo o fim de semana pela frente.
— Não tenho medo de um controle de capitais, com uma aposentadoria de € 500 e outra, privada, de € 400 não tenho muito a perder, mas informaram pela TV que já haviam transferido as aposentadorias de junho aos bancos e por isso vim sacar — explicava Dimitris, dizendo não saber como vai votar no referendo do próximo dia 5. “Com o euro ou com a dracma vai ser ruim para a gente, estamos perdidos. Não decidi meu voto, mas não gosto de chantagem da Europa. Isso acontece porque a Europa não quer um governo de esquerda.
Nas primeiras horas após o anúncio de uma consulta popular sobre a proposta das instituições (a pergunta será se se aceita ou não o texto, que Atenas qualificou na sexta-feira como “ultimato”), o ambiente que reinava nas ruas não era de pânico, mas de inquietação generalizada. Evi, uma jovem de Salônica que passa o fim de semana em Atenas, aguardava ante um caixa eletrônico no bairro.
— A verdade é que eu precisava do dinheiro para sair e beber, mas eu também prefiro ter dinheiro para o que pode acontecer nos próximos dias — afirmou Evi.
Sua amiga Eva acrescenta:
— Não temos pânico, mas medo caso apliquem controles de capital até a realização do referendo, e com o que pode acontecer após a votação.
Nenhuma das duas teve tempo para decidir seu voto.
— Só se passaram algumas horas após o anúncio do (primeiro-ministro grego, Alexis) Tsipras. Temos que ler cuidadosamente as propostas de ambas as partes, porque a verdade é que não sabemos quem pode estar certo — disse Eca.
Com as duas, uma outra jovem, Marianna, dava as mesmas razões e usava os mesmos argumentos que as duas amigas para explicar sua presença de madrugada no caixa eletrônico.
Em Kipseli, outro bairro residencial de Atenas, a presença no caixa eletrônico de homens e mulheres com raupa de ficar em casa sugeria que saíram apressadamente, logo após saberem do referendo. Eleni Varvitis, eleitora da centro-esquerda, afirmou que, ainda que esteja de acordo com a resistência do governo de Atenas “à ditadura de Bruxelas”, “não é esta a forma de fazer as coisas”.
— Pode ter um efeito contraproducente, ninguém sabe como tudo isso pode terminar e só espero que Tsipras tenha um plano para sair mais ou menos ileso — afirmou Eleni.
‘DEPOIS DE 5 DE JULHOS, NÃO HAVERÁ NADA ALÉM DO ABISMO’
Desde o anúncio da votação, em uma mensagem direta de Tsipras ao país na madrugada deste sábado, várias entidades bancárias postaram em seus sites comunicados avisando sobre a suspensão de transferências e outras operações via internet até segunda-feira.
Na manhã deste sábado, Yanis Vlajos, gerente de una empresa de automação, encarou uma fila em um caixa eletrônico perto do mercado central.
— O site do meu banco não funciona e já fui a quatro caixas eletrônicos, sem sucesso, pois já não há dinheiro. E, obviamente, os bancos não vão repor o dinheiro até segunda-feira, se é o que o farão e se não houver uma controle de capitais. A proposta de Tsipras é um horror e demonstra uma estupidez suprema por parte do supina por parte do governo. Acreditam que assim vão deixar alguém contente? Nos lançaram diretamente no vazio, porque, depois de 5 de julho, não haverá nada além do abismo.
Por volta do meio-dia, os meios de comunicação gregos afirmavam que os caixas eletrônicos já estavam vazios. As entidades bancárias, no entanto, não confirmaram a informação.