Educação

A tragédia da educação brasileira na pandemia

O professor Augusto Narikawa analisa os efeitos do impacto da pandemia na vida dos estudantes e professores e chama a atenção para a falta de respaldo do estado para o setor

diario da manha
Foto: Prefeitura de Barueri

A pandemia de Covid-19 mudou a rotina da população mundial como um todo e ressignificou as formas de trabalho e convivência social. Setores como transporte, comércio e mercado imobiliário foram fortemente impactados. Contudo, a grande preocupação foi com a educação, que já vinha enfrentando problemas e, com o novo coronavírus, viu suas estruturas ainda mais abaladas.

Em 2020, escolas do Brasil e do exterior fecharam as portas para conter o avanço do vírus e, com isso, o Ensino à Distância (EaD) foi adotado para que os estudantes não perdessem o ano letivo. Mas como muitos alunos brasileiros não têm acesso a um computador e internet estável em casa devido às condições sociais, viu-se uma grande evasão escolar e a desigualdade na educação ficou ainda mais escancarada.

Segundo estudos do Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para Infância (Unicef), cerca de 5,5 milhões de crianças e adolescentes ficara sem acesso à educação. O número de estudantes que abandonou os estudos impressiona, foram 1,38 milhão que saíram das escolas, o que representa 3,8% dos estudantes.

Fora isso, há o déficit de aprendizagem, a falta de concentração e de convivência com os colegas e professores fez com que o rendimento dos estudantes caísse. Um estudo intitulado “Perda de Aprendizagem na Pandemia”, junto ao Insper e Instituto Unibanco, calcula que, no ensino remoto, somente 17% da disciplina de matemática e 38% de língua portuguesa foram aprendidos pelos alunos.

Falta de acessibilidade prejudicou professores e alunos

O professor Augusto Narikawa afirma que os impactos da pandemia na educação foram enormes e enfatizou a desigualdade socioeconômica que prejudica a educação antes mesmo da pandemia.

“Houve um alerta que já estava presente há muito tempo e que não queríamos ver, o abismo que separa ricos e pobres ficou ainda maior. Os ricos continuaram tendo, durante a pandemia, a educação simultânea, enquanto os pobres não tinham acesso aos meios que as pessoas pudessem manter a educação de maneira geral”, afirma.

O professor afirma que, segundo a ONG Todos Pela Educação, ‘mais de 40,8% das crianças no Brasil não sabem ler nem escrever’.

“Esses impactos foram muito fortes nesta perspectiva”, diz.

A normalidade do ensino parece estar longe, e isto deixa Augusto e demais profissionais da área preocupados.

Professor Augusto Narikawa. (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

“Vai ainda levar cinco, seis anos para que nossos índices de educação possam voltar ao padrão normal. Mas me espanta a ideia de normalidade porque não é normal uma educação tão frágil, visto que o Brasil é um país que nunca investiu muito na educação”, explana.

A falta de incentivo à educação leva, cedo ou tarde, à evasão escolar e, segundo o professor, a população não culturalmente preparada para aulas híbridas.

“A evasão escolar ocorreu nos níveis fundamental, médio e superior. O Brasil não está preparado para uma educação emancipadora, então nós professores recorremos a uma série de metodologias ativas que fizessem com que nossos alunos prestassem atenção, participando através de áudio, mídias”, afirma.

Augusto usou de seu papel como professor para ajudar e ouvir alunos que se sentiam sozinhos durante o período em que as aulas eram remotas.

“Fiz com que eles se sentissem bem, em várias aulas eu tive que parar pra conversar. Em muitas vezes nós falávamos “como você está?”, e o aluno dizia que precisava escutar isso, pois não estava bem, então eu utilizei meu lado humano, para que o aluno não se sentisse sozinho”, conclui.

Além disso, o docente fala sobre os prejuízos que a pandemia trouxe tanto para os estudantes quanto para os educadores.

“Se tratando de prejuízos, eu penso muito no aluno, já vi estudante chorando em sala de aula por não conseguir acompanhar, a internet não funcionava. Vi aluno subir em morro para poder pegar sinal de celular. Muitos colegas meus desistiram da profissão porque o salário achatou”, desabafa.

Ele destaca também outros prejuízos, como na saúde mental e fincanceiro.

“Tudo que foi consumido na casa do professor, como internet e luz, não teve respaldo de nenhuma instituição. Foi um processo muito dolorido tanto para alunos quanto para professores, é triste ver colegas tendo que fazer tratamento psiquiátricos e psicológicos”, completa o professor.

Augusto afirma que houve falha de autoridades políticas no auxílio à educação.

“O estado brasileiro falhou com tudo, somos o segundo país em número de mortes, negou-se vacina, pandemia e educação. As universidades federais fecharam por muito tempo, escolas públicas e federais também, e os professores tiveram que se virar para tentar levar o míninmo de dignidade possível”, diz.

A evasão escolar ocorreu nos níveis fundamental, médio e superior. (Foto: Getty Images)

A importância da educação, para o professor, é fundamental para o estado e como ela pode ser trransformadora. Agora que a pandemia parece dar uma trégua, ao menos no Brasil, Augusto reflete sobre o poder deste setor.

“Toda educação precisa ser revista, nós precisamos compreender o quão importante a educação é para o estado e o quanto ela muda a vida de pessoas, o quanto ela abre novas perspectivas. Sempre falo aos meus alunos que ela liberta, é preciso rever, portanto, o papel do professor na sociedade brasileira, que ele seja reconhecido. É preciso investir nos nossos estudantes que, muitas vezes, estão carentes e não têm internet para assisir a uma aula ou comprar um livro. É necessário olhar com mais carinho para a educação para que ela seja, de fato, direito constitucional e não um fardo que o estado leva como sendo algo ruim”, finaliza.

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