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De mulher para mulher: cineasta indígena e pesquisadora branca criam juntas videoinstalação

diario da manha
Patrícia Ferreira é uma índia da etnia mbyá-guarani e é a cineasta mulher mais atuante do projeto Vídeo nas Aldeias (VNA)
Sophia começou a criar a videoinstalação em 2016, quando fazia a pesquisa de campo para conclusão do seu mestrado em Antropologia

Duas mulheres, uma branca, outra índia, cien­tes de suas condições e das diferentes oportunidades que tiveram refletindo a realida­de uma da outra. É mais ou me­nos essa a tônica de “A Imagem Como Arma”, uma videoinstala­ção feita através da parceria entre a cineasta mbyá-guarani Patrícia Ferreira e a artista visual goiana Sophia Pinheiro. A obra será do­ada ao Museu Antropológico da UFG, mas antes o público em ge­ral vai poder visitá-la em exposi­ção que entra em cartaz amanhã no Centro Cultural UFG (CCU­FG). O lançamento acontece das 18h às 21h, e será seguido de ba­te-papo com as artistas.

Realizado com apoio do Fun­do de Arte e Cultura de Goiás (FAC), o trabalho ainda esta se­mana vai chegar a Pirenópolis e a cidade de Goiás, onde a produ­ção será exibida, respectivamen­te, neste sábado (16) e domingo (17). Depois da circulação, a in­tenção das autoras é de que “A Imagem Como Arma” chegue a outras aldeias indígenas e tam­bém fora do Estado de Goiás.

“A importância do projeto não é só regional, mas para todo o território brasileiro e para os de­mais locais do mundo, visto que a questão indígena e da mulher são assuntos universais”, defen­de Sophia, que começou a criar a videoinstalação em 2016, quan­do fazia a pesquisa de campo,pa­ra conclusão de um mestrado em Antropologia pela UFG, e assim conheceu Patrícia.

Mas antes de saber mais so­bre a obra é preciso conhecer um pouco destas duas mulhe­res de realidades distintas, po­rém que foram unidas pelo ci­nema. Patrícia Ferreira é uma índia da etnia mbyá-guara­ni. Mora na Aldeia Ko’enju, em São Miguel das Missões (RS). Atua como professora desde 2006, e em 2007 cofundou o Coletivo Mbyá-Guarani de Ci­nema e hoje é a cineasta mu­lher mais atuante do projeto Vídeo nas Aldeias (VNA).

Já Sophia Pinheiro é Mestre em Antropologia Social no Pro­grama de Pós-Graduação em Antropologia Social na Universi­dade Federal de Goiás (PPGAS/ UFG) e graduada em Artes Visu­ais Bacharelado em Design Gráfi­co pela mesma universidade. Foi cofundadora e coordenadora do Coletivo FAKE FAKE (2008) e vi­ce-presidente do Coletivo Cine Cultura (2012). Tem filmes recen­tes aplaudidos Brasil afora, como Notas de Falecimento (2016) e Se­res sem umbigo (2017).

Cena da videoinstalação A Imagem Como Arma

OLHARES

Para criação de “A Ima­gem Como Arma” Sophia este­ve duas vezes na Aldeia Ko’en­ju, em São Miguel das Missões (RS). Enquanto Patrícia visi­tou uma vez o Estado de Goiás. Pela distância, parte do mate­rial audiovisual que compõe a videoinstalação vem de video­-cartas trocadas pelas mulheres ao longo de dois anos.

Em princípio, o projeto pro­curava compreender, por meio de imagens, o processo criati­vo artístico de cada uma: a cul­tura impactando o olhar poéti­co e afetos da mulher indígena e da mulher branca sobre o outro, o cotidiano, sobre tempo e espa­ço. No entanto, ao longo da pro­dução, a obra foi evidenciando, cada vez mais, a relação pessoal entre as duas mulheres.

E isso se pode notar clara­mente no encontro das autoras na aldeia, cena que foi a gran­de responsável pela densidade da videoinstalação. Pois, neste momento, quando uma filma a outra, é que fica evidente seus olhares e pontos de vistas reple­tos de contrastes. “Nós aceita­mos o desafio de mudar, de nos compreender”, conta Patrícia.

De acordo com a cineasta, foi rápido esta compreensão da re­alidade e valores morais e éticos de cada uma. “E acho que quan­do a gente percebeu essa verda­de fomos acolhidas uma pela ou­tra. Assim, compreendi que essa consciência é a nossa identidade, de cada uma, e apesar de sermos tão iguais − porque somos duas mulheres imperfeitas habitan­do esse mundo imperfeito. E ao mesmo tempo, também somos diferentes”, filosofa Patrícia.

Para Sophia, a obra traz à tona ainda “questões das mu­lheres” pouco discutidas na an­tropologia, nas artes visuais e no cinema. “São mostradas a casa, a maternidade, a mulher como esposa, mas com viés subjetivo e feminista, confron­tando a desvalorização univer­sal do domínio doméstico e do feminino”, explica Sophia.

ARMA POLÍTICA

Talvez um dos maiores pon­tos fortes da exposição é de dar oportunidade para mulheres in­dígenas, através da linguagem audiovisual, se expressarem so­cialmente, politicamente e artis­ticamente, ou seja, sem romantis­mos e clichês. “A imagem é nossa flecha, nossa arma, que aprende­mos a usar assim como o papel”, argumenta Patrícia.

Já Sophia entra na obra mui­to consciente de seus privilégios e espaços que pode ocupar por ser branca. “No filme, quando Pa­trícia diz para os brancos: ‘Acho que vocês queriam que a gente não existisse’, ela também destina uma mensagem a mim. Mas, ain­da sim, somos nós, vulgo ‘mulher branca’ e ‘mulher indígena’, crian­do uma obra artística juntas e isso, sim, pode ser uma arma pra ras­gar o peito de todo olhar com viés hegemônico ocidental, etnocida, preconceituoso e machista”, arre­mata a pesquisadora.

 

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