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A pobreza dos Anhangueras que incomodou o governador da Província de Goiás

diario da manha
Acervo da Casa Insua, Portugal Prospecto de Vila Boa (1751), onze anos após a morte do Anhanguera, Fi

A Picada dos Goyazes ou a Estrada dos Goyazes, responsável pela entra­da de aventureiros e saída de riquezas das minas coloniais goianas e que provocou ao lon­go do seu leito, o surgimento de várias cidades paulistas, minei­ras e goianas, cuja paternidade maior é atribuída ao Anhan­guera, Filho, foi palco revelador da pobreza que se abateu sobre a descendência do Bandeiran­te, que pobre também morreu em 1740, em Vila Boa, Cidade de Goiás, por volta dos seus 85 anos de idade.

José Martins Pereira de Alencastre, Governador da Província de Goiás, no período de 21.04.1861 a 26.06.1862, pu­blicou em 1863, o livro ‘’Anais da Província de Goiás”, cujas páginas registram, entre outros assuntos importantes da histo­riografia goiana, um aconte­cimento acidental, e nem por isso menos significativo para os estudiosos desses torrões.

Quando Alencastre em sua viagem de retorno a São Paulo, ocorrida, provavelmente, no mês de julho de 1862, num dos pontos de pouso da Estrada dos Goyazes, que acredito ser o de Jundiaí (SP), teve lá o for­tuito encontro com uma famí­lia, cuja miserabilidade huma­na, envolvia-os sem piedade.

As crianças do casal, em número de três, relatou o Alencastre, eram belíssimas, contrastando com a pérfi­da miséria dos seus trajes e parcos pertences, arrasta­dos por três animais. Arran­chados neste pouso, onde o “luxo” não permitia degredos sociais, acabou por propiciar diálogo entre Alencastre e o pai dos rebentos. O miserável chefe de família a cada meia palavra blasfemava contra a sua sorte. Entre uma e outra pedrada no destino, contou que eles estavam se dirigin­do para Araraquara (SP), ten­tar uma melhor vida.

Dessa conversa, uma reve­lação estarrecedora fez se ou­vir do miserável homem: ele era nada mais, nada menos, do que filho legítimo de Bar­tolomeu Bueno de Campos Leme e Gusmão, descenden­te direto da quinta geração de Bartolomeu Bueno da Silva.

Na verdade, ele não era fi­lho legítimo, era sim um filho natural. Uma vez que ele ti­vera três filhos que resulta­ram do consórcio com Ana Teixeira da Mota, falecida em 1809, no Porto do Corumbá. São seus filhos legítimos: Ma­ria Pulcina Bueno, nascida em 1798. Mariana Fausta Bueno, nascida em 1804 e Bartolo­meu Bueno da Câmara, nas­cido em 1806. Esse seu único filho, acometido de impalu­dismo, morreu em 1833.

Quanto ao filho que narra Alencastre, só pode ter sido ele um rebento natural. Sen­do que o Coronel Bueno, logo após a morte da sua mulher em 1809, mudou-se para a Capitania de São Paulo, onde permaneceu até a sua mor­te, por volta de 1825. Nada de causar espanto a possibilida­de dele ter constituído uma nova família.

Acentuada indignação nesse encontro percebe-se na narrati­va do autor. Porém, não se sabe se por humildade ou por des­prendimento, ele não mencio­na qualquer ajuda prestada à indigente família do possível te­traneto do Anhangüera, Filho.

140 ANOS

É irreverente pensar ou quem sabe constrangedor para os confrontantes des­se encontro, principalmente, para o possível descendente do Bueno, depois de passa­dos 140 anos, nessa estrada que fora pisoteada pela pe­las botas do seu tetravô, de onde soergueriam pousos, ar­raiais, vilas e cidades, reserva­ria este encontro inusitado, com o nobre representante do Imperador Pedro II.

O lado ruim da história pes­soal do jovem Alencastre e do conceituadíssimo intelectual fica por conta da sua saída do Governo de Goiás, quan­do ele teria colocado debaixo dos braços, importantes do­cumentos da história de Goiás que estavam sob o cuidado do Arquivo Histórico do Estado, e os levou consigo, para nunca mais voltarem.

O sequestro talvez tenha se dado por falta de tempo para escrever o livro Anais da Pro­víncia de Goiás, devido a sua curta permanência frente ao governo goiano. Ainda bem que ele escreveu o livro.

 

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