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Qual a mea-culpa dos historiadores que não conseguem vencer os memes?

diario da manha
FOTO: DIEGO BRESANI/ REPRODUÇÃO

Em vésperas de uma possí­vel eleição de Jair Bolsona­ro, no qual muitos classifi­cam como o “avanço do Fascismo” que envolve perdas de direitos, e uma possível institucionaliza­ção da violência que se maximi­zará contra as minorias, princi­palmente às mulheres, negros e homossexuais. Assustadoras tam­bém são as possíveis perdas que a educação pode ter levando em conta que o candidato se posicio­na a favor da Escola Sem Partido e demonstra um total despreparo para as nuances que a Educação requer. Atemorizante também é a síntese que o candidato traz sobre a memória da Ditadura Militar, exaltando a tortura e torturado­res, transformando o sofrimento e morte de milhares de pessoas no período em uma brincadeira sem significado, e como ele mes­mo disse em rede nacional sobre o Golpe Militar: “No mais deixo os historiadores pra lá”.

No dia seguinte a entrevista de Jair Bolsonaro, os argumentos so­bre a história e o conceito da Dita­dura Militar, foi vencida nas redes sociais pelos “Memes”. A história foi realmente deixada de lado e é subjugada quotidianamente pe­las “Fake News”, que distorcem os conceitos junto com esforçadas e longas examinas para em uma imagem dizer que o Nazismo era de esquerda, contrariando através de risadas e chacotas pesquisas fei­tas ao longo de um século como a de Norbert Elias. Com isso tudo a pergunta: porque a História é ven­cida facilmente e porque ela per­deu seu prelado na argumentação contra os achismos?

A história é uma ciência inter­pretativa, pois ela serve de ferra­menta para interpretação não ape­nas do passado, mas para que o indivíduo se oriente no presente, ela produz o que o teórico da his­tória Jorn Rüsen chama de cons­ciência histórica, é escrita através de minuciosos critérios científicos e produz conceitos como bonapar­tismo, regime, revolução, ideologia, feudalismo, monoteísmo, populis­mo, proletariado, totalitarismo en­tre outros milhares que amplificam as formas de compreensão da rea­lidade. Todavia todos estes concei­tos parecem ter sido jogados fora e sua profundidade hoje é recha­çada por boa parte da população. Desde 2013, quando ficaram evi­denciadas as medidas impopula­res do Governo do PT, a História não teve força suficiente para argu­mentar contra o avanço do pensa­mento e ideário conservador e fas­cista, mesmo que em 2016 muitos tivessem dito “Sou contra o Golpe, eu estudei História”.

Não adiantou estudar histó­ria porque de 2013 pra cá os re­lativismos colocaram História como “coisa de comunista”, os es­tudantes de universidades públi­cas como meros “drogados petis­tas”, mesmo não compreendendo que o quadro das Universidades Públicas e principalmente as fa­culdades de História estão situa­das muito mais em um campo conservador do que num campo de apoio à luta dos movimentos sociais. Quando em 2016, Michel Temer assumiu o poder dando início á uma agenda que conge­lou investimentos na Educação e na Saúde e aprovou uma reforma trabalhista que retirou direitos adquiridos dos trabalhadores, a população e alguns movimentos sociais tentaram reagir de forma mais enérgica com manifestações combativas e greves, o sindicalis­mo petista com medo de perder o controle sobre os trabalhadores implodiu as greves e se posicio­nou de forma branda nas mani­festações, com intuito de garantir sua hegemonia via eleições, pro­duzindo então o quadro caótico que vivemos até o presente mo­mento. Nas faculdades de Histó­ria espalhadas pelo país algo bem parecido começou muito antes.

Não é tão surpreendente como funciona o clube dos Historia­dores que se comportam como lordes do conhecimento muitas vezes inacessíveis aos seus pró­prios alunos, quiçá podemos fa­lar de seu envolvimento com a sociedade. Durante muito tem­po boa parte dos historiadores manteve desprezo (alguns ainda mantém) pelo ensino de história no ensino médio e fundamental. Muito recentemente no curso de História da Universidade Federal de Goiás foi criada uma linha de pesquisa nos cursos de Mestrado e Doutorado que intersecciona o ensino de história e educação. Já no campo teórico os historiado­res anteciparam no final da dé­cada de 1990 e início dos anos 2000 a relativização e a deterio­ração dos campos de estudo da história social e da história eco­nômica demonizando e menos­prezando teorias sociais como o marxismo, elegendo uma nova máxima: a história cultural.

A história cultural surgiu como uma alternativa bastante frutífera no mundo inteiro, através dela o historiador é capaz de trazer vários campos do conhecimento para o seu território, amplificando os es­tudos da história, trazendo concei­tos da antropologia e objetos de to­das as outras ciências. Entretanto no Brasil, a “nova máxima” foi uti­lizada para combater e banalizar de forma vulgar outros campos teóricos, no que tange a história econômica e a história social. Um dos livros mais divulgados para promover a história cultural foi do historiador francês Roger Chartier, chamado “A História Cultural: en­tre práticas e representações”, se tornou uma bíblia para novos estu­dantes de história que se atraíram pelo discurso da desconstrução. Porém o livro em si além de criti­car o estruturalismo e compará-lo ao marxismo sem propriedade ou qualquer discussão pertinente, re­lativiza o estudo das classes sociais, colocando-os como engessados e previamente postulados, militan­te de uma história mais dinâmica de categorias de análise abertas e predispostas a aumentar a gama de sentidos através do desenvol­vimento da pesquisa. É certo que Roger Chartier omitiu-se dos es­tudos de E.P. Thompson e não leu nenhuma linha das obras de Karl Marx, trocou de lugar o marxis­mo com o althuserianismo, que foi responsável por poucas obras no campo historiográfico.

O livro de Chartier além de frá­gil na argumentação se apoia mui­to mais nas obras de outros autores como Norbert Elias e faz de forma limitadíssima uma discussão so­bre o conceito de “representação”, que não tem o quilate de histo­riadores considerados do mesmo segmento Robert Darton e Carlo Ginzburg. Mas esta obra ganhou bastante circularidade e se tornou cânone principalmente por ser bi­bliografia de processos seletivos dos principais programas de Pós­-Graduação em História pelo país. A moda de hostilizar o marxismo de maneira vulgar seguiu domi­nando também o mercado edito­rial dos historiadores e ganhou po­der político através da Associação Nacional de História (ANPUH), que promoveu obras de outros au­tores de mesma argumentação po­bre como Peter Burke e Lynn Hunt e assumiu sua forma abrasileira­da na historiadora Sandra Jatahy Pesavento de no ex-presidente da associação Durval Muniz de Al­buquerque. Logo era normal ver alunos dos cursos de história com aversão a marxismo e de tabela, história política, social e econô­mica e concomitantemente com aversão aos estudantes engajados em centros acadêmicos e organi­zações estudantis. Temos um afas­tamento dos historiadores de teo­rias sociais e políticas.

Na sua forma institucional, este movimento dominador do mercado editorial, passou a in­fluenciar também os dossiês das principais revistas de história do país, criando um grande proble­ma para os programas de pós­-graduação de linhas de pesqui­sa voltados para História Política, Social e Econômica que tiveram poucos lugares para tentar pu­blicar seus trabalhos, tendo em vista que no governo do PT se in­tensificou os critérios de produ­tividade para que os programas pudessem continuar funcionan­do. Como resultado após a queda do governo do PT, o representante da área de História da Capes, Car­los Fico, que se posicionou contra o governo Michel Temer, anun­ciou a extinção de vários progra­mas de doutorado importantes para a história social e econômica, como História Econômica da USP e o doutorado de História da UFU.

A história cultural não sur­giu com esse intuito no mundo, mas, a sua mediação através dos historiadores brasileiros acabou dando esta conotação, junto a isso o forte apelo à produtividade na pesquisa ajudou os estudan­tes de história a estarem mais preocupados com suas disser­tações e teses do que com a rea­lidade social, se ausentando to­talmente dos espaços de debate quiçá os espaços de disputa po­lítica, se tornaram apáticos em sua maioria. Não trata-se aqui de dizer que o marxismo é o salva­dor da pátria, mas esse repúdio ao marxismo trouxe de tabela o repúdio a outros autores e teo­rias sociais, botaram pra escan­teio não só Karl Marx mas Max Weber, Theodor Adorno, Walter Benjamin e no Brasil Milton San­tos, José de Sousa Martins, Mau­ricio Tragtemberg, Celso Furta­do, Paulo Freire e Gilberto Freyre e Florestan Fernandes.

A apatia dos historiadores re­percutiu na hora que a popula­ção mais precisou, quando se cha­mou Ditadura de Regime, quando taxaram o Nazismo de esquerda, quando falaram que não existe preconceito racial no Brasil, não houve um movimento enérgico de resposta dos historiadores, quan­to aos de cima, poucos os profes­sores universitários que apoiaram seus ex-alunos que hoje estão nas escolas tendo que lidar com toda a confusão, e os estudantes/pesqui­sadores atuais sequer tem energia para debater estes assuntos pois, estão preocupados com os estu­dos culturais que estudam “A re­presentação da mulher negra no cinema brasileiro”, mas não estu­dam mais porque a mulher negra brasileira sofre. É claro que não se pode imputar todo esse pro­blema político e educacional aos historiadores, mas, os historiado­res não só colocaram de lado au­tores importantes, mas, esquece­ram o principal, que é o diálogo com a sociedade. Vão continuar perdendo para os memes.

(Alexandre de Paula Meirel­les, doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás)

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