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Terceiro CD do Underdog Pack traz o gosto da estrada e das ventanias

Grupo de rock goiano mistura linguagens tradicionais como blues e folk para manter viva a rebeldia e inocência do estilo

diario da manha

A banda Underdog Pack é uma veterana do cenário rock brasileiro. E como quase tudo no rock, carrega uma história cercada de mitos: reza a lenda que o cantor e principal compositor da banda, Rodolfo Campos, foi visitado pelos imortais do rock and roll e imbuído de uma árdua tarefa – defender o rock em um mundo inóspito, sem rádios que tocam o estilo e mesmo sem um público em massa para absorver as mensagens básicas do rock: liberdade, rebeldia, experiência e juventude. A turma se reuniu para reviver uma era de ouro, em que o rock divertia e abria as portas da percepção.
Rodolfo, Washington Micena e Enilson integram um power trio de Goiás que tenta religiosamente cumprir a missão.
Para comprovar, a banda prepara o lançamento do terceiro CD, “Lullabies and Cities Tales” -, materialização da disciplina e maturidade dos músicos.
A Underdog faz uma investigação de timbres, de efeitos, tonalidades e afinações para levantar a poeira dos estilos mais honestos da música popular americana/inglesa – caso do blues, folk, hard rock setentista. O resultado emociona por ser honesto.
As faixas retratam uma temporada nos estúdios e outra nos quartos dos músicos, com retornos sonoros ao que escutavam na infância e adolescência. É possível perceber a pesquisa dos timbres, overdubs e métrica como valores agregados ao que apreenderam na captação e gravação. Por seu turno, a pegada, referências estéticas e cores (e valores) são as bases do grupo, todas forjadas numa envergadura moral dos tempos em que o rock era atitude – fosse ou não sucesso, a música seria produzida e compartilhada. Tal estrutura depende dos riffs fortes da guitarra (muitas vezes simples power chords cheios) e da sustentação do baixo e bumbo que metralham os graves como uma máquina.
O resultado prático: os vocais de Rodolfo estão mais enterrados na música do que nas gravações anteriores – agudos mais saturados e limpos nos compressores, algo reatualizado pelos grupos de stoner rock. Os harmônicos das vozes soam mais ríspidos – se fossem cores, seriam um céu cinza na estrada. Rodolfo gravou todos instrumentos de cordas ( como viola, bandolim, ukulelê, etc) e até percussão e teclados. A bateria de Micena, por sua vez, tem uma limpeza e força que dá ao Underdog energia de locomotiva, com respeito ao silêncio e religiosas pausas.
“Sad man blues”, “Gana de viver”, “Old Lion”, “Fame and Fortune”, “Legacy”, dentre outras, trazem ecos do passado recente. Tem blues atualizado por overdrives e rocks recombinados com as harmonias atuais – muito além das soluções circulares. Uma destas novas canções, o single “Hit the Stride”, mostra um volume adequado das cordas de aço, dobradas, subterrâneas, telúricas. Primeiro, percussão; depois, uma bateria. A viagem deixa para trás a poeira de Bob Dylan, America e Neil Young. Pensa-se até na épica experiência de Woody Guthrie. A vida, amigos, é ir além, como pedia a geração de Jack Kerouac e Lawrence Ferlingheti – o último beat morto em fevereiro deste ano. As últimas pentatônicas dão a certeza de que a vida precisa seguir em frente. É travessia.
“What a make” e “Silent place” desmontam a estrutura do rock e ofertam uma leitura polissêmica, madura e ao mesmo tempo ingênua, como que se fosse o primeiro olhar sobre o tema. Chega a ser cândido. As letras parecem melhores, fluentes, mais lógicas, ainda que o propósito seja lançar premissas e não verdades – como a existencial “Hit the stride”.

Liquidificasoul
Paralelo ao Underdog, Rodolfo faz um trabalho pedagógico de resgate de canções. Ele sozinho grava as faixas em sua digital work station – de Rush a Bob Marley – e disponibiliza para acesso em redes sociais. É um trabalho de curadoria, seleção, escolha e gravação de todos instrumentos que oferta uma biblioteca de hits, cujo propósito é proteger este patrimônio imemorial.
O novo trabalho traz estas experiências e muitas das conquistas estéticas de “Unleashed”, segundo disco do power trio.
“Lullabies and Cities Tales” é um liquidificador de mais velocidades, com mais groove e até melodias da soul music e acordes country.
Traz o resgate do já falado primado do rock: liberdade e juventude. Ser livre é fazer aquilo que deseja e não o que o mercado quer ouvir. E jovem – que nada tem a ver com idade – é rebelde, irresignado com a sentença que nos é dada.
Underdog Pack tem estes predicados em seu terceiro CD. Por isso a metáfora perfeita para o disco é a ventania: todos estilos determinantes estão lá, são reconhecíveis, mas eis que chega a ventania. Toda a ordem sonora é modificada. Início e fim se misturam, soul, reggae e o hard rock assumem cores absolutamente inéditas. Depois do movimento ríspido da poeira, é ouvir e seguir em frente.

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