Cultura

Ateliê junta boa gastronomia, referência a Clarice Lispector e arte em casarão Art déco

Após passar o olho rapidamente pelo ambiente, identifico uma colagem do artista visual goiano Hal Wildson. Frida Kahlo estava no centro da tela

diario da manha
Espaço proporciona passeio por arte goiana por meio da boa gastronomia – Fotos: Instagram/ Divulgação

Lá fora chove. Subo os degraus que dão para o ateliê. Na parede à minha direita, como se estivesse me encarando numa posição de rainha da literatura brasileira, a escritora Clarice Lispector deposita uma máquina de escrever em seu colo. A fotografia é acompanhada por uma crônica que a autora publicou no saudoso Jornal do Brasil em 1968. “Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo”, confessa Clarice. 

Após passar o olho rapidamente pelo ambiente, identifico uma colagem do artista visual goiano Hal Wildson. Frida Kahlo estava no centro da tela. Sentamos, eu e minha companheira, na mesa posicionada ao lado. Era como se Frida, de alguma maneira, meio que sorrindo para nós, nos observasse enquanto avaliávamos o cardápio.  

Esse é o Ateliê Pizza, Café e Arte, localizado na Rua 29, no Centro de Goiânia. Abrigada num casarão em arquitetura art déco erguido na década de 1940, a pizzaria proporciona uma experiência gastronômica acompanhada de Música Popular Brasileira (MPB) e canções carimbadas na memória coletiva. É o ideal para um rolê sozinho ou com amigos, à procura de prosear, mas fica melhor se for a dois, pois se pode servir de vinho para harmonizar com a pizza escolhida pelo casal. 

A massa é mais consistente, assada no forno à lenha, o que dá uma textura diferenciada. E um charme. São poucos ingredientes, surpreendendo o paladar. O tamanho? De um prato convencional. O custo? Boa parte dos sabores vai da faixa dos vinte aos trinta, como Tachãna, feita de muçarela, linguiça suína artesanal, pimenta biquinho e cebola, até Menina, de muçarela, alho frio, abobrinha e grana padano. Para quem não dispensa a tradição, a Peperoni está na lista, na mesma média de preço.  

Com grana contada, optamos por pedir cerveja long-neck, que saiu R$ 9. A carta de bebidas oferece apenas dois rótulos, a Heineken, que custa R$ 11, e a Eisenbahn. Perguntamos se a casa oferecia taça de vinho, mas na ocasião estava servindo apenas um branco seco, que fica R$ 60. Ficou gravado em nossa memória a sensação de saborear uma boa gastronomia num espaço que foge do usual, ao proporcionar para o público um contato com excelente comida e arte à mesma altura.

Bela combinação: sensibilidade artística com requinte para confeccionar as camadas de sabor da iguaria. 

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Massa é mais consistente, assada no forno à lenha, o que confere uma textura diferenciada

À frente do Ateliê, estão o pizzaiolo Matheus Xavier Calaça e a barista Joselita Martins Pereira. Os dois conseguiram implantar, enquanto filosofia gastronômica, uma preocupação maior com a qualidade do que é servido ao público do que com o status. E mostram que, para sentir as texturas do prazer culinário, não é preciso desembolsar uma multidão de dinheiro. O custo-benefício é ótimo, cabe em qualquer bolso.  

Sempre com a trilha sonora alternando entre o bluesman BB King e o jazzista Miles Davis, o casarão pede por um tour no andar de cima, enquanto você aguarda o pedido ou com a barriga cheia, degustando uma boa cerveja ou um bom vinho. No segundo piso, com mesas posicionadas no dentro das salas, tendo como vista uma parte do Centro, a história nos convida por um passeio. Foi na casa onde hoje funciona o Ateliê que nos primórdios de Goiânia era sediada a Secretaria Municipal de Cultura.  

Charmoso, elegante e vintage, o Ateliê integra a categoria de tesouros escondidos no Centro da metrópole. Em meio à especulação imobiliária, num contraponto à estética de moradia vertical que nos sufoca, o Sobrado Scartezeni aquece a cena cultural local, pois o espaço abriga artistas da cidade com exposições e discotecagens que reúnem os melhores nomes. É semelhante, por exemplo, ao que aconteceu entre 2018 e 2020 na Casa Liberté: valorizar nossa riqueza arquitetônica e trazer vida ao Centro.

Parafraseando Clarice Lispector na crônica “Elogio à Máquina”, que decora a entrada do Ateliê, tudo correu bem, correu suave. Por assim dizer, essa experiência provocou e aguçou nossos sentimentos. Inclusive pareceu impactar sutilezas. “O ruído baixo do seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve”, diz a escritora.  

Pois é, a chuvosa noite de quarta-feira, 12, foi agradável. Graças ao Ateliê Pizza, Café e Arte. Tão agradável como ler essa crônica de Clarice, a rainha do jornalismo e da literatura brasileiras.   

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