Cultura

Luis Maldonalle volta ao neoclássico com disco “Maestro”

Guitarrista virtuoso apresenta novo álbum com releitura de uma época de ouro do heavy metal, que cultivou a shred guitar

diario da manha

O guitarrista Luis Maldonalle é – seguramente – um dos melhores do rock Brasil. Trata-se de grupo de instrumentistas ecléticos e de grandes expoentes, cuja lista é infindável –  Pepeu Gomes, Robertinho do Recife, Edu Ardanuy, Andreas Kisser, Herbert Viana, Roberto Frejat, Frank Solari, Marcelo Barbosa, Kiko Loureiro… É uma fila extensa de artistas que dominam com maestria seus instrumentos.  Pois bem, tratem de colocar aí no meio Maldonalle, um devoto ao instrumento que melhor sintetiza o rock.

O músico tem uma carreira sólida que começa com experiências em diversas bandas de destaque e projetos solos que se dedicam a mostrar sua fluência no instrumento. Há menos de um ano, ele brindou o país com “Viking Heart” –  um disco conceitual, que traz a musicalidade e ideias do artista, também escritor de romances com verve apurada. 

Há poucos meses, Maldonalle retornou ao campo de batalha dos lançamentos para divulgar “Maestro”, um bem sucedido lançamento da Roadie Metal & Music, Tree House Records, em plataformas físicas (caso dos CDs) e digitais.

O disco tem início com “Raptor Alpha”:  frases diatônicas clássicas e melódicas de shred lembram o desaparecido Joey Tafolla, além de Malmsteen – eterna referência de Maldonalle.

A grande virtude da faixa é se encaixar dentro de um padrão histórico, que traz aos mais novos uma experiência de Luis ao longo da vida com as músicas neoclássicas.  A gravação é exata, como um golpe de judô – a quantização da bateria a coloca perfeita, uma metralhadora de exatidão. Em um campo onde os VSTs (instrumentos virtuais) estão cada vez mais determinantes para a produção musical, o bom gosto é a régua da composição. E a  guitarra de Luis Maldonalle está viva, virtuosa e arrebatadora.

Outro petardo, “Medusa” tem uma introdução erudita e uma guitarra pesada que faz lembrar o hard rock e speed metal anos 80. As puxadas para o agudo, possivelmente trechos com hammer ons e pull offs, deslocam o ouvinte para algo grande e épico: a sensação de audição é de plenitude, compaixão e vitória.  A guitarra transmite ideias de integridade e responsabilidade. De alguém que espera respeito do ouvinte.

Se “Armata Di Sange” repete em parte a estratégia das músicas anteriores, com grande velocidade e arpejos limpos, ela também tem diferencial: teclados mais melódicos ao fundo e frases que se desenvolvem, criando intervalos mais espaçados, mais incomuns nas praias que navegamos.

“Mea culpa” lembra em seu riff inicial o peso que Malmsteen inseriu em suas músicas a partir de “Fire and Ice”, mas também remete ao jeito moderno de tocar guitarra, caso da Polyphia, com uma pegada mais rocker, árida e crua.

Se em “Partita Diablo” a fluidez da guitarra é acachapante, com as marcações de guerra da bateria, em “Crown of Thorns” – que tem início com um cantochão – mostra que Luis já superou ou está em igualdade de condições com os mestres que ele viu tocar na infância e agora ousa desafiar.

Blues

“Opus Valhala”, ainda bem, tem uma pegada bluesy. Melhor dizendo, após ouvir uma segunda vez, Maldonalle anuncia um bluesão de peso, que nos remete ao verdadeiro motivo da existência da guitarra: ser perigosa, irada e selvagem. A bateria está mais nítida, dando chance aos campos harmônicos, que aparecem mais – inclusive nas resoluções das sequências. Aliás, é aqui que talvez Maldonalle possa melhorar para o futuro: tornar suas harmonias mais nítidas, dando a este jogo de combinações de acordes uma maior beleza e riqueza. O passaporte pode ser o acústico, entremeado ao elétrico visceral.

Não é tarefa fácil, uma vez que uma das características do shred guitar é a concentração total nas melodias, dando ás harmonias uma importância menor. Mas é uma proposta de desafio.

Em tempo: “Opus Valhala” não é um blues de verdade, pois segue a mesma linha do neoclássico. Todavia, é possível sentir o fraseado deste berço, pitadas mais pop e, sim, o arremate virtuoso. O bend, o uivo, a dedada até a guitarra quase rebentar (coisa de músico irresponsável de blues) estão lá, leva o ouvinte para a encruzilhada dos excessos e do desespero. Bate forte em nosso peito esse jeito de Maldonalle tocar – nos inspira a pegar a guitarra ou outro instrumento e tentar soar junto.

“Stigmata” tem início com um teclado: é a balada do disco. Frases perceptíveis, tempo suficiente para ouvir e se emocionar com os compassos executados com grande matemática.

“The Harder They Fall” é um heavy metal com base vigorosa, frases mais lentas em contraposição a escalas velozes, que fecham sempre o diálogo entre as melodias mais acessíveis. O guitarrista metralha as notas após a execução de cada seção.

A geração que destrói a guitarra

Luis Maldonalle é da geração shred – um movimento que teve início de forma uniforme nos anos 80, mas que tem representantes nas décadas anteriores. Basicamente, esse grupo trata a guitarra com o máximo respeito possível, dando ao instrumento a dignidade e atenção que o rock tradicional não costuma dar. 

Para começo de conversa, existe grande influência de compositores eruditos, como J.S Bach e Nicolo Paganini. Tal convergência se deve principalmente ao estudo de violão clássico que se disseminou na década de 1950 e 1960. De “Bourrée”, de J. S Bach, até “Minds Eyes”, de Vinnie Moore, é um pulo. Muitos destes músicos, inclusive, tocavam “Bourrée” – Jethro Tull fez a primeira versão, em 1969, sem ser destruidora (shred).

Mas Jeff Beck já fazia “Bolero”, de Ravel, na guitarra em 1967 com uma semântica mais complexa e rebuscada – arpejos, escalas harmônicas, etc.  Nos anos 1970 e 1980, com novas tecnologias – e uma mudança no BPM (batidas por minuto) para quase 200 bpm – surgiu a renovação da geração que se insere Maldonalle. Blackmore e Uli Roth foram a pedra fundamental.       

Todos instrumentos de orquestra têm seus virtuoses. A viola, o violão, a bateria também. Mas a imagem desleixada e juvenil do rock dava ideia para o público mais leigo que a guitarra não teria condições de expressar músicas complexas.

A existência de Maldonalle e sua turma shred são para provar o contrário. O desafio é enorme e muitas vezes incompreendido – Heitor Villa Lobos e Francisco Tarrega também sofreram toda sorte de críticas e olhares enviesados por escreverem partituras complexas para o violão. Hoje, Vila Lobos – ao lado de Leo Brouwer – tornou-se um mito da guitarra clássica.

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