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A elegância da morte

Redação DM

Publicado em 26 de maio de 2018 às 00:52 | Atualizado há 1 ano

Por sua condição cardíaca, o pintor sueco Nils Dar­del viveu seus 54 anos em constante medo da morte. Essa fixação está presente em grande parte de sua obra: um marco para o modernismo europeu, e uma das mais caras da Suécia. Apesar de ter experimentado vários esti­los durante a carreira, tem como principal característica as cores vibrantes e suaves de suas repre­sentações, carregadas de sonho e fantasia. Dardel viveu a vida tran­sitando por vários locais do mun­do, pintando retratos de pessoas que encontrava pelo caminho. Não obteve grande reconheci­mento em vida, e seu sucesso na Suécia chegou acompanhado pela Segunda Guerra Mundial, pouco tempo depois de sua morte, aos 54 anos, em 1943.

No site Pagefiddler, a autora do texto Nils Dardel: uma biogra­fia e exposição sobre um dândi colorido – que prefere manter-se no anonimato, mas se identifi­ca como uma ceramista vivendo em Estocolmo – fala de algumas das principais características des­se controverso pintor. “Um refi­nado dândi sueco, em constan­te medo da morte e da rejeição, criando um mundo de arte vi­brante com as cores. Seu mundo transita entre sonho e realidade, em uma zona fantástica popula­da por criaturas belas, frágeis e eternamente jovens, com pés fi­nos, dificilmente tocando o chão”. De acordo com a autora, suas via­gens por várias partes do mundo marcam suas pinturas por distin­tas influências, o que caracteriza o aspecto extremamente autoral expresso por elas.

Boa parte desses elementos que contrastavam com a arte eu­ropeia predominante na época vieram da ásia, como explica a autora. “Suas viagens o fizeram descobrir a arte oriental, prin­cipalmente a pintura persa e as xilogravuras japonesas. Ele era intrigado por contos folclóricos ja­poneses e fábulas, e populou suas pinturas com animais exóticos, es­pecialmente macacos e coelhos”, explica. “Suas pinturas são fanta­sias pessoais, algumas vezes lúdi­cas, outras vezes macabras. Todas elas lidando com seus temas ca­racterísticos: o medo da morte, do abandono, e a esperança por amor e transgressão”. A autora também pontuou a ingenuidade presente em suas obras, carregadas de ele­gância e refinamento.

De acordo com o texto, Dar­del teve que enfrentar a socieda­de sueca por sua espontaneidade de artista LGBT no início do sécu­lo XX. “Ele abraçou a ideia de que todo homem tem o direito de se definir, apesar da origem, status social e gênero. Ele também re­nunciou aos títulos nobres que herdaria da família. Bastante in­fluenciado por Oscar Wilde, se reinventou como um dândi refi­nado, e se expôs ao ridículo de­vido à sua bissexualidade e apa­rência delicada”, conta a autora. “Ele odiava e temia o conceito da morte e da decadência, e vi­veu em constante medo da mor­te devido a uma perigosa condi­ção cardíaca”. No dia 25 de maio de 1943, o pintor teve de enfren­tar seu maior medo, e morreu em um quarto de hotel em Nova Ior­que aos 54 anos.

THE DYING DANDY

A obra é caracterizada pelo uso de cores intensas e formas onduladas, e é considerada, se­gundo o site Halmstad, um sím­bolo da beleza superficial. O ho­mem moribundo não olha para o céu, mas para um espelho, en­quanto rodeado por seus ami­gos a lamentar. Um homem a chorar está olhando para longe, enquanto três mulheres obser­vam o corpo. “Mesmo ao ima­ginar-se como um moribundo elegante, é notória a beleza com que a morte está arranjada: es­pelho prateado, seda oriental e um pequeno sorriso de satisfa­ção no canto da boca”, descreve a autora do site Pagefiddler. As interpretações sobre o espelho da pintura são ambíguas. Algu­mas apontam para a cultura do narcisismo e do individualismo. Hoje a peça encontra-se no Mu­seu Moderno de Estocolmo.

A imagem colorida que ilustra um homem em seu leito de mor­te segurando um espelho gerou bastante atenção para a obra de Dardel. De acordo com o site de notícias sueco Sydsvenskan, em 1984, a pintura foi vendida como uma das mais caras da Suécia, o que gerou bastante publicidade. O valor pago na época pelo finan­ciador Fredrik Roos (3,5 milhões de crowns–moeda sueca da épo­ca) foi visto como um sintoma do mercado de arte capitalista. A obra seguiu de financiador em financiador, atingindo valores considerados muito altos para obras de arte até o ano de 1991. Outra obra de Dardel, The Water­fall, foi vendida em 2012 por 25 milhões de crowns (o equivalen­te a 10,5 milhões de reais, tornan­do-se a pintura modernista mais cara da Suécia na época.


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