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A loucura que cura

Redação DM

Publicado em 18 de maio de 2018 às 02:27 | Atualizado há 1 ano

A data desta sexta-feira (18), um dia estranho de maio, com toda a energia e caos que costuma reger historicamente esse mês, promete ser mais um mar­co na música goiana. O power trio Sã, formado pelo baixista Alexan­dre Sardelari, o guitarrista e vocalis­ta Danilo Xidan e o baterista Bruno Sardelari, lança em todas as plata­formas digitais da banda, a partir do selo carioca Abraxas, o primeiro disco da carreira: Una-Maçã.

Com toda a simbologia presente na unidade e na própria imagem da maçã ao longo dos séculos, a banda traz em seis músicas o que conside­ra uma “obra completa da sonori­dade e expressão de convergências de ideias” que circulam entre o gru­po. Em entrevista ao DMRevista, os três jovens rapazes conversaram um pouco sobre o processo de produ­ção do disco, a mística que envolve a criação da banda e sobre o atual cenário de música alternativa desta Goiânia velha sem porteira.

Tomando um café nos jardins do jornal, quandoumestranhochuvisco em pleno mês de maio (improvável para esses dias na capital) nos pegou de surpresa. Xidan comentou que o grupo está junto desde 2016, porém que a história que permeia o encon­tro dos três jovens músicos é mais obscuro. Com os olhos um tanto ar­regalados e uma peculiar seriedade no tom de voz, ele me conta como aconteceu:“umperegrinocaminhou 9 dias e 9 noites até ser acolhido por uma família de coelhos. Reza a len­da que eles fizeram música em uma convenção de magos e não pararam mais.” Desde então, temos a opor­tunidade de acompanhar essa ma­gia pelos shows (e agora pelo disco).

O grupo passou uma semana em imersão completa durante a grava­ção do disco, onde ficou todos esses dias tocando em um estúdio que fica dentro de uma chácara no Setor Bu­riti Sereno. “Fomos escutando diver­sas referências, vivenciando situa­ções e posso dizer que até entidades que permearam, e o nome veio des­ses seres que estavam presentes du­rante a gravação e esse momento de criação conjunta” afirmou Danilo.

Algumas músicas do disco tra­zem antigas falas do Cid Moreira, que foi por muitos anos apresen­tador do Jornal Nacional da Globo. “A primeira música do disco, Des­programação, traz a nossa vivên­cia sobre o que é verdade e o que é mentira. A nossa relação com a mídia”, completa Xidan. O grupo trabalha com a possibilidade de se assumir e quebrar o controle imposto pelos jornais e novelas, o clipe desta música está disponível nas redes sociais da Sã.

Toda a referência que permeia o grupo na construção desse disco faz parte de experiências da banda. Os integrantes contam que em alguns shows eles já quebraram alguns apa­relhos de TV, “uma ação simbólica e performática.” E isso está presente na sonoridade deste disco do grupo, que pretende ser bem “sincero e sem o interesse de agradar um outro ni­cho de público que rola na cidade”. De fato ao escutar o som, podemos notar referências, porém sem algo que de cara poderia ser rotulado. “Rock cantado em português”–foi a definição que mais gerou consenso entre o grupo. “Quem quiser escutar e abrir o coração, vamos repassar a mensagem”, completou Alexandre.

Em uma análise um pouco mais leve, podemos dizer que, apesar de uma sonoridade pesada, riffs mar­cantes e uma mensagem densa re­passada pelas letras desse disco da Sã, por fim se prega a libertação e a alegria. “Queremos dar espaço para a loucura que cura. Se entre­gar à loucura, sem ser a loucura in­consequente, mas a de não ter que viver o tempo todo fazendo um es­forço desgastante de parecer nor­mal, viver uma vida padrão, dentro de uma lógica massacrante. No fim queremos te convidar para a ale­gria, a insanidade boa”, afirmou Da­nilo Xidan, dando um xeque-ma­te na proposta do disco Una-Maçã.

REPASSANDO

Os rapazes da Sã comentam al­gumas bandas parceiras ou que de algum modo influenciaram na vi­vência e na sonoridade das músi­cas do grupo. Entre elas as goianas: Veemente, Golfish Memories, Al­goristas e Sequelas do Rock. Quem já acompanha a história da ban­da sabe que um show de tributo ao Nirvana (seja elétrico ou acústico) é difícil de ser criticado, mesmo pelo fã mais enjoado de grunge. E esse calor ao homenagear o Nirvana re­mete desde a criação da Sã. “Apren­demos a tocar ouvindo o som da banda, e como não tinha ninguém fazendo o tributo na época, isso abriu muitas portas para o grupo”.

E foi a partir desses tributos e outros shows autorais que o gru­po conseguiu viabilizar e financiar a realidade e a materialização do primeiro disco da Sã. Obviamente a partir de agora, após o lançamen­to do disco, que promete ser um dos melhores do ano, e trazer uma certa nostalgia pela sonoridade, deve ser bem mais difícil assistir um show de tributo feito pela Sã. Mas quem já viu, não se arrepende.

Além das referências goianas, o batera Alexandre faz questão de citar outros clássicos que acompa­nham a trajetória do grupo: Grand Funk, Railroad, Cream, Jimi Hen­drix Experience, Cactus, U2, Rage Against The Machine, Asteroid, Os Mutantes e Raul Seixas. “Sempre tocamos e ouvimos eles, e a par­tir dessas influências e da nossa imersão pessoal em tocar junto, fi­zemos um Milk Shake sonoro que foi o que se tornou o disco”.

Ainda sobre a figura onipre­sente e abstrata da “cena alterna­tiva goiana”, Danilo afirmou que hoje é “a melhor época possível”. Ele justifica a afirmação relacio­nando o número de bandas que alcançaram a possibilidade real de decidir e conseguir viver de músi­ca e ser reconhecido nacional e in­ternacionalmente. “Tudo é um ci­clo, e os ciclos têm começo e fim. O rock em Goiânia está mais vivo do que nunca, está na melhor épo­ca, várias bandas tocando em vá­rios festivais e casas. Toda semana é possível assistir diversos shows autorais na cidade. Estamos no ápice do profissionalismo. O fato de várias pessoas estarem há tanto tempo na produção ou na música incentiva várias pessoas, inclusive a gente”, completou.

E sobre profissionalismo, ago­ra a Sã vai ter que estar pronta para assumir esse compromisso e esse respeito que as bandas goia­nas levam para fora. A partir do dia 19/05, o grupo sai em turnê nacio­nal, passando por mais de seis Es­tados diferentes em pelo menos vinte shows, onde deve levar um pouco dessa insanidade sonora para outros ouvidos do Brasil.

UNA-MAÇÃ

Ainda sobre a simbologia da capa do disco, o grupo lançou em uma zine que vai ser distribuída ao longo dos shows e na turnê da banda uma lista de simbologias, as quais inspiraram o trio. Confira:

“A maçã simboliza a vida, o amor, a imortalidade, a fecundidade, a juven­tude, a sedução, a liberdade, a magia, a paz, o conhecimento, o desejo. Seu formato esférico representa o símbo­lo do mundo e suas sementes a fer­tilidade e a espiritualidade. Algumas culturas também consideram as ma­çãs como uma associação com o divi­no. Essa associação pode assumir vá­rias formas, e o que todas essas formas possuem em comum, é que transmi­tem algo além da humanidade.

Una é uma palavra indígena para ne­gro, escuro, preto. Do pecado até a gravi­dade, termo reforça o peso que a simbo­logia da maçã tem em nossa sociedade.

OUTRAS SIMBOLOGIAS

Bíblia – o fruto proibido do Jardim do Éden, a maçã, aquela que os expulsou do paraíso e, por isso, simboliza o peca­do e a tentação. Por outro lado, simbo­liza a liberdade ao mesmo tempo que busca a sabedoria, uma vez que expul­sos do paraíso, eles terão de recorrer aos conhecimentos para sobreviverem. A maçã mordida representa a libertação da pureza e a busca do conhecimento de Deus e de nós mesmos, nosso “eu superior”. Sabedoria

Celta – um símbolo da fertilidade, da magia, da ciência, da revelação e do além. Símbolo da imortalidade e da es­piritualidade. A macieira (Abellio) re­presenta a árvore do outro mundo e simboliza a sorte e o conhecimento. Espiritualidade

Grécia–Héracles (Hércules na roma­na), colhe três maçãs de ouro (pomo de ouro) da “Árvore da Vida” no Jardim das Hespérides. Para os gregos, a maçã re­presenta o símbolo do amor (associa­da à Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade), contudo, nesse caso, simboliza a imortalidade uma vez que quem as comer nunca mais terá sede, fome ou enfermidades. Cura

China – os chineses consideram a fo­lha da maçã como um símbolo de femi­nilidade, e em termos linguísticos, a fru­ta possui uma dicotomia interessante. A palavra chinesa para a maçã, “ping”, soa semelhante à palavra chinesa para a paz, pois as maçãs são consideradas um presente auspicioso para ser dado em condições de paz. Paz

Maçã na ciência: (a maçã bateu na cabeça de Newton, quando este se en­contrava num jardim, sentado por bai­xo de uma macieira, gravidade.) Força

Maçã na medicina: (“An apple a day keeps the doctor away”. / Uma maçã por dia afasta-te do médico). Sanidade

 

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