A monotonia destila-se na magia do tempero elaborado com poemas e vinho
Redação DM
Publicado em 3 de maio de 2018 às 01:24 | Atualizado há 1 ano
Agradar sentimentos e prazeres preparando uma boa refeição? Despertar a vontade de sair da cama, reaproximar corações? Cozinhar, ouvir uma boa música e tomar vinho despertam um jogo bom de sedução e não existe coisa melhor. Comer e beber, morder sentindo o cheiro estimula naturalmente as sensações que afloram o prazer da conquista. E não existe coisa melhor na vida que preparar uma sugestiva refeição capaz de despertar os sentidos, desfrutar do amor temperado na magia que exala dos alimentos.
Já destilei mais matérias sobre vinhos do que qualquer outro assunto. Isto porque é impossível transformar – em palavras – quaisquer qualidades ou defeitos engarrafados junto ao vinho, e, ainda, ao abarcar as sensações que ele provoca quando acompanhado da paixão por um prato. É impossível descrever, por exemplo, a magia de um cheiro ou o sabor individual de um gosto. Não é fácil descrever – individualmente – o sabor que cada pessoa sente por serem amplas e variadas suas categorias tais como o ‘doce’, o ‘amargo’ ou mesmo o sabor ‘ácido’. Não existem palavras capazes de denotar as impressões do paladar, mas, através do conhecimento e da educação sensorial, pode-se obter do vinho seus prazeres mais infinitos.
Aprendi com a vida que a sabedoria não acompanha automaticamente e com a idade. Sobre o tempo, nada mais o acompanha senão o acúmulo de rugas, assim como as uvas, o ser humano matura para tornar-se um bom vinho. É também verdade que alguns vinhos ‘e humanos’ melhoram com o tempo, mas tem um detalhe: apenas se as safras das uvas e gentes forem boas e as normas aliadas ao primor forem capazes de fazer torná-los respeitadas, necessitados e queridos.
Não é primordial nem preciso preocupar-se em identificar aromas, aliás, esta tarefa é bastante aborrecida. Há sim que se preocupar com a personalidade do vinho… ‘assim como as das pessoas’. Desarolhar uma garrafa é ato talvez comparável a abrir um livro, nunca se sabe o que se vai ler, encontrar ou deliciar.
A comida e o vinho, assim como o presente da vida, têm tudo a ver com os sentidos e a partilha. Alimentos e bebidas fazem-no aguçados, espirituosos por que não dizer mais vivos. Eles são capazes de estimular os pensamentos, melhorar a comunhão com a família, os amigos, além, é claro da relação com a pessoa que se ama, e, certamente, quando chega à cozinha, lugar que esbanja uma intelectualidade de maneira silenciosa e humilde, atiça a magia da gastronomia a partir da sua capacidade de enriquecer ambientes, eventos e relações pessoais.
Ninguém pode afirmar se a vida é demasiadamente curta ou, nas muitas de suas ciladas, longa demais para nós, se ela faz mesmo algum sentido quando não nos torna capazes em tocar o coração, a alma, assim como o vinho, a essência das pessoas. O simples ato em deixar fluir um ‘muito obrigado’, ou ser capaz de dar colo a quem busca o conforto, talvez o abraço apertado, uma palavra que renove, ou mesmo o silencio em forma de respeito, um sorriso largo, tudo se torna amor quando conseguimos promover, tocar, enriquecer pela humildade a vida de alguém. Somente a capacidade de doar dá sentido à vida. Portanto, façamos com que a vivência seja-nos intensa e verdadeira, pura e, que dure o quanto de bom durar.
Se nesse momento os seres humanos dividem a possibilidade do aqui e o prazer do agora, felizes ao lado dos amigos e acompanhados da família, compartilhando dos prazeres à mesa, que se estendem à magia das mãos que amparam uma taça de vinho, celebram e deliciam, aí está então um bom momento a ser guardar no coração. O néctar de Baco provoca, faz nascer o calor, acende a paixão, desperta o amor, compartilha e reúne, traz à vida, a sabedoria e o desejo, alegra a mesa, acorda o homem e solta a mulher para hora do amor numa eternidade de emoções.
A vida precisa ser comemorada e o feitiço do vinho desperta o amor que anseia o desejo do quarto, do grito de prazer em fazer do eu o seu e de sua, a minha, mesmo que rasgue roupas. É preciso audácia para beber de uma boca na outra, e, de uma taça do vinho, na outra, sufocar leve e docemente a embriaguez no abraço, descobrir literalmente, e, ter a coragem de perder-se em outros caminhos.
Quando me perguntam se gosto mais de vinho do que viver e de sentir a poesia respondo que sim e não, pendendo para o lado do verso, explico que a poesia me instiga a gostar de gente, dos sorrisos, apreciar a liberdade dos animais, da elegância do vinho, reconhecer o prazer do alimento, almejar os lugares sem fim, buscar a amizade que mostra as mãos, amar e precisar do amor dividido na taça do amor. A poesia me faz viva. Talvez por isso sou poeta com relação à vida e aos prazeres da boa mesa.
CAÇAROLAS E VINHOS

VIELA GASTRONÔMICA
Em outubro do ano passado, fui convidada para participar da festa de premiação da revista Veja Comer e Beber. O guia que premia a cena gastronômica de Goiânia.
A festa ocorreu no espaço Giardino, que estava muito bem decorado! O motivo da festa, a premiação. Logo ao chegar, vi um número diferente de pessoas, tinha muito menos gente do que em anos anteriores. Festa linda e objetiva! Conversei com alguns premiados e todos adoraram o novo formato. Ao andar pelo salão, vi algumas figurinhas carimbadas e alguns rostos desconhecidos por mim, o que é muito bom!
Tudo muito lindo, muito gostoso, de muito bom gosto, mas o que importa de verdade são os ganhadores da noite! O que eu vi foram prêmios totalmente previsíveis, com o Prêmio de melhor chef e Melhor Contemporâneo, mas, por outro lado, tive gratas surpresas! O Viela Gastronômica, situado no Setor Sul em uma rua charmosa, arrasou como restaurante revelação. Eu não conhecia. E engraçado, como apreciadora da boa mesa, por que demorei tanto para conhecer? Agenda atribulada, o documentário “O Silêncio é uma Prece” do qual sou roteirista, sendo exibido em algumas capitais, trabalho em São Paulo, enfim, passando pouco tempo em Goiânia. Recebendo um amigo na cidade, resolvi conhecer o local. Fiz a minha reserva, e pontualmente cheguei no horário. Quando cheguei me lembrei dos restaurantes New Orleans-EUA. Jardim com piscina, iluminação intimista, atendimento bom, e a gastronomia me encantou. Achei que a carta de vinhos precisa melhorar. Mas foi uma noite de muita poesia no paladar e no amor. Eu super indico!
VINHOS DO URUGUAI
A história do vinho no Uruguai teve uma grande influência basca e francesa no século XIX, em especial com a introdução da uva Tannat proveniente de Madiran, França, considerada até hoje a mais importante variedade do país.
Os vinhos uruguaios são na sua maioria varietais e devem ser consumidos jovens. Alguns produtores estão investindo em vinhos complexos e encorpados para um armazenamento mais longo.
A uva Tannat é considerada a uva emblemática do Uruguai e apresenta características diferentes de seu país de origem França, onde os vinhos são leves e delicados.
Os vinhos dessa uva no Uruguai apresentam cor profunda, aromas deliciosos de frutas negras, geléias e chocolate e são muitos encorpados, com taninos macios e sedosos.
HACIENDAS
Este tinto tem mais pegada europeia, com seus aromas de couro com frutas secas e notas terrosas. O sabor é marcado pela presença dos taninos, da acidez de fruto do cacau temperado com pimenta do reino. Um vinho de estilo clássico que vale a pena conhecer. Um verdadeiro achado difícil de encontrar no mercado nessa faixa.
PEDREGAL
Já provei muitos Tannats–quase nenhum que representasse um custo-benefício tão bom. Logo ao ser servido, este Tannat se mostra ainda fechado, tímido. Começa a exibir aos poucos, com o tempo, as típicas notas de frutas negras, como ameixa e amora. A leveza com que passa pelo paladar é surpreendente. Macio, espalha as notas de ameixa e morango, que ficam presas nas bochechas por seus taninos finos, mas volumosos.
