Entretenimento

A pele no papel

Redação DM

Publicado em 4 de janeiro de 2018 às 00:03 | Atualizado há 1 ano

Ao começar um traba­lho novo, o artista sem­pre irá inserir um pou­co do seu particular na obra. Talvez porque a arte é tam­bém uma representação, mes­mo que expandida, da realida­de. Ou talvez porque o que nos emociona é o poder de assimi­lação e empatia, como se o qua­dro, música ou outro trabalho nos ensinasse através da vivên­cia do artista. Por exemplo, um quadro de Portinari mostra a profundidade de uma socieda­de brasileira marginal, retiran­te e apagada. Foi o artista visu­al que conseguiu trazer para o quadro a beleza dessa realida­de e assim demonstrar como o nosso país é profundo, em di­versos aspectos. O místico das falas dos peões e vaqueiros, o mistério que o Brasil profun­da abriga, por exemplo, estaria longe das nossas vistas não fos­se a aptidão de João Guimarães Rosa ao escolher suas palavras.

Enfim, um artista tem esse poder, quase magnífico, de transformar barro em ouro, ou melhor: fazer da lama algo mais que a lama, transformar a lama em algo mais útil que o ouro. Selvo Afonso é formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em Artes Visuais e leva para tela muito da sua vida par­ticular, da sua existência. Boa parte da sua obra retratam íco­nes negros da história e a cultura negra. Tem uma carreira cons­truída e já desenvolveu 30 expo­sições individuais e 70 coletivas em alguns anos de produção. No ano de 2006, o artista pas­sou por alguns estados brasilei­ros com a exposição Raízes, que abriu a Conferência de Intelec­tuais Africanos e da Diáspora.

“Talvez com cores e formas possamos mostrar que somos iguais, feitos do mesmo pó, pe­las mãos do mesmo criador e que um dia estaremos juntos”, expli­ca o artista Selvo Afonso. No ano de 2015, às telas Anjos do Bra­sil, de sua autoria, retratavam crianças negras e indígenas, um trabalho que conseguiu alcan­çar diversas pessoas ao redor do mundo. Atualmente, Selvo Afon­so apresenta um novo trabalho ao público. A exposição chama­da Ícones Negros leva o artista a rememorar seus trabalhos com temática da cultura negra, desta vez com expoentes ainda maio­res que as outras exibições. O ar­tista conta que sempre teve o cui­dado de representar o negro em sua forma altiva.

ÍCONES

A nova exposição de Selvo, que será inaugurada nesta quin­ta-feira (4/01), é uma ótima op­ção de entretenimento para esse período de férias. O trabalho re­cebeu o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiâ­nia e será exposta no Museu de Arte de Goiânia. Cada quadro conta com a imagem de um íco­ne negro junto a sua biografia e descrição da obra em Braile. A exposição já foi montada na Ga­leria do Senado Federal, em Bra­sília, na Câmara Municipal de Goiânia e na Assembleia Legisla­tiva do Estado de Goiás.

A exposição é um marco no trabalho artístico do goiano Selvo Afonso. O artista tam­bém comemora 40 anos de carreira, sempre atento a valo­rização e dignificação das be­lezas negras e indígenas. Zum­bi dos Palmares, Machado de Assis, Cartola, Diane dos San­tos, Zezé Motta, Martin Luther King, Toni Morrison, Malcolm X, entre outras personalidades negras compõe a exposição. Os homenageados foram escolhi­dos a partir da consulta com pesquisadores de várias partes do país, envolvidos com estudo das questões relativas à África e à Cultura Negra. A professo­ra e mestre, Marilena da Silva, coordenadora e idealizadora do Projeto Ícones Negros, afir­ma que o método de escolha dos homenageados buscou a forma mais democrática possí­vel. “Esses ícones são nomes de pessoas que fizeram diferença histórica para o Brasil e para o mundo”, afirmou a professora. A exposição fica aberta a visita­ção entre os dias 4 e 11 de janei­ra com entrada gratuita.

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