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A resistência da fragilidade

Redação DM

Publicado em 12 de janeiro de 2018 às 22:04 | Atualizado há 1 ano

A obra do fotógrafo Ale­mão Wolfgang Tillman é bastante diversa, e se distingue por uma observação constante das bases do meio fotográfico. Dedica-se tanto à fotografia analógica quanto à digital. Foi o primeiro não-bri­tânico a ganhar o prêmio Tur­ner, um das mais conhecidas premiações de arte do Reino Unido. O fotógrafo foi nome­ado pelo site Artsy – especia­lizado em artes visuais –como um dos 20 artistas mais in­fluentes de 2017 e de 2016. O fo­tógrafo luta contra a aids des­de a década de 1990, e é visto como um dos mais importan­tes símbolos de resistência e conscientização a respeito da doença. Ao longo dos anos, esteve envolvido em inúme­ras campanhas a respeito do tema. Nos últimos dois anos fi­cou conhecido por sua postura oposta à saída do Reino Unido da União Europeia.

METALINGUAGEM

Gloria Crespo Maclennan, do El País, classifica o trabalho do fotógrafo como “sem limi­tes” e afirma que a metalingua­gem que a obra de Tillman car­rega coloca-nos diante de uma busca pelo sentido na fotogra­fia em um mundo que segue seu modus operandi cada vez mais dependente da represen­tatividade das imagens. “Sua arte trata tanto de sua própria vida como do mundo que o ro­deia, bem como da história des­sa forma de expressão; questio­nando de modo recorrente os nossos valores e hierarquias e o valor da fotografia num mundo cada vez mais saturado de ima­gens”. Por outro lado, ao apre­sentar o lado mais pessoal de seu trabalho, fala da busca pela identidade e das fronteiras en­tre o individual e o coletivo.

O corpo também está pre­sente no universo de suas fo­tos. A abordagem, segundo Gloria Crespo, é sensível e ar­riscado. “Não há nada de casu­al nos retratos realizados pelo artista, nos quais é projetada a vulnerabilidade e a dignida­de do modelo. Ou a delicade­za e a fragilidade do corpo hu­mano”, conta a autora. Fora do contexto íntimo, Tillman tam­bém busca encontrar um sig­nificado fotográfico através dos espaços coletivos. “O mun­do exterior também mereceu a atenção do versátil autor, como evidencia sua série Neue Welt, que retrata a vida em diferen­tes lugares do mundo, lugares que visitou não à procura de um resultado ou objetivo espe­cífico, mas com a esperança de encontrar o que falasse sobre a época em que vivemos”.

RECONHECIMENTO

Os editores do site Artsy de­finem Tillman como um dos responsáveis pela populariza­ção da fotografia marginal. “A guetização da fotografia, que já era prevalente, mas que se­guia ignorada pelo mainstre­am, continuou a ganhar força, e uma pequena parte desse fei­to é mérito de pessoas criativas como Tillmans”, diz o artigo The 20 Most Influential Artists of 2017 (Os 20 artistas mais in­fluentes de 2017), publicado no último dia 15 de dezembro. “Enquanto a prática artística visionária de While Tillman tem progredido desde os anos 1980 – incluindo imagens figu­rativas e abstratas, produzidas com tecnologia digital e analó­gica – os últimos dois anos vi­ram o artista atingir um novo nível em termos de reconheci­mento do público e da crítica.”

É considerado por muitos críticos como o cronista de uma geração que começava a conviver com a globalização, e também aborda os direitos da população LGBT. “O ativismo social e político, mesmo que de forma indireta, sempre foi inerente ao trabalho de Till­man”, escreveram os editores do Artsy em 2016, na lista de melhores do ano. “Nos anos 1980 e 1990, ele capturou ima­gens profundas da juventude e de clubes ‘alternativos – regis­trando temas relacionados aos direitos da comunidade gay e a cena de música eletrônica aci­d-house – dando voz a uma ge­ração que segundo ele, acredi­tava que o hedonismo poderia ser uma forma de ativismo.” O artigo também ressalta a série de posters criadas por ele con­tra a saída do Reino Unido da União Européia em 2016.

A partir dos anos 2000, pas­sou a focar mais nos direitos da população soropositiva, trabalhando paralelamente com a arrecadação de recursos para iniciativas de caridade. “Suas imagens fortes tem sido um guia no empoderamento de indivíduos que vivem HIV, e ajudam a informar sobre os tratamentos possíveis. Com essas fotos, tem arrecadado fundos para a reconstrução do Haiti depois dos terremotos de 2010.” A experiência de Till­man com a Aids começou aos 16 anos, quando ele teve sexo com seu namorado, Jochen Klein, um pintor alemão. Os dois trabalharam juntos até o fim da vida de Klein, que mor­reu em 1997 devido a compli­cações com a doença.

 

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