Ana Cañas embeleza obra de Belchior com show potente
Redação DM
Publicado em 20 de julho de 2023 às 00:10 | Atualizado há 3 anos
Ana Cañas embeleza a já belíssima obra de Belchior, compositor que nos mostrou por que um tango argentino costuma cair tão bem quanto um blues. E hoje – pela segunda vez em sete, oito meses – a cantora paulistana traz aos palcos do Teatro Goiânia, a partir das 20h, o intenso show “Ana Cañas Canta Belchior”. Ela reforça, faixa a faixa, nota a nota, a relevância de ainda compreendermos a necessidade de amar e, sobretudo, mudar as coisas.
É intenso e refinado, límpido e angustiado, inquieto e poderoso: Ana exibe repertório coeso como se vê em poucos shows atuais. Seu apuro vocal, carregado numa dramaticidade capaz de fazer você se derramar em lágrimas, encontrou um bom aconchego à obra construída pelo trovador cearense. Duas divas sagradas da música produzida no século 20, Ella Fitzgerald e Billie Holiday – rainhas para as quais Ana parece aceitar o posto de mera súdita- fornecem o tempero ao sabor musical que irá arrepiar a pele de qualquer fã.
Ao Diário da Manhã, na véspera do show que a cantora realizou em Goiânia no último mês de dezembro, Ana declarou que Belchior é refinado, mas também acessível. “É um gênio. Ele escancara feridas, amores, paixões, dores, é uma faca com mel na ponta. Interpretá-lo exige entrega absoluta, verdade e abismos metafísicos e subjetivos”, disse a cantora.
Uma das funções da música belchioriana é emocionar. E a voz de Ana, dilacerante e cortante, como um blues rasgado saindo da alma de Angela Rô Rô ou um tango sendo tocado por Astor Piazzolla, consegue nos deixar de quatro. Assim tem sido, veja você, desde “Amor e Caos”, lançado em 2007, essa que é poderosíssima estreia discográfica de uma artista brasileira neste século 21. Ana Cañas, nossa sorte, chacoalhou o cenário musical.
Como viver é sempre melhor do que sonhar, a cantora conquistou, em 2007, o prêmio “revelação do ano”. Nunca mais saiu dos holofotes: gravou “Hein” (2009), “Volta” (2012), “Tô na Vida” (2015) e “Todxs” (2018), com o qual, aliás, deu o que falar por causa da capa que remete à liberdade feminina. Letras sobre sexo, som bem sacado. Foi um alvoroço, um bafafá, um estrilo. Uma loucura. Mas caretas são caretas. Imagina se uma mulher lá pode ficar falando sobre prazer, ainda mais numa abordagem pela perspectiva anti-patriarcal.
Ana nunca se esquivou, até onde é possível lembrar, em colocar sua voz à disposição do combate ao machismo estrutural da sociedade brasileira. E tudo isso, você sabe, temperado ao sabor de beats eletrônicos, grooves dançantes e versos politizados. Quase ganhou o Grammy Latino, ao ser indicada na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo, em 2019. A paulistana, de fato, é uma artista corajosa. Quer se reinventar – sempre.
Enclausurada em casa, à moda da cartilha de sobrevivência dos tempos pandêmicos e de olho em combater o negacionismo, Ana viu aí o momento oportuno para celebrar a obra de Belchior. Fez uma live, que não só repercutiu, como também a levou a dar um (necessário) passinho além, porém guiado por uma interpretação cênica poderosa, intensa e urgente. Àquela época só nos restava cantar: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. A homenagem a Belchior virou disco, disponível no streaming, e ganhou registro audiovisual.
Na adolescência, Ana descobriu – por meio de Elis Regina – a profundidade existencial e metafísica da poesia cantada por Belchior. Para ela, uma das sensações da música brasileira produzida na última década, o trovador cearense representa a vida e o oculto. “É refinado porém acessível”, definiu a artista, acrescentando que foi, na verdade, difícil perseguir as emoções reais do rapaz latino-americano. “A poesia de Belchior é muito profunda.”
Tão profunda, me aventuro a dizer, como a voz de Ana Cañas. Pode apostar, a cantora engatilha a arma da beleza ao desfilar por “Sujeito de Sorte”, “Divina Comédia” ou “Comentário a Respeito de John”. Há personalidade nessas releituras. Fábio Sá, no contrabaixo, e Thiago Rabelo, bateria, conduzem bem a cozinha rítmica. Não, não é fácil emprestar a voz às canções de um compositor largamente abordado nos últimos anos.
Como interpretar “Como Nossos Pais”, “Alucinação”, “Coração Selvagem”, “Apenas Um Rapaz Latino-Americano, “Na Hora do Almoço”? E será que ainda é possível acrescentar espírito novo às clássicas “Medo de Avião”, “Fotografia 3×4” e “A Palo Seco”? Resposta é curta e grossa: vá ao streaming e veja, ou melhor, ouça você mesmo. E marque presença hoje no Teatro Goiânia. Além do cancioneiro conhecido, Ana Cañas performará “Um Rolê no Céu”, que lhe foi dada pelos filhos Belchior. A música está no novo álbum de Ana.
Ana Cañas canta Belchior
Hoje, às 20h
Teatro Goiânia
Cruzamento das avenidas Tocantins e Anhanguera, Setor Central
A partir de R$ 78
Ingressomagico.com.br/