André Mols escancara janela do blues em show gratuito no Teatro Sesc Centro
Redação Online
Publicado em 1 de junho de 2026 às 21:04 | Atualizado há 2 meses
Riffs e solos: músico toca amanhã no III Festival Goiânia Blues - Foto: Gustavo Fhoca
Marcus Vinícius Beck
Aquela tarde de 1987 marcou André Mols. O guitarrista estava na casa de um amigo, em Goiânia, quando ouviu pela primeira vez Stevie Ray Vaughan, embora não se lembre de qual disco era. “A audição foi tão impactante que o que ficou foi a experiência em si”, diz.
Mols se apresenta amanhã no III Festival Goiânia Blues, realizado no Teatro Sesc Centro. O show, gratuito, está previsto para começar às 20h. Um dos precursores do blues na capital goiana, o guitarrista divide o palco com o grupo Som Corrente, numa noite de riffs e solos.
“Escutei aquilo pela primeira vez num CD quando o CD ainda era uma novidade”, conta o bluesman. “A partir de Stevie Ray, comecei a mergulhar nas raízes do blues e encontrei Robert Johnson, Muddy Waters, Buddy Guy, Willie Dixon — toda a genealogia do estilo.”
Na época, o compact disc era uma inovação. Mols relata que um amigo achara que o tal guitarrista se chamava Steve Vai, mas não era “Steve”, e sim “Stevie” — “e que Stevie!”. Depois da audição, o goiano encontrou os grandes nomes do estilo. Via um novo mundo.
“O que mais me marcou em Stevie Ray Vaughan foi sua maneira absolutamente intensa e emocional de ser veículo de emoções — ele canalizava a mensagem através da guitarra com um arrebatamento que beirava o transe. Essa é sua maior herança para mim”, elucida.
Nascido em Dallas, nos Estados Unidos, SRV foi alçado a mito. Desde sua morte, em agosto de 1990, aos 35 anos, ele é considerado o maior bluesman surgido nos últimos 40 anos. Mols afirma que o som encorpado e poderoso do instrumentista lhe abriu a porta para o blues.
Da alma
“SRV transformou a Stratocaster numa extensão da alma — a que ele usava é uma das configurações mais icônicas do instrumento. Eu mesmo gravei com uma Fender Stratocaster Relic 1961 e também com uma Stratocaster 1965 — esse é o timbre que me habita”, revela.
Segundo Mols, a Strato preserva as características originais do instrumento. Daí o músico goiano se interessar não apenas pela imagem da guitarra, mas pelo que é capaz de fazer com o som. SRV, explica, compreendia isso melhor do que ninguém e a levou a um lugar inédito.
“Quem entra pelo blues através de SRV entra pela janela mais alta — e depois não consegue mais sair”, explica o músico, que participava do rock goiano durante os anos 1980. “Quando o blues entrou na minha vida, no fim dessa mesma década, tudo mudou de direção.”
Em 1992, Mols convidou alguns amigos e fundou a The Not Yet Famous Blues Band, grupo pioneiro de blues-rock no Centro-Oeste. A iniciativa se deu pelo desejo de mostrar aquele som, carente de representantes locais. Foi uma das histórias mais duradouras já conhecidas.
Havia, no Rio de Janeiro, a aspereza do Blues Etílicos. Um clássico. Celso Blues Boy, na mesma cidade, pedia som na guitarra em seu disco de estreia, de 1984. Outra obra essencial. Ouviam-se bends, slides. Curtiam-se os timbres, os arranjos e acordes. Sim, ficava-se blue.
“Bom e velho blues se juntou a seu filho famoso, o rock’n’roll”

Por aqui, o blues não acontecia. Não rolava. Assim foi até 1992. Então vem The Not Yet Famous Blues Band: acordes melancólicos, batidas sentimentais. Os caras percorriam a noite de Goiânia. Saíram da cidade, fazendo contato com o Cachorro Cego e a Oficina Blues.
Ao todo, a banda gravou oito discos. “Todos com composições minhas”, lembra Mols. A The Not Yet promoveu um intercâmbio com blueseiros do Brasil e chegou a representar o país numa festa do Grammy Latino, em Los Angeles, a convite da Academy of Recording Arts & Sciences. “Não imaginávamos, naquele começo ingênuo, que essa história duraria tanto.”
Mols privilegia em seus shows clássicos do blues e do rock, como B.B. King e Jimi Hendrix. Os artistas, de acordo com o goiano, são “antenas do mundo”. “Foram capazes de transformar a experiência humana em linguagem musical de maneira que transcende qualquer época.”
“Jimi Hendrix está presente em tudo o que toco desde o começo”, assinala o músico, que, com a banda TNY, nunca deixou de revisitá-lo no palco. Já o herói B.B. King e a tradição do Delta, segundo o músico, são parte indissociável de seu repertório. “Sem eles, não há raiz.”
Para Mols, Hendrix e King transformaram a guitarra em um veículo de emoções tão genuínas que o tempo não diminui em nada sua força. “O bom e velho blues se juntou ao seu filho mais famoso, o rock ‘n’ roll — e essa herança é o que levo para o palco”, observa.
No que diz respeito à história da música, o blues se adaptou ao tempo. Nunca renegou suas origens. Criado nos Estados Unidos, tornou-se o meio para expurgar as dores da escravidão entre a população negra. O rock, tal e qual concebido por Ike Turner, é um som acelerado.
Ou seja, trata-se de um tipo de blues. O estilo, aliás, se faz contemplado no III Festival Goiânia Blues, além do samba, choro, rock e jazz. Hoje, a flautista Adriana Losi sobe ao palco do Teatro Sesi Centro. A noite se fecha com PatoCan Sexteto. Tudo na faixa.