Barão Vermelho celebra obra atemporal ao anunciar turnê com formação clássica
Redação Online
Publicado em 16 de dezembro de 2025 às 12:08 | Atualizado há 7 meses
Frejat (ao centro, com mão no bolso) assumiu os vocais do Barão após saída de Cazuza em 1985
Marcus Vinícius Beck
Antes de tudo, antes mesmo dos riffs e da poesia, é preciso recitar o clássico Barão Vermelho e seu rock’n’roll sem dramas: “Mais uma dose?/ É claro que eu estou a fim/ A noite nunca tem fim/ Por que a gente é assim?” A banda, descerebrem-se, celebrem, sairá em turnê.
É a tão aguardada reunião de Roberto Frejat (voz e guitarra), Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclado) e Dé Palmeira (baixo). Mas não se trata da formação original, aquela que enlouquecera o produtor Ezequiel Neves, porque Cazuza morreu em julho de 1990.
Até o momento, a produtora 30e divulgou duas datas de “Barão Vermelho Encontro – Pro Mundo Inteiro Acordar” — 30 de abril, na Farmasi Arena, no Rio, e 23 de maio, no Allianz Parque, em São Paulo. A venda de ingressos começou na segunda-feira (15/12) pelo Eventim.
“Estou completando 44 anos de carreira e tenho planejado projetos para celebrar esse marco. Não tenho como comemorar essa data sem passar pelo Barão Vermelho, que foi o início de tudo. Essa turnê de encontro tem um sabor especial”, diz Frejat, que saiu do Barão em 2017.

Fundado em 1981, em Rio Comprido, na zona norte do Rio de Janeiro, o Barão era um sonho adolescente de Maurício e Guto. No início, o tecladista tinha 17 anos e o baterista, 19. Os amigos ouviam Led Zeppelin e Queen, mas também A Cor do Som e Pepeu Gomes.
Entre um ensaio e outro, Maurício telefonou naquele ano para Frejat, 19, ex-estudante de geografia na UFRJ. O guitarrista aceitou o convite feito pelo músico para tocar numa feira, a Feira da Providência (show que o pai do tecladista conseguira), porém avisou que já estava em outras três bandas e não pretendia deixá-las. Dé Palmeira, 15, assumiu o baixo.
Faltava um cantor, no entanto. O goiano Leo Jaime deslocou-se a Rio Comprido: “Fui com o compromisso de indicar alguém, depois de conhecer melhor o som [do Barão]. Foi o que fiz. Demorei um tempo para indicar Caju, pois ele não pensava em cantar em banda nenhuma.”
Convencido por Leo, Cazuza encontrou sua turma. O show na Feira da Providência, contudo, acabou cancelado. E agora? Bem, Frejat percebeu algo diferente no empenho de Guto e Maurício. Dé declarou-se pronto pro que viesse, enquanto o cantor revelou ser poeta. Nascia aí a dupla Cazuza & Frejat, uma espécie de Jagger & Richards do rock brasileiro.
Eis o som
Com essa formação, o Barão lançou três discos. No elepê “Barão Vermelho”, de 1982, uma poesia crua nos é apresentada: “O banheiro é a igreja de todos os bêbados.” São versos do blues “Down em Mim”, cuja guitarra de Frejat se mostra madura num solo lírico. Já no segundo disco, lançado no ano seguinte, a banda gravou o hit “Pro Dia Nascer Feliz”.
Ao lançá-lo em 1983, Ney Matogrosso fez com que as rádios se interessassem pela versão do Barão. A partir daí, os roqueiros chegariam às FMs e, com isso, assistiriam a carreira alavancar. Antes disso, todavia, Cazuza questionou o ex-namorado sobre a escolha que ele fizera de regravar justamente a faixa de trabalho de “Barão Vermelho 2”, como contam Ezequiel Neves, Guto Goffi e Rodrigo Pinto no livro “Por Que a Gente é Assim”.
A glória veio com “Maior Abandonado”, de 1984. “Quem vem com tudo não dança/ Bete Balanço, por favor/ Me avise quando for a hora”, vocaliza Cazuza em “Bete Balanço”, um rock latino ao sabor de Carlos Santana. Meses após o consagrador Rock in Rio, em 1985, o vocalista anunciou sua saída do Barão. Viraria artista solo.

Do céu ao inferno, a banda viu sua existência em cheque. Quem cantaria? Frejat, ué. E escreveria? Aí, brou, fudeu. Mesmo assim, o guitarrista foi lá e procurou novos parceiros. Com sangue no olho, o Barão atacou no disco “Declare Guerra”, de 1986, no qual expunha guitarras, grooves e vísceras — rockão dos bons. Mas, em termos de vendas, um fracasso absoluto: 30 mil cópias liquidadas.
O grupo carioca, na lona, alterou o percurso ao fazer em “Rock´n Geral”, de 1987, um disco cheio de sutilezas, mais leve e ventilado, talvez agora todo esse sufoco se acabasse, com balada bluesy, arranjos metálicos e canções funkeadas. Ainda assim, o resultado comercial não empolgou: apenas 15 mil cópias vendidas. E, veja bem, o midas Liminha produziu a obra. Preocupante.
No ano seguinte, “Pense e Dance” enfim reposicionou o Barão onde lhe é de direito: nas rádios. O disco “Carnaval”, incensado por roqueiros, inaugurou os caminhos a serem desbravados nos anos 1990, com “Na Calada da Noite”, de 1990, “Supermercados da Vida”, de 1992, e “Carne Crua”, de 1994. Mas o Barão, em 1988, sofreria sua segunda baixa. Tal qual Cazuza, Maurício Barros saiu do grupo, transformando sua antiga banda num power trio.
Em vez da sutileza, o som de agora ganhava (novamente) uma textura hard rock. O guitarrista Fernando Magalhães, convidado na turnê “Barão Vermelho – Pro Mundo Inteiro Acordar”, e o percussionista Peninha, morto em 2016, incorporavam-se ao trio Frejat, Dé e Guto. “Carnaval” soa pesado, carregado de riffs e grooves, fendido pelo balanço rítmico.
Apesar da explosão e do barulho, como se queimasse todo o seu poderoso arsenal lírico-roqueiro e nos deixasse rendidos, o Barão Vermelho manteve-se dialético. Eis que Frejat e Fernando Magalhães, saturados dos timbres distorcidos de suas guitarras, redescobrem o violão em “Na Calada da Noite”. Segundo o jornalista Arthur Dapieve, em “BRock: O Rock Brasileiro dos Anos 80”, os músicos revitalizaram a canção do Barão, sempre com belas melodias e versos.
Dé, porém, estava em vias de deixar o grupo. O baixista planejava gravar duas composições suas no próximo disco — parcerias com Cazuza e Sérgio Britto, dos Titãs. Frejat e Guto não quiseram. O processo criativo, diziam, era democrático. Clima? Não havia mais. Dadi, ex-Cor do Som, assume as quatro cordas. “Foi ideia minha chamar o ídolo do Dé”, lembra o baterista.
Para Dé, que deixou o grupo durante as gravações de “Na Calada”, a turnê “Pro Mundo Inteiro Acordar” é um presente da vida. “Poder subir ao palco junto com Frejat, Maurício Barros e Guto Goffi para celebrarmos aquele encontro que aconteceu há mais de quarenta anos e que transformou as nossas vidas é uma alegria imensa”, afirma. Celebremos o Barão.
Pro dia nascer feliz
Onde: Rio e São Paulo
Quando: 30 de abril e 23 de maio
Ingressos: a partir de R$ 97 (SP) e R$ 197,50 (Rio)
Vendas online: Eventim
Foto de destaque: Pedro Dimitrow