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Belchior emerge em livros e filmes no ano em que completaria oito décadas de vida

Redação Online

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 21:37 | Atualizado há 45 minutos

Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti investigam os últimos anos de Belchior no livro “Viver é Melhor que Sonhar | Foto: Divulgação
Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti investigam os últimos anos de Belchior no livro “Viver é Melhor que Sonhar | Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Aquele porre, no pátio da Faculdade de Comunicação e Informação (FIC), em Goiânia, foi ao sabor do disco “Alucinação”. A ocupação dormia naquela noite de 2016, enquanto a garrafa do vinho Cantina da Serra passava de mão em mão: o gosto estudantil diante da PEC 241.

Muitas utopias depois, ao fim e ao cabo das mobilizações, lá se ouvia o trovador a ronronar na vitrola. Homem de coração selvagem, Belchior cantou o delírio e a experiência com coisas reais desses rapazes latino-americanos sem dinheiro no bolso, parentes importantes e vindos do interior. A UFG, às seis e meia da matina, testemunhou o início de uma grande amizade.

Segundo os pesquisadores Renato Terra e Rodrigo Salgado, no livro “Belchior: Alucinação”, o compositor escreveu sobre “uma nova mudança que vai acontecer”. Referia-se ao espírito das mudanças que, para os autores, caracterizaram os anos 1960 e consolidaram as novas formas coletivas de construir a sociedade: os beatniks, o rock’n’roll e a injeção de juventude.

Mas o tempo, implacável, embrutece esses ideais. “A pobreza brasileira, latino-americana, escancarada, insolúvel, é a marca mais evidente do fracasso dessa utopia. A falta de amor, de empatia”, afirmam os escritores, na obra recém-lançada pela editora Cobogó. “As letras longas, coloquiais e profundas traduzem um sentimento coletivo que atravessa gerações.”

Arte: Belchior emerge em retrato do artista plástico goiano Siron Franco que está no encarte de disco lançado em 1986 | Foto: Divulgação

Se vivo fosse, Belchior contaria 80 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Sua obra, mesmo hoje, alucina os sujeitos de sorte. Nascido em Sobral, no interior do Ceará, o cantor revela, em seus versos, uma sólida formação intelectual. Na Universidade Federal do Ceará, ingressou no curso de medicina em 68, largando-o quatro anos depois para viver de música.

O artista dizia não ter um pensamento diferente daquilo que estava em suas letras. Achava, conforme entrevistas, que levava uma vida de cidadão comum, por vezes até insignificante — embora, de fato, respeitasse o que isso poderia ser e o que ele próprio falava como artista.

Dono de gestos intrigantes, era respeitado e construiu repertório do qual muitos artistas se orgulhariam. Talvez isso lhe garantisse o sucesso e a vida confortável. Aos 60 anos, todavia, meteu o pé na estrada, like a rolling stone, deixando tudo para trás rumo a uma trip incerta pelo Uruguai e pelo sul do Brasil, que se findaria com a sua morte, aos 70 anos, em 2017.

Investigação

À procura das respostas, Marcelo Bortoloti e Chris Fuscaldo investigam os últimos anos de Belchior em “Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior”, road book que acaba de ser reeditado pela Garota FM Books e Sonora Editora. Os jornalistas andam 10 mil quilômetros, conhecendo a companheira Edna e as cidades por onde o artista passou.

Depois da repercussão em 2021, Bortoloti e Fuscaldo receberam o convite da Urca Filmes para conduzir a pesquisa de uma série documental. A produtora comprou ainda os direitos do livro para transpô-lo ao cinema no longa-metragem homônimo, dirigido por Eduardo Albergaria. O filme, ao que tudo indica, deve chegar aos cinemas em dezembro de 2026.

Para Fuscaldo, Belchior olhava para “esse lugar do exílio” com certo romantismo. “A gente vê em muitas letras de Belchior essas possibilidades de experiências com o isolamento, com a mudança de vida”, aponta a pesquisadora, na segunda (26), em entrevista à Rádio Nacional.

O compositor, a quem um tango argentino era bem melhor do que um blues, dialogou em sua produção lírica com Roberto Piva, Godard, Baudelaire, Jorge de Lima, Albert Camus e Drummond. Foi o oposto de Caetano Veloso, ao soltar a voz e, sem firula, atestar: “Nada é divino, nada é maravilhoso.” O cearense zarpou rindo, tranquilaço e sem ligar para nada.

É, amigo, a agulha ainda repousa na faixa do vinil: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia, nem no algo mais.” Ao que o trovador continua: “Nem em tinta pro meu rosto, ou oba-oba, ou melodia / Para acompanhar bocejos, sonhos matinais.”


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