Carnaval: Reinado de Momo reforça brasilidade e folia na cultura brasileira
Redação Online
Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 21:30 | Atualizado há 5 meses
Óleo sobre a tela: 'Carnaval', tela do artista plástico Di Cavalcanti
Hei de chegar à Quarta-Feira de Cinzas com uma boa história de Carnaval pra contar, uma história bonita, como aquele samba carioca do Zé Kéti — Pierrô na multidão, tantos risos, eu te abraçando, você me beijando, a gente dançando sobre um chão de confetes e fantasias.
Vou te beijar, amor. Desculpa, não me leve a mal, é Carnaval. Inclino-me e dilato o volume da vitrola pra curtir “Máscara Negra”: “Arlequim está chorando/ Pelo amor da Colombina.”
Só sei que adiarei as coisas sérias e aproveitarei o reinado de Momo. A você aí que coçou a cabeça da cautela, pergunto: se por um acaso, de uma hora pra outra, virássemos um país casmurro e tenso, resolveríamos nossos males? Necas de pitibiribas, meu caro Xico Sá.
Fico com a antropofagia: “A alegria é a prova dos nove.” Os versos do poeta Oswald de Andrade ecoam enquanto soam os clarins de Momo. E basta de sociologia copo-sujo, por favor, essa modalidade reflexiva que se pratica no boteco entre carvalhos e cevadas.
Que comece a festa da carne. A sugestão deste cronista é aproveitar o bloco. Tem pra todos os gostos: muvuca na Avenida 85, foliões nos bares e samba. Tradição é tradição, uai. Neste fim de semana, os goianienses se juntam durante a pré-farra momística.
Ah, como é bom o tal empurra-empurra. Saudade matada, mudo o disco: ressoam os “Retalhos de Cetim” do cantor Benito di Paula. “Ensaiei meu samba o ano inteiro. Comprei surdo e tamborim”, entoa o artista, do jeito que a vida quer. “Gastei tudo em fantasia.”
Não é fácil desaguar nas cinzas da folia sem confete ou serpentina, a menos que você se esforce para passar quatro dias e quatro noites em casa. Nesse caso, teria de ficar alheio à TV, ao rádio e aos jornais, como relata Carlos Drummond de Andrade em “Imagens da Festa”.
O fato é que, desde 1877, o carnaval instiga algazarras. No entanto, nem sempre canelas purpurinadas foram unanimidade. Naquele tempo, tendo chegado a maioridade havia pouco, a folia tinha de se provar rechonchuda, travessa, até mesmo um pouco respondona.
Segundo Machado de Assis, o agito rolou intenso nas ruas do Rio quando nascera. “E assim viveu”, disse o escritor. Ao brotar em 1854 “tão cheio de vida, tão lépido e tão brilhante”, corria risco nos próximos anos de morrer, “sem necrológico, nem acompanhamento”.
Seria necessário rufar os tambores todo ano. E talvez, quem sabe, apostar em três ou quatro edições anuais para que o império do rei Momo continuasse soberano. Bom, soberano, soberano, ainda não era. Os foliões de 1878 lutavam pela sobrevivência do Carnaval.
Anos antes, em 1869, o dramaturgo Francisco Corrêa Vasques apresentou no Teatro Fênix Dramática, no Rio de Janeiro, a cena cômica “O Zé Pereira Carnavalesco”. Em 2024, a peça se tornou objeto de pesquisa da UFG, defendida na Faculdade de Ciências Sociais.
Cientista social afirma que corpo vibra com som

Para o sociólogo Francisco Corrêa Vasques, o nosso corpo vibra pela experiência sonora. “Temos comportamentos teatralizados conduzidos por nossa capacidade de encontrar o outro e performar constantemente”, explica o pesquisador, em sua tese de doutorado.
Uma cançoneta da peça “O Zé Pereira Carnavalesco” retumba: “Viva o Zé Pereira! Viva o Zé Pereira! Viva o Zé Pereira! Viva o Carnaval!” Em 1869, conforme Francisco, a letra era outra: “E Viva o Zé Pereira! Pois que a ninguém faz mal. E viva a bebedeira, nos dias de carnaval!”
Tempos depois, João do Rio constatou: “Trata-se de coisa mais séria [a folia].” Na crônica “O Momento do Amor”, de 1916, o escritor ouviu de um distinto conselheiro que “a maioria das inclinações, dos namoros que terminam em casório, [eles] começam no Carnaval”.
Ficou pensativo. “Mas, conselheiro, se é verdade o que vossa excelência diz”, iniciou João, “era o caso de fazer uns quatro carnavais por ano.” Ei, isso seria uma maluquice. “Não daria resultado, meu amigo. O Carnaval é uma embriaguez d´alegria”, respondeu o senhor.
Na época, a fantasia se lançava à apoteose nos jatos de lança-perfumes, álibi químico a que se recorria naqueles tempos em salões carnavalescos. Na belle époque, a ação cafungatória rolava forte, de forma que, inalado o festejado produto, chegava-se ao bacanal dos sentidos.
Esse clima atraiu Di Cavalcanti, um dos pilares do modernismo brasileiro. Nos anos 1930, ele pintou a tela “Carnaval”, descoberta em 2023 na casa de um colecionador francês. Os traços sinuosos e as cores expressionistas mostram casas, colinas e sete personagens.
Alguns estão mascarados, outros vestem saias coloridas, enquanto um homem — de regata, peito peludo e chapéu claro — empunha um cavaquinho. Não foi a primeira vez que o artista recriou o ambiente da folia em um óleo. Em “Samba”, de 1925, fizera algo parecido — ali, um músico toca e admira uma mulher que dança diante dele, com os peitos à mostra.
Agitem-se os violões! No som, Chico Buarque avisa: “Vai passar nessa avenida um samba popular/ Cada paralelepípedo da velha cidade/ Essa noite vai se arrepiar.” Evoé, Momo!