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‘Cazuza Além da Música’ revela luta de cantor e compositor contra vírus HIV

Redação Online

Publicado em 1 de dezembro de 2025 às 20:14 | Atualizado há 11 meses

Produção estreia no Globoplay para manter viva memória do compositor carioca
Produção estreia no Globoplay para manter viva memória do compositor carioca

Marcus Vinícius Beck

Ao cantar o blues, Cazuza pediu piedade para os caretas e covardes. Era visceral — como um anjo bêbado — e se assumia apaixonado pela vida. Um poeta beat-carioca, sem dúvida.

É assim que a série documental “Cazuza Além da Música” apresenta Agenor de Miranda Araújo Neto. Pelas lentes da diretora Patrícia Guimarães, o artista transforma a urgência do rock em liberdade e manifesto. A produção chegou nesta segunda (1°/12) ao Globoplay.

Com quatro episódios, o doc retrata Cazuza desde a infância, entre os anos 60 e 70, quando descobriu a poesia e a liberdade, até sua ascensão stoniana no Barão Vermelho, em 1981. Na banda, o cantor escarnava: “Botando banca/ posando de star/ é, você precisa é dar-se.”

O filme traz depoimentos de familiares, amigos, músicos e jornalistas. Lucinha Araújo, mãe do artista, abriu seu acervo — com destaque a um diário de anotações, desabafos e rabiscos de músicas que descortinam o pensamento do artista. Tudo isso numa linguagem fluente.

“Lucinha nos deu duas lindas e extensas entrevistas e abriu todo seu acervo pessoal para o documentário. Isso foi incrível e fez toda a diferença”, diz Patrícia, que também conversou com os músicos Guto Goffi, Maurício Barros e Roberto Frejat, ex-parceiros de Barão.

Há pistas de irreverência cazuziana no poema “Work in Progress”, de 1980, publicado em “Meu Lance é Poesia”: “Um rock desde já me assalta pra acabar com esse papo furado (…) Você não é nada mais que um cachorro doido uivando na janela de um apartamento.”

Mais à frente, tal e qual Walt Whitman, questiona-se: “Que mal [há] em um bêbado brincando de criar palavras próprias.” Escreve ainda: “Faz sol, ainda não mudou nada.”

Agarrava-se às mentiras sinceras, por assim dizer. Aos 14 anos, seguia o poeta Carlos Drummond de Andrade por Copacabana. “Me sentia importante acompanhando os passos daquele poeta maior pelas ruas à tarde”, disse em entrevista publicada nos anos 80.

Quando a extinta Brasiliense editara naquela década obras dos escritores Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, o poeta do rock pirou: “Penso que os anos 50 têm muito a ver com os anos 80. Era época de repressão que se soltou lá pela década de 60.”

No entanto, foi à loucura quando descobriu o blues-rock de Janis Joplin e o blues da imperatriz Bessie Smith, estilos aos quais se associou nos elepês “Barão Vermelho”, de 82, “Barão Vermelho 2”, de 83, e “Maior Abandonado”, de 84. O Barão debochava, sensualizava.

“Aprendi com Cazuza e Ezequiel Neves [guru e produtor] o respeito à homossexualidade. Ficou pra mim a semente poética, os orgasmos das ilusões e os sonhos impossíveis, que acontecem”, contou o baterista Guto Goffi, fundador do Barão, a este repórter.

Em 1985, o vocalista deixou a banda — “The Thrill is Gone”, como diria BB King. A emoção acabou, mas a música seguiu. De cara, foi uma explosão: “Exagerado”, o primeiro disco solo, tornou-se um sucesso. Cazuza frequentava as paradas, vendia discos, fazia (lotados) shows.

Coragem

Cazuza acolheu a doença e, com isso, deu lição ao Brasil

Eis o foco: os últimos cinco anos da vida do cantor Cazuza, morto em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, no Rio de Janeiro. A diretora Patrícia Guimarães disseca a descoberta da Aids, a repercussão na imprensa (por vezes sensacionalista, vide a Veja) e a coragem do poeta.

Cazuza afirmou publicamente que contraíra o vírus HIV, um ato de cidadania importante para o Brasil da época. O doc mostra, além disso, como a doença não o paralisou, mas sim impulsionou sua criatividade — “Ideologia” e “Brasil”, obras-primas, são desse período.

O artista transformava dor em arte, ao rogar que o Brasil mostrasse sua cara pervertida. Em “O Tempo Não Para”, denunciava que a elite queria fazer do país um “puteiro, porque assim se ganha mais dinheiro”. No álbum “Burguesia”, de 1989, apregoou: “A burguesia fede.”

Pensamentos

Para a diretora, Cazuza a impressiona em dois pontos: verdade e vontade. “Verdade nas falas, nas letras, nos pensamentos e vontade nos atos, nos feitos, nas realizações. Como diz Denise Dumont, ex-namorada do artista, na série: ‘Ele foi imenso. Ele é imenso’.”

Se o cantor legou alta contribuição à música — como atestam no doc Gilberto Gil, Caetano Veloso e Ney Matogrosso —, também se notabilizou no combate ao HIV. Sua valentia, segundo Patrícia, marcou a sociedade, o que ruiu certos estigmas e certas intolerâncias.

“Ele acolheu a doença e, ao fazer isso, acolheu todos aqueles que, como ele, portavam o vírus”, afirma a diretora. Inspirada por tal postura, Lucinha fez do luto a sua luta. No mesmo ano da morte do filho, fundou a Sociedade Viva Cazuza.

Fotos: Divulgação


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