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Cerrado Galeria recebe exposições simultâneas sobre cultura sertaneja

Redação Online

Publicado em 3 de agosto de 2026 às 21:03 | Atualizado há 43 minutos

Tela 'Tira essa paixão da cabeça, tira essa tristeza do olhar', da série 'O Rei do gado', 2024, de Alice Lara | Foto: Cerrado Galeria/ Divulgação
Tela 'Tira essa paixão da cabeça, tira essa tristeza do olhar', da série 'O Rei do gado', 2024, de Alice Lara | Foto: Cerrado Galeria/ Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Duas mostras simultâneas chegam à Cerrado Galeria, no Setor Sul, em Goiânia, neste sábado (8/8), às 10h. As exposições, sob curadoria do crítico Divino Sobral, vão ficar em cartaz até o dia 26 de setembro, com entrada franca. Os trabalhos são díspares, mas se completam.

“O Voo Silencioso do Pássaro de Fogo” reflete acerca da cultura sertaneja e do agronegócio. A artista visual Alice Lara retrata em suas obras um imaginário visual que engloba formas e cores desse universo. Ela discute temas como machismo, relações de poder e feminicídio.

Nas obras, Lara mostra chapéu, boné, fivela, caminhonete, motocicleta, cavalo, boi e terra vermelha. Para ela, trata-se de simbologia masculina. Suas telas fazem referência à música sertaneja, sobretudo à cantora mineira Paula Fernandes — cuja canção nomeia a individual.

A artista diz que o tema mexerá com a memória do público. “O fato de a exposição acontecer na capital goiana, que é epicentro da cultura sertaneja, deve trazer novas perspectivas sobre o assunto”, sublinha Lara, formada em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB).

Alice Lara conta que, neste trabalho, foi possível pensar de forma clara certos elementos, como os animais retomando seu espaço, a forma como a natureza revida sua exploração ou, até mesmo, o sofrimento dos sujeitos envolvidos na cultura agro. Mestre em Poéticas Visuais pela USP, a artista lança um olhar crítico e, ao mesmo tempo, bastante poético. 

Alice Lara: “O fato de a exposição acontecer na capital goiana, que é epicentro da cultura sertaneja, deve trazer novas perspectivas” | Foto: Divulgação

Estética

Segundo Sobral, essa capacidade analítica a respeito de um universo masculino se associa aos valores do agronegócio e à estética agropop/sertaneja. “A artista questiona relações de poder, identidade e os papéis desempenhados pelas mulheres nesse contexto”, explica.

Já o artista Renato Rios, em “Dentro da Estrela Azulada”, se volta às memórias familiares. As avós lhe ensinavam sobre plantas, ervas e práticas de cura. O título da mostra, segundo Rios, tem origem no aclamado disco “Muito”, lançado por Caetano Veloso em 1978.

Na capa, Caetano emerge deitado sobre o colo da mãe, Dona Canô. Há ternura, carinho, numa fotografia que, colocando-a em diálogo com a exposição, induz reflexões ecológicas. “Terra para o pé, firmeza; terra para a mão, carícia; outros astros lhe são guia”, diz o baiano.

Caetaneando, Renato Rios quer espiritualidade, natureza, memória afetiva e contemplação, aglutinando formas geométricas como estrelas, elipses, triângulos e hexágonos. Conforme o artista visual, a exposição revela-se uma pausa diante do ritmo apressado da vida urbana.

“Vivemos cercados por informação, tecnologia e cobranças por produtividade”, assinala o brasiliense, também graduado em Artes Visuais pela UnB. Ele afirma que, com as suas pinturas, espera criar um espaço de contemplação para quem apreciará suas obras na Galeria Cerrado. “Ainda que por um instante, a vida está lá fora e aqui dentro”, filosofa.

Artista encontra cores, aromas e nuances de ervas e chás

Tela ‘Simultaneidade’, do artista Renato Rios: desacelerando o olhar | Foto: Cerrado Galeria/ Divulgação

“Dentro da Estrela Azulada” reúne trabalhos produzidos nos últimos anos, dentre os quais obras ainda inéditas para o público. São pinturas que, na visão do crítico e curador Ricardo Resende, possuem inspiração nas cores, aromas e nuances das infusões de ervas e chás.

“A pintura de Renato nos convida a desacelerar o olhar. É uma obra construída na escuta, no silêncio e na contemplação, em que as relações entre cor, natureza e espiritualidade revelam uma pesquisa profundamente comprometida com a experiência sensível”, explica Resende.

As duas exposições são assinadas por artistas brasilienses. Ambos, aliás, mantêm relação criativa com o Centro-Oeste, algo que se encaixa na linha curatorial da Cerrado Galeria. Alice Lara e Renato Rios, ainda que tratem de assuntos diferentes, se acham a investigar memória, cultura e modos de existência. Tudo isso feito pela linguagem da pintura.

Artista plástico Renato Rios: “Vivemos cercados por informação, tecnologia e cobranças por produtividade” | Foto: Divulgação

BSB e Gyn

Há anos, a Cerrado atua entre Goiânia e Brasília. Se na capital goiana o espaço ocupa uma casa modernista projetada pelo arquiteto David Libeskind, no Planalto Central fica em uma chácara que recebe exposições e projetos culturais. A ideia, com isso, é descentralizar as artes visuais, trazendo-as para uma região do País que, por anos, costumava passar longe delas.

A curadoria na galeria fica sob tutela do crítico Divino Sobral, que desenvolve, inclusive, pesquisas sobre a produção moderna e contemporânea do País, sobretudo no Centro-Oeste. Sobral é diretor artístico da Cerrado. Foi diretor do Museu de Arte Contemporânea de Goiás (2011–2013), além de ser premiado. Como canta Caetano Veloso, gente é outra alegria.


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