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Cientista social Ian Caetano emprestou erudição para o jornalismo de cultura

Redação Online

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 21:47 | Atualizado há 52 minutos

Enxadrista: Ian Caetano marcou meio cultural goiano nas últimas décadas | Foto: Acervo Pessoal
Enxadrista: Ian Caetano marcou meio cultural goiano nas últimas décadas | Foto: Acervo Pessoal

Marcus Vinícius Beck

O cientista social Ian Caetano, que assinava ensaios e críticas no Diário da Manhã, morreu nesta sexta-feira (30), aos 32 anos, em Goiânia. Ele lutava contra a cirrose hepática.

Mestre pela Universidade Federal de Goiás (UFG), chegou a cursar o doutorado em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Demonstrava erudição em cinema e literatura e, sobretudo, marxismo.

No DM, publicou o texto “A Crítica Cinematográfica da Realidade Juvenil no Capitalismo Tardio”, no qual analisava o movimento estudantil. Emprestava às páginas deste veículo seu conhecimento para dissertar sobre o que, segundo ele, se traduzia numa espécie de “lógica do açoite” em Goiás. Tornou-se, sobretudo, um intelectual público.

Em 2015, destacou a trajetória de José Saramago. Ao comentar “As Intermitências da Morte”, obra publicada pelo autor português em 2005, ressaltou o ponto de partida insólito do romance: em determinado país, ninguém morre durante as 24 horas do primeiro dia do ano.

A partir disso, reparou, Saramago construiu uma narrativa na qual acompanhava o caos provocado pela ausência da morte, de modo que expõe as contradições das instituições, da política, da religião e, principalmente, dos costumes. A obra, argumenta Ian, revela o estilo do escritor, com digressões e humor a serviço das reflexões a respeito da condição humana.

Ao se voltar para Machado de Assis, disse que o autor de prosa luso-brasileira antecipa as características do que viria a ser o realismo fantástico no romance “Quincas Borba”, de 1891. O ensaísta resumia, em seu texto, de 2015, a história de Rubião, professor que herda toda a fortuna do filósofo Quincas Borba e passa a frequentar os círculos da burguesia carioca.

Machado, escreve Ian, cria uma narrativa marcada por delírios, situações absurdas, humor e ironia, desnudando o comportamento interesseiro e as contradições sociais da época. O livro, lembra o crítico, se destaca pelo experimentalismo literário, pelos capítulos curtos e pela capacidade do autor de transformar situações disparatadas em instrumentos de crítica.

Certa vez, Ian referiu-se a Karl Marx como gênio indelével. Não satisfeito, reeditou o clássico “Manifesto Comunista” pela Escultura Produções Editoriais, empreitada intelectual vivida ao lado do jornalista Heitor Vilela. Noutro livro, também da Escultura, mobilizou sociólogos, historiadores e filósofos para discutir criticamente as escolas militarizadas em Goiás.

O jornalista Heitor Vilela se despediu do amigo. “A pessoa mais genial que eu tive o privilégio de conhecer nessa vida. Nos deixou muito cedo e muito breve. Meu coração está partido e minha garganta tem um nó profundo”, lamentou Heitor, em uma postagem.

Em 2014, Ian Caetano, Heitor e João Marcos, integrantes da Frente de Luta pelo Transporte, foram presos durante a chamada Operação R$ 2,80, conduzida pela Polícia Civil. Eles permaneceram detidos por cerca de uma semana, acusados de dano ao patrimônio público, associação criminosa e incitação à violência. 

Após habeas corpus concedido pela desembargadora Avelirdes Almeida Pinheiro, da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás, foram libertados. Ian, diria João Guimarães Rosa, não morreu. Ele está encantado. 


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