Correr mais para chegar no mesmo lugar
Redação DM
Publicado em 4 de abril de 2018 às 00:32 | Atualizado há 1 ano
- Conheça a história da estudante Aline Dantas, de origem popular, que teve que correr muito pra chegar à residência do Hospital Veterinário da UFG com uma pontuação surpreendente
Fui aluna de escola pública durante toda minha vida escolar. No terceiro ano do ensino médio fiz o cursinho popular “Fazarte”, um projeto da Universidade Federal de Goiás. Neste cursinho, majoritariamente estudantes de licenciatura da UFG, ministravam aulas para alunos de escola pública. Um aluno da química, chamado André, nos dava aula e disse: “O vestibular é uma selva que você vai atravessar, só que uma galera vai passar de tanque.” Pra vocês vão entregar um canivete e dizer: “Vai lá, atravessa.”
O ensino superior público trabalha com a lógica de excedentes, ou seja, não existe ensino superior público para todos. Dentro das vagas existentes os processos seletivos historicamente trabalharam com critérios meritocratas e a presença do estudante de origem popular era escassa, destinadas aos poucos “heróis” que disputavam igualmente com estudantes oriundos de um ensino básico muito mais estruturados e condições socioeconômicas superiores. As cotas mudaram um pouco essa situação, começaram discretas com cerca de 20% das vagas destinadas às escolas públicas, mas esse número progrediu no passar dos anos após a implantação dessa política.
O MEC divulgou que na última edição do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), 42,9% das vagas foram reservadas para a Lei de Cotas. Este número ainda não é absolutamente representativo, já que oito em cada 10 estudantes são oriundos de escolas públicas. Ou seja, menos de 50% das vagas é destinado para 80% de estudantes. A Lei de Cotas, sancionada em agosto de 2012, garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas 59 universidades federais e 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos integralmente do ensino médio público, portanto ela ainda não atingiu a porcentagem prevista. Os outros 50% das vagas são destinados à ampla concorrência.
O preconceito ainda existe de que as cotas formam profissionais inferiores e que os alunos de escola pública fariam com que a qualidade das instituições públicas caísse, pois eles seriam incapazes de acompanhar o conteúdo do ensino superior. Porém, a avaliação do desempenho dos alunos baseado no Enade de 2012 a 2014 mostra que alunos cotistas tiveram desempenho equivalente ao de seus colegas de classe não cotistas, assim como os alunos que recebem empréstimo do Fies. Alunos que recebem bolsa do ProUni tiveram desempenho superior ao dos seus colegas de classe.

PRA CHEGAR TEM QUE SER HERÓI
Aline Dantas é agora residente do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Goiás, com uma das mais altas pontuações no processo seletivo, mas para alcançar este objetivo ela percorreu um longo caminho. “Começando do ensino básico: na minha infância e adolescência morei em um acampamento do MST (Movimento Sem Terra). Então estudava em uma escola feita de palha, andava três, quatro, até cinco quilômetros pra ir pra escola. Às vezes a gente ia de kombi, ônibus em situações deploráveis. Já tive que andar três horas de ônibus pra chegar na escola, que ficava na cidade para conseguir estudar. Quando o ônibus quebrava, às vezes a gente chegava 11 horas da noite em casa. Então meu ensino básico foi muito difícil”, conta Aline.
A precariedade encontrada no ensino básico público interfere na concorrência por uma vaga em uma universidade pública como conta a estudante: “No meu último ano de ensino médio vim aqui pra cidade de Goiânia, concluí meu ensino médio aqui e parti para um cursinho. No ensino médio um problema que tive, por ser escola pública e ensino rural, tínhamos muita dificuldade em ter professores de todas as disciplinas disponíveis. Tinha muito professor de história dando aula de química e inglês, professor de matemática dando aula de português, coisas do tipo aconteciam. Então vim pra Goiânia concluir e resolvi fazer um cursinho pra tentar veterinária. Fiz seis meses de cursinho e não consegui passar na minha primeira tentativa de vestibular pra veterinária, mas passei pra zootecnia em São Luís dos Montes Belos, o qual cursei um ano e meio”.
Aline não conseguiu de primeira ingressar no seu curso dos sonhos, a veterinária e estudou zootecnia no interior de Goiás: “Em São Luís sabia que o curso que queria era veterinária, desde meu primeiro dia de aula na zootecnia. Só que não podia ficar depositando esperança em um curso e não seguir a vida. Então me aconselharam a fazer zootecnia e segui o curso, mas o tempo todo indignada porque queria veterinária. Quando foi no meu terceiro semestre fiquei sabendo da possibilidade de uma transferência pra UFG, pelas vagas remanescentes, prestei a prova e passei pra UFG.”
“No cursinho já percebi o quanto meu ensino base era deficiente, pela falta de professores e tudo mais. Tinha matéria que cairia no vestibular que eu nunca tinha visto na minha vida, não imaginava que aquilo existia. E não consegui, porém me esforçava muito. Foi uma dificuldade muito grande, passava cerca de três horas em um ônibus pra chegar no cursinho, saía de casa de madrugada e morava com meus tios aqui em Goiânia e passava em uma região muito perigosa pra chegar ao ponto de ônibus pra ir às aulas do cursinho”, continua Aline a respeito do dispendioso esforço para ingressar em uma universidade pública.
A estudante necessitou recorrer aos programas de permanência estudantil, no caso de moradia. “Quando passei pra Veterinária aqui em Goiânia teve outro empecilho muito grande pra mim, meus pais moram no interior de Goiás e os familiares da minha mãe que me abrigaram aqui moram em Aragoiânia. Morar em Aragoiânia e vir para a UFG seria impossível e na época procurando sobre assistência estudantil descobri sobre a CEU (Casa do Estudante Universitário) e fiz os trâmites e fui aceita. Então, desde o meu primeiro ano de veterinária moro na Casa do Estudante, localizada no Samambaia”, relata Aline.
As pessoas que precisam dos programas de permanência acabam sofrendo preconceito por parte da sociedade, colegas e até professores das instituições, como explica a estudante: “Como moradora da Casa do Estudante sinto que a gente sofre muito preconceito, principalmente dentro destes cursos considerados mais elitistas. Cursos mais tradicionais que consequentemente tem mais elite, isso é parte da nossa sociedade. Meu curso ainda é muito assim, mas vem mudando bastante o perfil dos ingressos nos últimos três anos. Porém, a gente nota muito quando fala que é moradora da Casa do Estudante, a primeira pergunta que vem à cabeça deles: “Lá é só putaria né? Muita droga, sexo e rock’n roll”. Existe este estereótipo que lá só tem estudante vagabundo, quem não quer estudar, não quer nada, que está lá só para aproveitar dos programas do governo. Por muitas vezes, inclusive professores, soltaram piadinhas nesse sentido, mas sempre tento cortar. A gente sabe que quem está lá nem sempre tem uma família que pode ajudar. Na casa são 150 pessoas, 150 histórias diferentes, a gente está lá pra fazer a nossa.
As exigências da instituição por vezes ultrapassam a estrutura e condições socioeconômicas dos estudantes, para Aline falta uma equiparação. “Eu como aluna de escola pública entrei por exemplo com um inglês deficitário. A gente sente a pressão de ter que ler artigos em inglês, ter que publicar, em português não serve. Você precisa ir para congressos e essas coisas custam dinheiro, custam tempo. O aluno de escola pública entra e todo mundo acha que tem iguais condições. Tenho muitos amigos que moram longe, enquanto parte dos alunos tem carro pra vir para um projeto no fim de semana, outros sequer a linha de ônibus passava perto de casa e ambos tinham as mesmas exigências. O que é bom, pois não pode segregar o tratamento, por outro lado eles tratam de uma forma igualitária o que tem e o que não tem condições. É o ‘foda-se’ você tem fazer da mesma forma”, critica a aluna.
Aline relata que seu alto desempenho surpreendeu a muitos por ela ser aluna de origem popular e conta da falta de informação a respeito dos mecanismos que os alunos vindos de escolas públicas têm direito, como cotas na pós graduação: “Nunca fui questionada por ser cotista. Mas o que foi surpreendente pra todo mundo foi em relação ao fim do meu curso. Agora fui aprovada na residência e fiz uma pontuação muito alta no processo seletivo e isso não era esperado por ninguém, por essa visão de “morador da CEU não está aqui pra estudar, está pra fazer festa, passar férias”. Foi meio que uma surpresa, inclusive pra instituição. “Além da residência fui aprovada no processo seletivo do mestrado, que tem um sistema de cotas para alunos de escola pública e só fiquei sabendo depois que fui aprovada”.
A estudante defende o sistema de cotas como forma de acesso ao ensino superior diante da situação das escolas públicas: “Acredito nas cotas, não acho que seja a forma ideal, mas é uma forma de tentar fazer o aluno de escola pública ter acesso ao ensino superior, perante o ensino deficitário que a gente tem ela ainda é o método necessário”


