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Cultura documenta espírito do tempo com obras que ajudam a entender o Brasil

Redação Online

Publicado em 2 de outubro de 2026 às 21:29 | Atualizado há 41 minutos

Cazuza fez discurso histórico no Rock in Rio, em 1985 | Foto: Cazuza/ Instagram
Cazuza fez discurso histórico no Rock in Rio, em 1985 | Foto: Cazuza/ Instagram

Marcus Vinícius Beck

Às vésperas das eleições, realizadas neste domingo (4), este escriba contempla deveras o roquenrol — um hino pró-liberdade. É o som da juventude em meio à redemocratização e ao início da Nova República, que diz: “Estamos, meu bem, por um triz/ Pro dia nascer feliz.”

Os jovens, em 1983, queriam gozar. Na música, o Barão Vermelho entoa os versos do spleen baudelairiano na abertura política. O Barão, banda em que Cazuza era vocalista, começou a tocar na rádio nesta época. Nascia aí uma nova era, democrática, sem fardas nem coturnos.

Como explica Breno, narrador do romance “O Beijo Não Vem da Boca”, do escritor Ignácio de Loyola Brandão, o Brasil se dissolvia ao sol, lambido pelas musas do verão. O país, conta, libertou-se da ditadura militar e derreteu-se feito uma imensa bola de sorvete. “Você bem sabe. Não pode dormir. Nunca mais. Acordado até a eternidade”, relata na obra, de 1985.

Breno deslocou-se a Berlim, na Alemanha, onde viria a morar. E isso aconteceu, diga-se, na pré-queda do muro. A cidade estava furiosa e louca, como fora nos anos 1920 e 30, antes do nazismo. Dali, repassando a história e a separação, o personagem-jornalista olha pro Brasil.

Anos antes, todavia, o escritor Reinaldo Moraes integrou a coleção Cantadas Literárias, da Brasiliense, que na época editara os jovens escritores Marcelo Rubens Paiva, Chacal e Ana Cristina César. No livro “Tanto Faz”, de 1980, Reinaldo evoca o espírito daquele tempo: ar de descompromisso, desencanto com a esquerda e o fracasso da luta armada nos anos 1970.

Capa do romance ‘Cabeça de Papel’, do jornalista Paulo Francis | Foto: Divulgação

‘Cabeça de Papel’

Nesta década, Paulo Francis reexamina tudo. No livro “Cabeça de Papel”, editado em 1977, o jornalista revisa a elite, os intelectuais marxistas, a imprensa e, sobretudo, a sua geração. O personagem Hugo Mann, em certa altura, explana: “Nosso mundo é insano e corrupto, não importa o ângulo de visão.” Então os jovens, de saco cheio desse niilismo, vão por outra via.

O crítico José Virgínio Marques Filho, em sua dissertação de mestrado na USP, indica que o romance reinaldiano possui aforismos, arroubos poéticos, elucubrações filosóficas, literárias e políticas. Há também sexo nas mais diversificadas modalidades. “A linguagem chafurda no erotismo e na banalidade dos assuntos cotidianos”, analisa o pesquisador, em 2015.

Sob a voz de Ricardo de Melo, o livro recorre a um sentimento de descompressão. Por vezes canabismado, o narrador ouve o jazz de Billie Holiday. Curte, em seguida, o blues carioca de Angela Ro Ro, de modo a ilustrar a perspectiva que se tinha acerca do futuro naquele tempo.

Ricardo retornará em “Abacaxi”, de 1985, no qual, aliás, se revela mais canalha. “Meti a mão na bolsa, chutei os estudos e, em vez de tese, teci um texto tóxico-tarado sobre o nada quase absoluto”, conta o pícaro. E debulha-se: “Quero ser um dândi suave, feminino, distraído.”

Capa de ‘Feliz Ano Velho’, de Marcelo Rubens Paiva | Foto: Divulgação

À revista “451”, especializada em literatura, Reinaldo salientou que a ditadura irritava geral, bem como a retórica marxista-leninista. “Essa coleção chuta isso e faz escanteio. Se você for listar as virtudes do livro do Marcelo [Rubens Paiva], elas estão muito mais na linguagem”, lembrou, em 2022, destacando que o personagem fuma maconha e trepa com as namoradas.

“Feliz Ano Velho”, de 1982, nasceu coloquial. Marcelo se inspirava na tropicália, na turma de O Pasquim, nos cartuns de Henfil, Glauco e Angeli, que, para o escritor, inauguraram uma nova língua e o pós-modernismo. “Toda a minha geração leu [Herbert] Marcuse”, constata.

Os heróis, no entanto, tinham morrido. “Como dizia Cazuza, morreram de overdose, nossa política passava pela palavra, pela cultura: poesia marginal, literatura, cinema, televisão, punk rock, moda, grafite. Que geração inspiradíssima…”, avalia Marcelo Rubens Paiva.

Tal linha reflexiva conduz ao historiador José Murilo de Carvalho. Segundo o estudioso, a liberdade de pensamento, em um passado recente, era cerceada no país pela censura prévia à mídia e às expressões artísticas. Não existiam atividades políticas estudantis, como não tem, é claro, desde 2016. A democracia precisa se sensibilizar para o dilema do nosso tempo.

Os jovens não estão desligados. Estão ligados. O nível do debate, entretanto, se mostrou baixo. E assim chegamos aqui: agora pouco sentimental, como escreveu a poeta Ana Cristina César em “A Teus Pés”, de 82. Resta a mim e a você o peso da lucidez. Estamos por um triz.


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