‘Dossiê Nora Ney’ revela facetas da voz que encantou Brasil antes da bossa nova
Redação Online
Publicado em 9 de junho de 2026 às 12:38 | Atualizado há 2 horas
Por ângulo feminista, ‘Dossiê Nora Ney: Uma Voz Poética e Política, 100 Anos’ redimensiona trajetória da cantora que marcou música brasileira
Marcus Vinícius Beck
De cigarro em cigarro, Nora Ney foi nome central da música popular brasileira durante os anos 50 e 60. Tinha voz grave, noturna. Em suas interpretações, ela acentuava a melancolia, o lirismo e o drama. Suas canções eram assim, cheias de tristeza. De fossa. Dor-de-cotovelo.
Nada de bossa nova. Em 1952, havia uma outra boemia em Copacabana, no Rio. Ouvia-se muito samba-canção. Os compositores ganhavam a vida como músicos nas boates locais. Alguns, a exemplo de Antonio Maria e Dorival Caymmi, batiam ponto nesses ambientes.
É o que escreve o pesquisador Yuri Behr no texto “A Permanência do Samba-Canção na Primeira Fase da Bossa Nova: De Cigarro em Cigarro”, que abre “Dossiê Nora Ney: Uma Voz Poética e Política, 100 Anos” (Garota FM Books). O livro acaba de chegar às livrarias.
“O samba-canção floresceu nas rádios e boates do Brasil, dialogando com os modelos orquestrais do cinema hollywoodiano”, diz Behr. Para ele, as letras, muitas vezes, retratam histórias de desilusão, traição, saudade ou abandono, quase sempre em primeira pessoa.
Era como se o ouvinte estivesse “escutando um desabafo íntimo”. Ou uma dolorosa desilusão sentimental, esse tema universal do cancioneiro pátrio. O ritmo, na definição do cronista Joaquim Ferreira dos Santos, batia como samba. Já “a melodia leva como canção”.
Para o letrista Carlos Rennó, o estilo — se comparado com o de morro — traz andamento lento. A fossa, ninguém me ama nem me quer!, levou a um certo samba-canção urbano, meio “poroso ao bolero, balizado pela dor de amor”, escreveu Rennó, em 2003, na “Folha”.
Ecos por aí
Tim Maia? Trouxe o soul ao samba-canção em seu primeiro disco, de 1970. Angela Ro Ro? Arde, desde 79, com sua voz na fogueira das sensações, dos amores e porres. No caso de Ro Ro, a receita leva ainda o tempero do blues — em uma roupagem confessional, irreverente.
Agora, por favor, sirva-se de um uísque com gelo. Só uma pedra, senão fica aguado. E ouça aqui: Behr fala que o cantor Nat King Cole, em visita ao Brasil nos anos 50, se viu encantado pela música “Ninguém Me Ama”, composição de Antonio Maria com Fernando Lobo.
Lançada em 1952, a canção foi imortalizada por Nora Ney. Cole chegou a gravá-la. “Essa escolha revela também um reconhecimento não declarado da estética do samba-canção”, escreve. Detalhe: não por qualquer um. Era simplesmente por um ícone do jazz-pop gringo.
Bom, agora que você já sorveu o scotch, acenda um cigarro. Vem, vamos entrar, sentar ali no canto. Acene para o garçom, peça outra dose. Olha isso: “Ninguém é mais elegante. Séria.” Arrisca um palpite sobre a autoria da frase? Não? Ei-lo: Grace Gianoukas. Exato, é a atriz.
Nora, você veja, se eternizou como símbolo da Era de Ouro do rádio. Nas ondas hertzianas, ela virou uma voz expressiva entre o lirismo e a modernidade da bossa nova. Quando se foi, aos 81 anos, em 2003, o pesquisador Ricardo Cravo Albin declarou ao jornal “Folha de S. Paulo”: “Ela transcendeu a música, marcou a geração dela e as gerações posteriores.”
Obra expõe luta contra machismo durante anos 1950

Nascida em março de 1922, Nora Ney se empoderou em meio àquela sociedade machista dos anos 1950. Desquitou-se após sobreviver a uma tentativa de feminicídio cometida pelo marido Cleido, que a obrigou a engolir uma dose de barbitúricos. Precisou ser hospitalizada.
Recuperada e cansada da violência, a artista carioca assumiu um relacionamento com o cantor Jorge Goulart, a quem chamava de “companheiro”. E lembre-se: o termo comum, naquele tempo, era o subserviente “meu marido”. Nada a ver com Nora. Ela e Jorge só oficializariam a união anos depois — e, ainda por cima, em razão de questões burocráticas.
Por todos os lados, machismo. Pense, então, como era a vida de uma mulher que havia saído de Olaria, na Zona Norte. Cheia de insegurança, claro. Achava, por exemplo, que o timbre de sua voz combinava com o inglês, daí encasquetou a cantar nessa língua no início da carreira. “Meus erres são errantes”, dizia Nora, frequentadora do Sinatra-Farney Fan Club.
Conforme a pesquisadora musical Chris Fuscaldo, o maior legado de Nora são as gravações que a fizeram símbolo da dor-de-cotovelo. No entanto, explica Fuscaldo no texto “A Breve e Inusitada Viagem da Cantora de Samba-Canção ao Mundo do Rock’n’Roll”, a artista apareceu ainda nos filmes “Carnaval Atlântida”, de 53, e “Carnaval em Caxias”, de 54.
“A primeira gravação de um rock no Brasil aconteceu em 24 de outubro de 1955 pela cantora carioca Nora Ney, nos estúdios da gravadora [Continental]”, revela a jornalista e escritora, em artigo pinçado do livro “Dossiê Nora Ney: Uma Voz Poética e Política, 100 Anos”.
“Ronda das Horas” era uma releitura de “Rock Around The Clock”, sucesso de Max C. Freedman e Jimmy Knight gravado por Bill Haley & His Comets, em 1954. “Deu a largada para a primeira onda do rock nacional (a segunda viria com a turma do iê-iê-iê, cujo momento foi batizado mais tarde de Jovem Guarda)”, diz Fuscaldo, em “Dossiê Nora Ney”.
“E, como se não bastasse, ela ainda era uma engajada e politizada artista, com filiação ao PCB e com um roteiro de viagens que incluiu países da Europa Oriental, União Soviética, China, entre outros destinos pouco ortodoxos”, lembra o historiador Carlos Eduardo Lima.
Eduardo Lima sublinha que, quando chegou a ditadura civil-militar, em março de 1964, Nora e seu companheiro, Jorge Goulart, foram ejetados da vida artística brasileira. Isso os obrigou a viver num autoexílio que durou tempo demais. Mas nós não vamos esquecê-la.