Fernanda Abreu chega ao Goiânia Noise no compasso do escândalo dançante
Redação Online
Publicado em 7 de maio de 2026 às 20:24 | Atualizado há 2 meses
Diva do pop brasileiro mapeia black music em sua discografia - Foto: Murilo Alvesso
Marcus Vinícius Beck
Até que enfim a gente vai sair de casa para curtir um show de Fernanda Abreu. Não perco um por aqui, todos sempre bem planejados por ela e seus músicos. Rainha inconteste do pop brasileiro, ei-la, com sua presença sexy-quente, nesta sexta (8), à 0h45, no 31° Goiânia Noise.
Fernanda é da lata, quer dizer, Fernanda é papo reto na sua afirmação sobre as delícias de viver no Rio. Como diz Fausto Fawcett, ela toca no gen do suingue lascivo ancestral, refina o corpo no molejo, aguça o sexo na ginga. Respira a dança, transpira o batuque. E não “só”.
Corajosa na atitude, mapeia a música negra brasileira, sua grande paixão estética e sonora, indo do samba ao soul, ao funk velha-guarda, ao rap, hip hop e funk carioca. “Sempre tive uma relação grande com a música negra. É minha maior referência”, me disse, em 2023.
Pelo ritmo do compasso excitante, Fernanda é o que há. Sempre quis algo novo, música nova. A Blitz tinha acabado. Parou, pensou. Que estilo musical seguir? Que linguagem adotar? Achou o tom: música dançante. Veio “SLA Radical Dance Disco Club”, em 1990.
Vivia-se um momento de transição, ia-se da música analógica à computadorizada. Mas ainda persistiam as dúvidas: que estilo musical seguir? Que linguagem utilizar? A ex-banda era recente. Mas repeti-la, jamais. No fim dos anos 1980, o produtor Liminha tinha algo novo.
You and me
Parecia inofensivo, pequeno. Contudo, consistia na poderosa bateria eletrônica Boss DR-220. Fernanda começou a explorar as perspectivas sonoras da drum machine. Se faltava noção, sobrava-lhe garra. Ela compôs, pouco tempo depois, a canção “Kamikazes do Amor”.
Quente e ardente, a diva criou frases fulminantes. Mostrava-se livre: “No meio da fumaça/ meus olhos vermelhos/ E tudo que eu desejo/ É uma prova de amor.” Um pop dançante, excitante, com letras sobre a noite, essa droga de arrepiar, conforme uma faixa de “SLA”.
O LP, hoje um clássico, foi produzido por Herbert Vianna e Fábio Fonseca. Fernanda conta que o disco tinha hip hop, rap, funk e house. “Foi importante na minha carreira, é inovador. Atualmente, ele é considerado precursor dessa linguagem pop dançante brasileira”, afirmou no programa “O Som do Vinil”, atração do Canal Brasil comandada por Charles Gavin.
Do olhar da diva, uma breve história do tempo, o estado das coisas: sample. Ou, melhor, be sample — o jeito sampler de olhar pro mundo. De uma hora pra outra, tudo faz sentido: Burroughs sampleia outras literaturas, o cristianismo sampleia o judaísmo, Andy Warhol sampleia outras artes, como sacou o antropólogo Hermano Vianna no início dos anos 1990.
Fernanda, diz Hermano, deixa isso evidente. Não lança, por que lançaria?, disco-manifesto. Fez melhor. A nossa diva do suingue abre as portas, em “SLA 2 Be Sample”, de 1992, para a novidade requebrar na pista. Na primeira faixa, ela nos leva a balançar: “Jorge da Capadócia”.
Grande Jorge Ben. Havia, por parte de Fernanda Abreu, a necessidade de pôr mais Brasil no segundo LP. De batucada com cartucho sub-uzi, de batuque digital, metralhadora musical: “Rio 40 Graus”, parceria com Fausto Fawcett e Laufer. Um purgatório da beleza e do caos.
Sagaz nas ideias, o poeta Chacal sacou: “O sampler chegou para despertar o ouvido. Nada mais parecido com uma casa em ruínas do que uma casa em construção.” E ainda sapecou: “SLA in your mind, SLA to your soul.” O bardo, no ato, percebeu essa maravilha mutante.
Fernanda vem atropelando todos os chatos desanimados

Fernanda foi mais fundo em “Da Lata”, de 1995. No CD, a artista consolidou sua linguagem samba-funk. Quente paraíso do espírito excitado pela festa dos sentidos animados pelo mar e pelo sol, como na música “Garota Sangue Bom”, que ela fez com o amigo Fausto Fawcett.
Fawcett, aliás, escreveu que, mais do que nunca, a parceira “tá mandando na lata e, nua na capa do disco, tá expondo a fartura da sua visão-vivência-vocação de garota brasileira carioca”. Bamba. É botar o disco pra rodar e sair por aí balançando num samba-funk.
Ao afirmar sua carioquice na música brasileira, Fernanda ouviu a gravadora lhe pedir um disco ao vivo. No entanto, ela optou por chamar artistas do Brasil inteiro para relerem canções de seu repertório. “Raio-X” saiu em 1997. Trata-se de um grande sucesso comercial.
Se “Kátia Flávia, a Godiva de Irajá” se escondia em Copa, a rainha do pop brasileiro se tornou “Entidade Urbana”. O CD, lançado em 2000, trouxe a “natureza urbana-humana”. “Falo do sentimento de cidade humana, corpo urbano, tatuado, planejado, monitorado”, disse a cantora, em cujo álbum nos aplicou doses de nitroglicerina com “Baile da Pesada”.
Só que Fernanda é cronista. E o Rio, antes a cidade maravilha, agora se pegava em guerra. Muitos assaltos rolando, assaltos à mão armada. A cantora subverteu, na capa, esse cenário com flores saindo dos revólveres. À época, ela lamentou a sofisticação da perversidade.
“Minhas filhas estão crescendo num Rio de Janeiro que é uma merda”, constatou, séria, em uma entrevista para divulgar “Na Paz”, em 2004. Não foi um ano exatamente fácil: Fernanda rescindiu contrato com a EMI. Mas enfim repassou a carreira no disco “MTV Ao Vivo”.
Depois desse projeto de 2005, a rainha do pop entrou num hiato. Voltou a lançar disco em 2016, quando superou dramas pessoais e o fim de um casamento de 27 anos. “Amor Geral” é sutil, uma preciosidade do pop brasileiro nos anos 2010. O trabalho gerou um DVD em 2020.
Como diz o jornalista Jamari França, Fernanda mostra, a partir de uma perspectiva carioca, a universalidade do ritual da música e da dança. É o que veremos no Goiânia Noise Festival.