Goiânia Noise ofereceu ao público fim de semana com Tom Zé e Fernanda Abreu
Redação Online
Publicado em 11 de maio de 2026 às 20:38 | Atualizado há 2 meses
Tropicalista levou ao Noise a inventividade de sua música - Foto: Natália Michalzuk/ Goiânia Noise/ Instagram
Marcus Vinícius Beck
Tom Zé chegou ao Palácio da Música às 23h30. Pontual, como sempre. Rolaram palmas, gritos. Geral andou, graças a Deus!, pela Augusta. Que saudade. No sábado (9), a noite foi das reflexões tomzeísticas. Era um homem-música durante o 31° Goiânia Noise Festival.
O espaço estava cheio, difícil locomoção. Perfeitamente justificável: sabe-se lá quando o público teria outra chance de ver esse baiano de Irará. Não tem jeito, não tem escolha: a finitude se aproxima. Quase 90 anos de versos, de tons e sons. Tom Zé, gracias!, está aqui.
Por cerca de uma hora, o tropicalista entoou métricas. Olhou fechado pra ver melhor. Desesperou-se pra ter paciência. Explicou pra confundir. Estudou o samba, a bossa, a língua. Consciente politicamente, protestou contra as superpotências capitalistas e as elites.
“Bob Dica, diga/ Jimmy renda-se”, ironizou o herói nordestino, debochando da cultura pop gringa. “Billie Holly Rolleiflex/ Jâni chope chope chope chope.” Inesgotável, ele saudou o concretista Augusto de Campos. Por isso, foi incensado por jovens espertos ao fim do show.

Samba novo
Já passava da meia-noite. Na caixa de som, “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”. Riffão. Los Sebosos Postizos foram aplaudidos pela galera. De óculos escuros, Jorge du Peixe soltou a voz: “Olha que a cidade toda ficou vazia/ Nessa tarde bonita só pra te ver jogar.”
Du Peixe estava no centro do palco. Los Sebosos fecharam a última noite do 31° Goiânia Noise, realizado entre quinta-feira (7) e domingo (10), no Oscar Niemeyer. Como saideira, os pernambucanos mandaram ver um samba-soul: é a história de Umbabarauma (veja abaixo).
Lançada no LP “África Brasil”, de 76, a faixa descreve um atacante talentoso, o homem-gol. Hipnotiza multidões. Habilidoso, craque. Jorge Ben tem peso de toneladas no manguebeat. Versos de “Da Lama ao Caos” se misturam ao clássico. Salve Jorges — Du Peixe e Ben Jor.
Joga bola, jogador. Tudo vai se acabar, a emoção tá aqui, sinta o último acorde, a derradeira palavra. Uma alquimia. Hermes Trismegisto escreveu com uma ponta de diamante numa lâmina de esmeralda. Basta lembrar do crítico Tárik de Souza: “Jorge Ben é um enigma.”
Com 27 anos de carreira, Sebosos Postizos são formados por integrantes da Nação Zumbi. O LP “A Tábua da Esmeralda” foi tocado na íntegra no Oscar Niemeyer, entre domingo e segunda. “É o último disco de Jorge Ben tocado com violão”, informou Du Peixe no show.
Do início ao desfecho, uma homenagem inventiva ao disco. Músicas como “Os Alquimistas Estão Chegando”, “O Homem da Gravata Florida” e “Magnólia” ganharam novas texturas sonoras. Os arranjos reforçaram a acentuação ska, dub e manguebeat das composições.
Du Peixe contou que, desde o começo, o balanço de “A Tábua da Esmeralda” está na base da Nação Zumbi. Nos anos 1990, o grupo morou por meses em Santa Teresa, bairro do Rio. Não teve um dia em que seus músicos não curtissem Jorge Ben. Gravavam o CD “Afrociberdelia”.
Fernanda Abreu levou pop dançante ao Palácio da Música

No compasso do escândalo dançante, Fernanda Abreu encerrou a segunda noite do Noise. Ela se apresentou nos primeiros minutos de sábado (9). Fernanda mostrou para o público goianiense a turnê “Na Estrada”, na qual repassa suas três décadas e meia de carreira solo.
Em certa altura, a diva da dance music brasileira lembrou de outra rainha — Rita Lee. Nesse set, que durou três ou quatro canções, a garota sangue bom percebeu a coincidência entre as mortes de Rita e de seu parceiro Luiz Sergio Carlini: ela se foi em 8 de maio; ele, no dia 7.
Falecido na sexta, aos 73 anos, em São Paulo, Carlini criou o solo mais reverenciado do rock brasileiro. É “Ovelha Negra”, que saiu no LP “Fruto Proibido”, de 76. No entanto, o músico toca ainda guitarra em “Agora Só Você”, do mesmo disco, e “Jardins da Babilônia”, faixa lançada no álbum “Babilônia”, de 78. Fernanda, sexy-estilosa, celebrou os roqueiros.
Sua performance, aliás, foi cronológica. Iniciou-se com “Sla Radical Dance Disco Club”, de 90, cujas faixas “A Noite” e “Você Pra Mim” foram cantadas verso a verso pelo público. A rainha samba-funk, entre outros hits, interpretou “Rio 40 Graus”, de “Sla 2 Be Sample”, de 92.
Após o espetáculo, Fernanda se declarou alegre: “Eu queria vir aqui há muito tempo. Eu adoro Goiânia. A plateia foi maravilhosa, o show foi incrível. Esse espaço [Palácio da Música, Centro Cultural Oscar Niemeyer] é sensacional. E o festival é um clássico.”
Segundo ela, o show renova seu público. “O festival tem mais de 30 anos. Minha carreira solo tem 35 anos. A música acaba sendo eterna se a gente consegue ir se renovando com o público. Eu, hoje, vi muita gente jovem na plateia curtindo. Parece que eu tô começando.”
Na sexta, antes de Fernanda, o Noise trouxe o reggae de Ras Bernardo, primeiro vocalista do Cidade Negra. A Cachorro Grande, com seu estilo stoneano, fez a galera matar a saudade das baladas “Dia Perfeito” e do rock “Hey, Amigo”. Já Duda Beat foi a estrela da quinta (7).