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‘Hamnet’ emociona, mas se apoia no prestígio eterno de Shakespeare

Redação Online

Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 20:58 | Atualizado há 5 meses

William Shakespeare, em crise com a amada mulher, deu ao mundo nada menos do que o clássico “Hamlet”
William Shakespeare, em crise com a amada mulher, deu ao mundo nada menos do que o clássico “Hamlet”

Inácio Araujo

(Folhapress) – A julgar pelos filmes sobre Shakespeare que nos chegam de tempos em tempos, o maior dramaturgo moderno foi, no fundo, o criador da autoficção. Segundo “Shakespeare Apaixonado”, que ganhou o Oscar de 1998, ele escreveu “Romeu e Julieta” sob o efeito de uma paixão avassaladora.

Em “Hamnet”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (15/1), os problemas são mais dramáticos: produzem uma ficção em torno da família de Shakespeare e mesmo da morte de Hamnet, um de seus três filhos. Então, um Shakespeare atormentado, em crise com sua amada mulher, Agnes, dará ao mundo nada menos do que “Hamlet”.

O abandono aqui é central, porque a protagonista do filme de Chloé Zhao é muito mais Agnes —Jessie Buckley— do que o dramaturgo. Ele é o homem instruído, que sente necessidade de partir para Londres, abrir horizontes, deixando a família no lugarejo, aos cuidados de Agnes. Estamos de novo com a família no centro de tudo —assim é o nosso século.

Agnes, mulher ligada à natureza —o plano de abertura a toma dormindo na raiz de uma árvore enorme—, de talentos médicos tão sólidos quanto sua ligação com a natureza, sente a ausência do marido como um abandono e, essa é a verdade, e talvez não compreenda sua carreira. Que vai bem, diga-se, tanto que ele pode comprar para Agnes e os três filhos a casa mais suntuosa de Stratford.

Agnes vê tudo isso com reservas. Esse marido que não aparece não só lhe soa como traição. É também o que levará o filme ao melodrama. A construção não é original, exceto pelo destaque que dá menos ao papel da mulher do que ao sentimento de abandono, mas a ideia motora é a criação de um filme “de prestígio”.

Ressentimento

A morte de Hamnet levará Agnes a um ressentimento profundo. Assim como o pai de Shakespeare, que achava o filho não mais que um vadio, a mulher passa a imaginar que ele leva uma vida de nababo em Londres, e a pouca atenção que lhe dá é meramente convencional. Ela sofre muito nessa parte —e como Jessie Buckley é ótima atriz, sua candidatura ao Oscar está lançada.

Boa parte do filme é convencional. Depois de um início em que a simbiose de Agnes com a natureza é enfatizada, essa parte de sua vida se reduz um tanto depois do casamento, feito de certo equilíbrio entre a família e a natureza.

Um aspecto meio fraco do filme —a jovem Agnes, personagem um tanto maldita, vista como bruxa por parte da comunidade, garota que se casa grávida e tal, torna-se uma mãe exemplar e todas essas tensões desaparecem.

As coisas seguem assim, sem grandes lances, e o filme avança para se tornar até desinteressante. Mas Shakespeare ressurge para salvar a situação, como sempre. Sua angústia com a profissão e a vida o projeta no célebre “ser ou não ser”, remetendo, no caso, a tudo que um homem deve renunciar para poder seguir seu caminho. 

Chloé Zhao representa peça teatral do século 17

Cineasta (à esquerda) orienta atores no set de filmagem

Quando “Hamlet” estreia em Londres, temos o grande momento de Chloé Zhao. A representação de uma peça do século 17, buscando reencontrar o que seria uma sessão de teatro na época, seu aspecto popular, o que haveria de próprio da época na representação, tudo isso constitui o principal momento do filme, em que todas as peças se encaixam —a encenação, a cenografia, os figurinos.

Um dos motivos do encaixe, é claro, é o nome da peça, que, com uma letra de diferença, é o mesmo de Hamnet, o filho de Shakespeare. O filho que morre enquanto ele está ausente.

Não importa que com isso fiquem em segundo plano os mil e um motivos de inspiração que desde sempre rondam o “Hamlet”. O importante, no caso, é colocar em relevo o Shakespeare homem de família, que embora distante manda dinheiro para Agnes e tudo mais, sem deixar de lado os sacrifícios a que a vida obriga os humanos —entre eles o de estarem longe dos seus para ganhar a vida, o que vale para tanto para um gênio como Shakespeare quanto para qualquer mortal que labuta na escala 6×1 ou mesmo na 7×0.

Essa identidade com o homem contemporâneo explica o pacotinho de lenços distribuído pela assessoria do filme durante a sessão para jornalistas, com a justificativa de que “é para poder chorar à vontade”.

“Hamnet”, então, faz chorar ao mesmo tempo em que transfere para si o prestígio de Shakespeare. E Shakespeare é uma garantia —já deu o Oscar a “Shakespeare Apaixonado”, para não ir longe. Como a atriz do filme é muito boa e Paul Mescal não destoa, o círculo dos grandes prêmios nos Estados Unidos se fecha. E Chloé Zhao, que ganhou seu primeiro Oscar com “Nomadland”, há cinco anos, pode muito bem emplacar outro. Mas os limites deste filme são tão evidentes quanto a força de seu apelo.

Foto: Agata Grzybowska


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