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João Caetano lança disco “Mil Voltas” no Teatro Goiânia

Redação Online

Publicado em 27 de outubro de 2025 às 20:15 | Atualizado há 7 meses

Fotografia de Leo Aversa
músico se destacou em trilhas de novelas, como “Pantanal” e “Salvador da Pátria” - Foto: Leo Aversa
Fotografia de Leo Aversa músico se destacou em trilhas de novelas, como “Pantanal” e “Salvador da Pátria” - Foto: Leo Aversa

Marcus Vinícius Beck

João Caetano, o compositor que faz o samba sorrir, se reencontra nesta semana com o público goianiense. Grandiosa expressão da música produzida em Goiás, o artista leva na quinta, 30, e na sexta, 31, a poesia sertaneja do disco “Mil Voltas” para o Teatro Goiânia.

Será uma noite de celebração — com início às 20h. Afinal, esse trovador de raiz goiana completa meio século de carreira. É certo que lembrará das cartas antigas e, principalmente, rememorará a velha casa da ponte. Vem-lhe à cabeça versos vilaboenses de Cora Coralina.

Na capital, um dream team o acompanha. São músicos renomados, estimados, alguns dos quais inclusive integram (ou já integraram) formações das bandas de Chico, Bethânia e Djavan. A direção musical e os arranjos têm assinatura do maestro Luiz Cláudio Ramos.

Completam a escalação João Castilho (arranjos e violões), Itamar Assiere (piano, teclado e acordeão), Rômulo Gomes (baixo elétrico e acústico), Marcelo Martins (sax e flauta) e Jurim Moreira (bateria e percussão). Sem firulas, objetivos, todos jogam aqui para o time.

Compositor goiano evoca cheiros, sons e construções pretéritas em novo repertório – Foto: Leo Aversa

Além do retorno de João Caetano a Goiânia após quatro anos, as duas datas embevecem ouvidos sensíveis. A voz trovejante do artista, uma espécie de céu no gogó, junta-se ao canto pontudo de Bia Tavares — do tipo que intensifica crepitações na gangorra da memória.

O dueto, não à toa, chama-se “Carrossel”: “Coração de criança/ Brinca, nunca se cansa/ Sobe, gira e desce.” Essa canção, com seu arranjo de cordas gracioso, soa convidativa como o bolo madeleine engolfado em chá, tal e qual o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Se o escritor francês Marcel Proust detalha a nostalgia infantil em parte considerável de seu romance, Caetano e o historiador Nasr Chaul, coautor de “Carrossel”, reforçam memórias pretéritas: “Na verdade a vida/ É um conto de fadas/ Onde a gente aprende a se encantar.”

Afora Bia, o show “Mil Voltas” conta com participação especial de Ricardo Leão. Ele se destaca na música popular brasileira pela habilidade com que toca piano, produz, arranja e compõe. Nos palcos do Rio e de São Paulo, é possível vê-lo ao lado de criadores notáveis.

Curvas da vida

Para João Caetano, a música se fez presente em sua vida, nas curvas por que passou e nas estradas em que andou. Daí “Mil Voltas”, álbum disponível no streaming, ter nascido entre memórias e viagens. É um trabalho que mistura o lirismo da saudade às cores da epifania.

Ademais, fotografa em palavras e melodias o menino de Kichute verde, os becos da Cidade de Goiás e as cores do sertão, evocando a literatura do escritor mineiro João Guimarães Rosa. No livro “Grande Sertão: Veredas”, Rosa decreta que o sertão está “dentro da gente”.

Por isso, saboreia os aromas da beleza — “hoje vai ter festa”, canta João Caetano na faixa “Cores do Sertão”, parceria com Juraildes da Cruz. “Tem a dama-da-noite no caminho da roça”, vocaliza. “A quadrilha é nossa, é nossa a tradição/ A festa continua até o sol raiar.”

Gravado entre 2023 e 2025, nos estúdios Meier, Lontra e Up Music, “Mil Voltas” arquiteta os mais belos sons cerratenses. Em “Minha Aldeia”, de João Caetano e Carlos Brandão, o eu poético se diz índio do sertão, dá as mãos para outro mundo e, com isso, se acha na música.

João Caetano cria disco com o qual mostra sempre haver na vida um ponto de retorno – Foto: Leo Aversa

No encarte, o arquiteto Miguel Pinto Guimarães analisa o disco: “Tem o poder de nos transportar a outros tempos, passados ou futuros, de nos fazer viajar para outras paragens, reais ou imaginárias, com a capacidade singular de atingir a todos os sentidos.”

Fala-se, isso sim, de palavra, memória e som. O violeiro Almir Sater, por exemplo, faz o tempo passar como rio, para evocá-lo na canção “O Tal 1”, parceria com David Izacc. Assim, sente-se o cravo, a tradição junina, o céu de Van Gogh, a luz de Renoir e a poesia de Cora.

Segundo o fotógrafo Leo Aversa, as músicas são como imagens em movimento, espelhando serestas, cânticos das igrejas, disciplina do coral do Colégio Sant´Anna e, sobretudo, o compositor Tavinho Daher, parceiro de João Caetano. “É um álbum que mostra que sempre existe um ponto de retorno — aquele instante em que a música dá sentido à vida.”


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