‘Ladrões de Bicicleta’ narra tragédia do homem comum no Sesc Centro
Redação Online
Publicado em 6 de novembro de 2025 às 21:51 | Atualizado há 9 meses
Longa se tornou clássico do movimento neorrealista nos anos 1940 - Foto: Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Tragédia do homem comum, o filme “Ladrões de Bicicleta” (1948) ganha sessão especial no Sesc Centro, hoje, às 18h30. O clássico neorrealista integra a programação do 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, que alimenta a cinefilia da capital desde a última terça-feira, 4.
Trata-se de obra influente dirigida por Vittorio De Sica (1901-1974). Nas últimas sete ou oito décadas, sensibilizou espectadores e instigou cineastas mundo afora — com ecos que se fizeram ressoar ao sul do mundo durante os anos 1960, sobretudo entre os cinemanovistas.
Em 93 minutos, De Sica cria uma obra-prima da simplicidade. O proletário Antonio Ricci, papel de Lamberto Maggiorani, subsiste numa Itália destroçada no pós-guerra. Consegue um emprego na prefeitura como colocador de cartazes, mas a bicicleta é pré-requisito.
No primeiro dia, roubam-lhe o instrumento laboral. Eis a epopeia: passa o domingo com o filho (Enzo Staiola) à procura da bike. A esposa Maria, interpretada por Lianella Carell, havia empenhado os melhores lençóis de casa para que o marido tivesse sua condução.

Os protagonistas, sem mistério, são o pai e o filho. Mas Maria, essa heroína da classe trabalhadora, executa um papel crucial: é ela que acha um jeito de resgatar a bicicleta roubada, é ela que apoia o esposo, é ela que se sabe presa à desigualdade social.
Aqui está Ricci: andando. Fita a destruição, a pobreza, a angústia. Sabe — como não saberia? — que a bicicleta é tudo para sua família. Nessa jornada, tudo contribui para a construção de um drama pessoal e um ensaio angustiante sobre a sociedade italiana do pós-guerra.
Como disse o crítico francês André Bazin (1918-1958), a maior conquista de De Sica é sua capacidade de encontrar a “dialética cinematográfica” que supere a contradição entre ação espetacular e evento. Por isso, notou Bazin, “Ladrões de Bicicleta” inaugura o cinema puro.
A candura, no entanto, limita-se à superfície. Ultrapassado esse empecilho cinematográfico, entende-se que o longa-metragem é construído e pensado dentro dos moldes neorrealistas: filmagem nas ruas, atores desconhecidos (ou melhor, não-atores), naturalismo da encenação.
Até 1948, quando filmou “Ladrões de Bicicleta”, Maggiorani pertencia ao operariado em Breda, no norte da Itália. Staiola, por sua vez, foi descoberto por De Sica enquanto olhava para o set. Já Carell, jornalista, tentou entrevistar o cineasta e acabou virando atriz.

Para De Sica, a literatura descobriu há muito tempo a dimensão moderna que destaca “coisas ínfimas, estados de espírito considerados banais”. “O cinema tem a câmera como o meio mais adequado para captá-las. Sua sensibilidade é dessa natureza”, explicava.
Quando crítico cinematográfico, o escritor Italo Calvino, simpático ao Partido Comunista Italiano (PCI) até 1957, pregava a favor do neorrealismo contra o artificialismo das produções hollywoodianas. Escrevia no jornal L’Unità, mas evitava digressões estéticas.
Defendeu, em dada ocasião, “um mundo que precede a consciência, bruto, aceito em sua totalidade, sem inventário, ora com a exaltação de um violento enlevo afetivo, ora com a passividade de quem nada mais pode fazer a não ser registrar objetivamente”.
Segundo críticos, o neorrealismo efetua uma leitura marxista do processo histórico. Os primeiros livros inseridos no movimento, não à toa, teciam prosas em tom denuncista sobre a burguesia que regozijava-se no fascismo — como “Os Indiferentes”, de Alberto Moravia.
Na perspectiva fílmica, olhando para a luta de classes e fotografando a desolação deixada por Mussolini, De Sica descortina a condição socioeconômica no pós-guerra. A tragédia de Antonio Ricci dura três dias — sexta, sábado e domingo. Roma está destruída, devastada.

De Sica filma um refeitório onde são distribuídas refeições àqueles que frequentavam a missa. A Igreja Católica o acusou de anticlericalismo. No mês de abril, em 1948, os socialistas da Frente Popular sofreram nas urnas uma estrepitosa derrota para os democratas-cristãos.
À esquerda, os críticos aplaudiram a reflexão antifascista em “Ladrões de Bicicleta”. Ainda assim, segundo Chiara Ugolini, do jornal “La Repubblica”, escutou-se um coro ideológico puxado pela turma ortodoxa, que trazia suas ideias e, com essa antítese, fazia pensar.
Roteirista e neorrealista, Sergio Amidei foi um dos descontentes: “Não achei certo, naquele momento, que um camarada, um comunista, um operário que mora em uma favela e cuja bicicleta foi roubada, não fosse à sede do partido e eles não lhe arranjassem uma bicicleta.”
Aqui está Ricci: matutando. A classe operária, se desempregada, chafurda na miséria do capitalismo. Aqui está o heroi: chorando. Pega-se desesperado. Tenta roubar a bicicleta que lhe foi surrupiada. Segue sem saber — como saberia? — o que será de sua esposa e filho.
Importante: a noite desta sexta (7/11) terá ainda exibição de “As Provadoras de Hitler” (veja trailer abaixo). Baseado no romance de Rosella Postorino, o longa mostra mulheres obrigadas a provar a comida do nazista Adolf Hitler para detectar veneno. Foi elogiado pela crítica.