Letrux sintetiza obra em álbum no disco ‘SadSexySillySongs’
Redação
Publicado em 8 de abril de 2026 às 19:58 | Atualizado há 2 meses
Compositora afirma que busca equilíbrio na vida e na arte - Foto: Bruna Latini/Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Letrux solta a voz. “Outro dia você colocou João Gilberto no som. Eu não gostei, não. Não. Olha que eu amo João. Mas eu sei que João te faz lembrar dela”, entoa a compositora carioca, entre dedilhados de violão e frases de guitarra. “Ciúme me dá frio. Ciúme me dá frio.”
“Ciúme Me Dá Frio” beija o eco. A música evoca um tripé conceitual — triste, sexy e bobo. Finda-se a festa, o climão, o porre. E chega-se à ressaca — essa dengue existencial, para citar o cronista Xico Sá. As memórias se fragmentam, se enevoam. Você está imaculado, ético.
Tal como David Bowie, a artista é camaleônica. Possui uma caneta sensual e desamorosa, ouça bem, dona de mentiras sinceras que, do nada, se tornam a trilha sonora de loucuras sóbrias. A bebida transborda no cálice pré-gozo. Bom, é tudo luz e sonho — ou pesadelo.
O amor, tão constante quanto a melancolia, fascina Letrux. Imutável e estranho, leva a este destino: amar e falar sobre essa fogueira das sensações, escrever sobre esse frio na espinha. Simples como a sístole e a diástole de um coração que bate apaixonado na manhã seguinte.
Para a compositora carioca, há milênios escrevemos a respeito disso. “No entanto, muitas transformações ocorreram nesses milênios, e isso me intriga muito. A sensação é parecida com a de William Shakespeare, mas há novas dinâmicas, novas formações”, disse ao DM.
É, Letrux, seguimos ofegantes, suados. E, amando, sorrimos e beijamos, línguas se acham e roçam os desejos antigos. Uma se entrelaça na outra, antes de o sol dar bom dia entre a cortina e a janela. Foi deliciosa a transa, o farfalhar dos prazeres, o clímax. Resta o abraço.
Aí despertamos: meio-dia, uma da tarde. Botamos pra tocar “SadSexySillySongs”, que chega às plataformas. A voz ressoa sussurrante: “Guitarra maneira, baixo incrível, batera bem foda. Mas tô aqui pela letra. Eu tô aqui com a letra.” E canta em inglês: “If we stop talking.”
Letrux se reinventa disco a disco. Começou na música com o duo Letruce e, depois de três discos, ressurgiu noturna “Em Noites de Climão”, de 2017. Na música “Ninguém Perguntou por Você”, diz ter partilhado tudo com o ex — é o bom do amor, essa tal de intimidade.
Na vitrola das lembranças, Letrux recita: “Já tive tudo com você. Dois filhos com você. Na minha cabeça com você. Tudo com você. Conta conjunta com você. Suruba com você.” Deu um passo além no disco “Aos Pratos”, tal qual as imagens líricas da canção “Fora da Foda”.
“Cê tá de fora da foda, tesão por tabela. Ah, o que é com ela. Não sou da galera e nem quero ser”, entoa, no disco de 2020. Três anos depois, perguntava-se em “Louva a Deusa”, de “Letrux como Mulher Girafa”: “Como se diz pra alguém: eu não me apaixonei como você?”
Enquanto gravava “SadSexySillySongs”, Letrux afirmou ao produtor Thiago Rebello que o novo álbum sintetizaria sua discografia solo. Ela conta que “Climão” era sexy, “Aos Prantos” triste e “Girafa” silly. Regressaria a tais trabalhos, pois os misturaria a certos resíduos.
Na última semana, a cantora disse perceber, na obra recém-lançada, um resumo de sua personalidade. “Na minha psicanálise, eu busco equilíbrio. Na vida também. Não quero ser só muito triste, nem só muito sexy, nem só muito boba”, declarou à revista “Noize”.
Nas canções, artista confere protagonismo ao violão

Desta vez, Letrux traz o violão para o novo álbum. Os acordes, em notas menores, enfatizam o lirismo da canção. Ela sinaliza para o Nirvana: “It’s like Kurt Cobain sings. I miss the comfort in being sad.” Cobain foi uma pancada no ouvido da cantora quando jovem.
“Essa cidade é complicada”, queixa-se, na música homônima. Sim, Letrux, complicado mesmo. Foi ali aquele beijo, toda vez que você passa, lembra que foi ali aquele beijo. Na sequência, vêm “Ornamentais”, “Caligrafia Tarada”, “I Wrote This When I Was 22”.
Segundo a artista, a arte não pode ser utilitária. “Eu sei que alguns discos meus tiveram mais sucesso do que outros, mas eu não tô aqui pra repetir nada, nem conseguiria [risos] nem quero”, disse à “Noize”. “Não é o meu desejo. Sou uma pessoa obediente ao meu desejo.”
Sem museus de novidades, entendeu? Letrux acena para Kim Gordon, a voz do Sonic Youth. Até em inglês, veja você, a carioca canta. Há uma explicação: às vezes o verso vem no idioma de Shakespeare, como uma intuição, uma língua interna que a guia, sabe? Tem de obedecer.
Baile da paixão
Nesse sentido, “SadSexySillySongs” é um baile de paixão. “Parabéns pra você”, canta. Após “By My Side, In My House”, Letrux prossegue: “Vai ser sempre uma data querida. Só não sei quantos anos de vida. Quero, sim, muitas felicidades. Não aguento tantas saudades.”
Sim, caríssima Letrux, “We Never Know”: “Over My Dead Body.” Ela anota uma ou outra coisa que pinta, mas sem organizar nada. “Caos puro”, revelou à reportagem. Então, bate um senso mais “cósmico do que caótico”. “É hora de organizar.” Reúne escritos, melodias.
“Mas não dou mole pro acaso, sei que a vida não é apenas inspiração. E sim a famosa ‘transpiração’”, confessou a este repórter, em 2024, quando se apresentou no Goiânia Noise. “Sou fascinada por linguagens, línguas, traduções, expressões, gírias.” Que sorte a nossa.