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Livro retrata impacto da hidrelétrica em comunidades desalojadas no norte de Goiás

Léo Carvalho

Publicado em 13 de março de 2026 às 15:27 | Atualizado há 4 meses

“Terras Submersas”, publicado pela editora Mondru, reúne ficção e relatos inspirados em histórias de famílias atingidas pela construção da hidrelétrica no norte goiano | Foto: Divulgação
“Terras Submersas”, publicado pela editora Mondru, reúne ficção e relatos inspirados em histórias de famílias atingidas pela construção da hidrelétrica no norte goiano | Foto: Divulgação

O romance “Terras Submersas”, livro de estreia do escritor mineiro Lincoln de Barros, aborda o deslocamento de comunidades provocado pela construção da Usina Hidrelétrica de Cana Brava, localizada entre os municípios de Minaçu e Cavalcante, no norte de Goiás. A obra, publicada pela editora Mondru e com 168 páginas, utiliza elementos de ficção para reconstruir histórias relacionadas ao processo de desapropriação e reassentamento de moradores da região.

A narrativa acompanha episódios inspirados em relatos de famílias que perderam casas, terras e atividades econômicas com a formação do reservatório da usina. O enredo apresenta personagens ligados ao processo de auditoria social conduzido após mobilizações do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que denunciava impactos sociais decorrentes da obra.

“Muitos são os que lucram com o dito progresso. Maior ainda é o número dos desamparados e sem chão, dos desalojados de suas terras e de suas atividades. Entre a implacável roda da “máquina do mundo” e o desalento angustiado dos injustiçados estão os que apartam, mediam e tentam minimizar os efeitos perversos da tragédia. Mais do que livre denunciante com estofo de experiência, o autor se atira na literatura para contar, com polimento e maestria, como a justiça apenas se insinua para aqueles que não são capazes de comprovar a própria existência.”

 Trecho do texto de orelha do livro, assinado pelo escritor e artista plástico João Novais

No livro, a história começa com a ocupação da sede de um banco, em Brasília, durante um protesto do movimento. A mobilização leva à realização de uma auditoria que envia consultores à região da hidrelétrica para apurar denúncias. Durante as visitas, os personagens entram em contato com moradores desalojados e com relatos sobre as mudanças provocadas pela construção da barragem.

Um recorte da obra

Segundo o autor, a obra busca retratar situações vividas por famílias atingidas por grandes empreendimentos. “É a história contada por quem ainda não venceu”, afirma Lincoln de Barros ao comentar o ponto de vista adotado na narrativa.

O romance também faz referência a episódios recentes envolvendo grandes empreendimentos no país, como os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, citados pelo autor como exemplos de impactos associados à exploração de recursos naturais.

Experiência profissional inspirou a obra

A trama tem relação direta com a trajetória profissional do autor. Lincoln de Barros integrou a equipe de auditoria social do plano de reassentamento da Usina Hidrelétrica de Cana Brava. A experiência ocorreu em projetos vinculados ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), instituição que financiou parte das iniciativas relacionadas ao empreendimento.

De acordo com o escritor, a elaboração do romance foi baseada em registros acumulados durante esse período, como depoimentos, fotografias e documentos produzidos durante o trabalho de campo. Posteriormente, o material foi complementado com pesquisa sobre os acontecimentos ligados à implantação da usina.

“A escrita foi desenvolvida a partir da documentação que guardei: registros de depoimentos, fotos e arquivos, além de pesquisa posterior sobre os acontecimentos”, revela Lincoln de Barros em sua obra | Foto: Divulgação

Personagens do livro representam moradores que tiveram propriedades alagadas pela formação do reservatório. Em alguns capítulos, a narrativa apresenta relatos de trabalhadores rurais e pequenos proprietários que descrevem o processo de saída das áreas inundadas.

Trajetória do autor

Lincoln de Barros nasceu em Belo Horizonte e lançou o primeiro romance aos 78 anos. Antes da estreia na literatura, construiu carreira ligada à administração pública e à área de tecnologia da informação e comunicação.

Formado em Filosofia em 1978, também possui especialização em Análise de Sistemas e mestrado em Administração Pública. Ao longo da carreira, atuou em projetos socioeconômicos e consultorias voltadas à gestão pública.

Segundo o autor, a dedicação à escrita literária ocorreu de forma mais intensa a partir de 2020, durante o período de isolamento social provocado pela pandemia de covid-19. Até então, seus textos estavam concentrados em produções técnicas e publicações acadêmicas ligadas à administração pública.


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