Luís Araujo Pereira lança seu novo livro de poesia, ‘Raso Quase Fundo’, no Setor Sul
Redação Online
Publicado em 25 de novembro de 2025 às 20:54 | Atualizado há 7 meses
Autor afirma que título de obra tensiona contradições e especificidades
Marcus Vinícius Beck
Sem delongas, o poeta Luís Araujo Pereira avisa que a maior parte do que leremos — será mesmo? — é rasa. “Porque está escrito”, sentencia Araujo Pereira no início de “Raso Quase Fundo”, livro que lança nesta quinta (27/11), a partir das 19h, na Old Monkey Cervejaria, no Setor Sul.
“Não sei/ o que dizer/ sobre esse/ descompasso”, versifica o autor, um dos nomes mais conhecidos da poesia em Goiás. “Logos — o pêndulo/ que me desnorteia/ no seu pulsar.”
A nova obra chega às melhores casas do ramo pela Editora Cavalo Azul, de São Paulo, um selo independente afeiçoado à poesia, à ficção e ao ensaio crítico. O livro reúne 80 poemas criados entre 2013 e 2019, cuja linguagem foi maturada num labor cuidadoso.
É o caso do poema “Tom”. “Na hora/ em que ouço Jobim/ o Brasil se move/ com elegância”, frasesia o eu poético. “É por ouvi-lo/ tão convulso de harmonias/ que o santo baixa.”
Há todo um ritual. Ligo a vitrola imaginária, agulha no ponto: Tom Jobim desliza seus dedos pelo piano a formar acordes samba-jazzísticos — o Brasil se revela, a cidade dorme lá fora, as águas se movem, a língua portuguesa sustenta a canção. Volto-me à última estrofe.
“Jobim é portanto/ uma flauta um piano/ um altiplano sem mar/ — música que todos/ os urubus plainam/ no Cerrado”, diz a voz do poema, enquanto o maestro soberano assobia timbres ecológicos em seu piano. Elis Regina informa: está “Chovendo na Roseira”.

Matutemos
Matutando. A cidade repousa além da janela, mas evoco seus cheiros, perfumes e desejos. Eis a hierarquia da realidade: primeiro o quarto, em seguida a sala, a música e os livros. Aí vêm o Estado e o país. São as manchetes. Prefiro a poesia aos fatos sociais — ao menos agora.
Nos próximos versos, acontece o onírico da noite — o celular, luminoso, tilinta. O eu poético eriça-se: “Imerso no travesseiro/ entro nas ondas e me aqueço/ com a lã da tua voz.”
“[Depois dormimos/ e somos felizes pois sonhamos/ e dormimos nós dois irmanados/ — e sonhamos porque dormimos —/ como se fôssemos enovelados/ pelas linhas imaginárias da noite]”, sensualiza, ao meditar sobre o amor numa situação cotidiana e apaixonada.
“Raso Quase Fundo” reflete também acerca do amor, da morte, da natureza, da paisagem urbana, do ofício da escrita, além das sensações amorosas, dos desejos noturnos e da música popular brasileira. São assuntos que adquirem um inequívoco traço existencial e filosófico.

Segundo Araujo Pereira, o novo livro é anterior a “Pegadas de Gato”, lançado no fim do ano passado e escrito durante a pandemia de covid-19. No material de divulgação, o autor declara ter guardado a obra porque esperava o momento oportuno para publicá-la.
Araujo Pereira explica que o título tensiona as contradições e especificidades das palavras raso/ fundo. Para chancelar sua tese, o poeta recorre ao bardo português Vasco Graça Moura (1942-2014), que era capaz de criar sete sonetos com muito amor e outros com certa ironia.
Esse acento humorístico — eficiente em nos tirar aquele riso de canto de boca — revela-se na dicção poética de Araujo Pereira. “Escrever é um modo verbal de estar no mundo”, afirma. “Raso Quase Fundo” é ótimo porque nos faz rir — um riso existencialista, digamos.
“Dessa perspectiva, o poeta é aquele artesão que afina a sua lira, lendo, analisando, sentindo e imaginando as coisas materiais e simbólicas, os seres e as paisagens, que o constituem em um determinado lugar”. “Raso Quase Fundo” é reflexivo, mas também ácido e lírico.
Nascido em Pirapora (MG) em 1946, Araujo Pereira mora desde a infância na capital goiana, onde se licenciou em Letras Vernáculas pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Integrou ainda o Grupo de Escritores Novos (GEN), fundado em 1963. Além de “Raso Quase Fundo”, é autor dos livros “Ofício Fixo” (1968) e “Poésie Pour Dire Moins” (2013). Leiamos esses descompassos.
Fotos: Rosângela Chaves