Marcos Valle homenageia Henri Salvador em álbum com artistas brasileiros e franceses
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 12 de julho de 2026 às 16:56 | Atualizado há 2 horas
Marcos Valle reúne diferentes gerações da música em projeto dedicado ao legado de Henri Salvador | Foto: Marcos Valle/Divulgação
As carreiras dos músicos Henri Salvador e Marcos Valle atravessam décadas como raros exemplos de virtuosismo com popularidade. Salvador (1917-2008), nascido na Guiana, transitou por diferentes gêneros musicais e chegou a ser o cantor e compositor mais popular na França. Valle, de 1943, surgiu na efervescência da bossa nova para se tornar um dos músicos brasileiros mais reconhecidos no planeta.
Agora, suas trajetórias se cruzam em um disco produzido por Valle. “Henri Salvador do Brasil” reúne 11 músicas do francês nas vozes de artistas de várias gerações, incluindo a inédita “Je Parie”, cantada no álbum por Paula Morelenbaum em um dueto póstumo com os vocais do próprio Salvador.
Álbum busca revelar diferentes facetas de Henri Salvador
Marcos Valle fez escolhas nada óbvias para o repertório do projeto. Segundo o músico, embora Henri Salvador seja conhecido pela conexão com a bossa nova, sua obra vai muito além dessa associação.
“Ele é conhecido pela conexão com a bossa nova. Mas isso não basta”, afirma Valle. “Eu quero ampliar a percepção das pessoas. Existe um Henri com muitas outras coisas que precisam ser mais conhecidas. Quis mostrar toda a versatilidade dele.”
Essa intenção fica evidente na decisão de não incluir “Dans Mon Île”, a canção mais popular de Salvador entre os brasileiros, gravada por Caetano Veloso. A música pode ter influenciado a criação da bossa nova, já que Tom Jobim teria percebido nela uma maneira agradável de desacelerar o samba.
Projeto nasceu de iniciativa pessoal e ganhou força em 2023
O álbum chega agora em lançamento da Universal francesa, mas inicialmente era um projeto pessoal de Emmanuel de Ryckel, um belga apaixonado pelo Rio de Janeiro e fascinado por Henri Salvador.
Ele apresentou a ideia há cinco anos, na casa do amigo Marcos Valle. Em 2023, o projeto avançou quando perguntou ao músico se ele gravaria “Rose” com Joyce Moreno.
“Claro que eu aceitei. Nesse momento da minha vida, quero fazer apenas coisas que eu amo. E eu amo Henri Salvador”, afirmou Valle.
A partir desse dueto, que também integra o álbum, o projeto ganhou impulso.
Escolha dos intérpretes foi guiada pela ligação com a obra
Diante do repertório de Henri Salvador, Marcos Valle fez suas escolhas com base na intuição. Ele precisava pensar em quais artistas poderiam interpretar cada música, mas também considerou a relação deles com o homenageado.
“Olha só, todo mundo que eu convidei me disse adorar Henri Salvador. Todo mundo!”, contou.
Uma das preocupações do produtor era definir até onde poderia modificar as canções originais. Valle queria colocar sua identidade sonora, mas sem alterar completamente a essência das composições.
“Eu queria mexer, mas sem mudar radicalmente a música do Henri. Não gostaria que fizessem isso comigo”, explicou.
Durante o processo, ele manteve contato com Catherine, viúva de Henri Salvador, mostrando as músicas e levando em consideração suas sugestões.
Novas interpretações misturam diferentes gerações
Valle se sentiu motivado a ousar nos arranjos e cita como exemplo “Jardim”, versão de “Jardin d’Hiver”, gravada por Simone, que ganhou uma nova atmosfera.
“Quando escolhia alguém, como a Simone, eu já não pensava no arranjo original do Henri. Pensava num elo entre Simone e Henri, com Marcos Valle no meio”, afirmou.
O projeto também abriu espaço para uma geração mais nova de artistas, como Zé Ibarra, Dora Morelenbaum, Rogê e Silva.
Segundo Valle, ao ouvir as músicas de Salvador, encontrou elementos que iam além da bossa nova, com referências à Bahia e forte presença de percussão. A partir dessa percepção, surgiu a ideia de convidar Seu Jorge para interpretar uma das faixas.
Álbum reúne influências brasileiras e internacionais
Marcos Valle chegou a trabalhar em 16 músicas, mas reduziu o repertório para as 11 faixas que entraram no álbum. O músico não descarta utilizar as canções restantes em um possível segundo volume.
“Les Voleurs d’Eau”, com Seu Jorge, e “Le Wagon”, com Zé Ibarra, apresentam uma sonoridade conectada ao pop atual. Já a gravação de Simone ganhou elementos latinos, jazzísticos e referências ao grupo Steely Dan.
Valle explica que buscou criar arranjos diferentes para cada artista, evitando uma sonoridade repetitiva.
Entre os desafios esteve a faixa “À Cannes cet Été”, gravada por Zélia Duncan com o ator e cantor francês Eddy Mitchell.
“Ele entrou com algo cinematográfico, meio Humphrey Bogart, Tommy Dorsey. E ela chega com o violão e muda a música. Depois eu retomo com os dois. Ficou uma espécie de trilha sonora”, explicou Valle.
Participações brasileiras e francesas completam homenagem
Além dos brasileiros, o álbum conta com artistas franceses convidados. Flore Benguigui divide “Chambre avec Vue” com Moreno Veloso, enquanto o rapper Féfé participa de “Maladie d’Amour / Mal de Desamor” ao lado de Rogê.
Também fazem parte do projeto Silva, com o Quarteto do Rio, e Bebel Gilberto.
Dueto póstumo com Henri Salvador é destaque do disco
Um dos momentos mais marcantes do álbum é o encontro entre Paula Morelenbaum e Henri Salvador em “Je Parie”.
Valle conta que Salvador, que chegou a fazer um disco no Brasil produzido por Jaques Morelenbaum, marido de Paula, havia entregue à cantora uma fita cassete com ele cantando a música.
Durante a gravação, Valle perguntou se ela gostaria de incluir a voz original do francês na nova versão.
“No estúdio, perguntei a ela se gostaria de colocar a voz Henri na gravação. E ficou muito bonito”, contou.
Marcos Valle quer levar projeto aos palcos
Transformar o álbum em um espetáculo ao vivo é um desejo de Marcos Valle. O músico reconhece que seria difícil reunir todos os participantes em um único show, mas considera realizar apresentações por etapas.
A ideia é reunir dois ou três artistas em determinadas datas e alternar os intérpretes em outros eventos. O projeto deve ser levado ao Brasil e ao exterior, possivelmente no próximo ano. (Thales de Menezes/FOLHAPRESS)