Matrículas Abertas, Vagas Limitadas lançado em DVD na Europa
Redação DM
Publicado em 7 de maio de 2018 às 22:48 | Atualizado há 8 anos
O filme Matrículas Abertas, Vagas Limitadas, de W. Tede Silva, está sendo lançado em DVD através da Potemkine, uma das principais distribuidoras europeias, e templo sagrado de cinéfilos em Paris. Constantemente exibido em cinemas e associações francesas, as peripécias dos personagens são acompanhadas de gargalhadas e fazem a plateia dançar ao final, no ritmo da música eletro que encerra a história. O DVD pode ser encontrado em outros sites, como a Librairie Portugaise et Brésilienne, e também no Brasil, através do Mercado Livre.
A cantora e ex-modelo Carla Bruni, então embaixadora do Fundo da ONU de Luta contra a Aids, saudou o realizador com “felicitações pela iniciativa, plena de fraternidade, generosidade e engajamento solidário”. O renomado crítico, cineasta e escritor francês Pierre Kalfon disse que “assisti com muito interesse, é uma lição de tolerância. O diretor praticamente inventa uma nova escola”.
Existem os formatos ficção, documentário, docu-ficção, entre outros. Existiram escolas como Nouvelle Vague francesa, neo-realismo italiano, cinema psicológico sueco, cinema novo brasileiro. Nos dois trabalhos realizados por W. Tede Silva, Tudo São Referências, Tudo São Memórias e Matrículas Abertas, Vagas Limitadas, ele usa ficção, fundo documentário e poesia, através das músicas, alquimia que pode sim ser codificada como uma nova escola. Nessa fórmula reside a originalidade do que ele realiza e que não tem muito paralelo com outros cineastas. Pode se dizer que o resultado é um fruto da vivência do jornalista, da sensibilidade do artista e do amante do cinema como formato final para uma síntese dessas influências.
Nesta entrevista, o diretor fala sobre a atualidade do filme, que movimentou personalidades e associações a partir da cidade de SP e que que se transformou em uma epopeia através de outros estados e países, tratando de tema ainda delicado para muitas culturas e pessoas, a diversidade sexual.
Josane Peer – Qual a atualidade do filme hoje, depois de alguns anos de seu lançamento no Museu Nacional da República, em Brasília?
- Tede Silva – Continua cada vez mais atual por retratar a epopeia de luta das minorias por dignidade, mas também por denunciar o preconceito e obscurantismo ainda reinantes em muitas mentalidades e regiões, apesar da aprovação de leis mais avançadas em diversos países. Realizamos uma história que trata da diversidade, de um ponto de vista heterossexual, justamente para falar com um público ainda não informado ou preconceituoso, daí o seu viéis pedagógico, e assim colaborar em uma evolução de comportamento. Mas mesmo no Brasil ou na Europa, como em todo o mundo, sentimos que não existem evoluções permanentes, adquiridas e estáveis. A luta é permanente e não tem fim.
Josane Peer – Que dificuldades voce enfrentou para fazer o filme.
- Tede Silva – Foi uma produção independente que apenas existe pela força do roteiro e do apoio espontâneo recebido de todos envolvidos, mais de uma centena de pessoas. Depois de reproduzido em DVD, o ex-deputado conservador Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e hoje condenado e preso por corrupção, proibiu que ele fosse distribuído aos membros do parlamento, como estava previsto no projeto de lei de incentivo que aprovou o patrocínio para reproduzir o filme neste formado.
Josane Peer – Voce enfrentou também um certo boicote quando o filme foi lançado. Por quê?
- Tede Silva – O Brasil é o único País onde um banqueiro faz um filme sobre Che Guevara e, depois, sobre a contracultura, sem que as pessoas questionem a coerência disto. O banqueiro Walter Sales, através de seu gerente que controla salas de cinema, não permitiu o lançamento de nosso filme em São Paulo, ao contrário do meu primeiro filme, que foi lançado no Espaço Unibanco. Ele tinha acabado de lançar seu filme baseado no livro On the road, de Jack Keroak, onde conseguiu falir duas grandes produtoras, a sua e a francesa MK2, gastando 26 milhões de euros para faturar apenas oito. Era quase uma ofensa o fato de um filme como o nosso (poucos recursos, realizado por filho de operários e com atores humildes de favelas paulistas) ter mais conteúdo, originalidade e força do que o que ele havia feito. Você mesmo, Josane Peer, por exemplo, chegou a receber telefonema do ator Sérgio Mamberti, então secretário do Ministério da Cultura, preocupado em colaborar para a projeção do filme no circuito comercial. Mas o boicote funcionou ao contrário. O filme acabou por ser lançado no Museu Nacional de Brasília, antevendo a sua vocação para a eternidade.
Josane Peer – Como foi a gênese de realização da obra?
- Tede Silva – Eu hospedava dois amigos músicos argentinos quando morava na Frei Caneca, em SP, e recebemos a visita de outro amigo comum, brasileiro de origem chilena. Em determinado momento, um dos hermanos comentou: “Como tem gays nessa cidade.” Eu disse: “Aqui e no mundo inteiro.” “Mas no Brasil parece que eles já são em maioria”, ele retrucou. Eu falei: “Taí, é um bom assunto para escrever um roteiro.” Ao se despedir, o amigo chileno, que inclusive participa do filme, me desafiou: “Mas escreve mesmo, muitos falam e não fazem.” Virou um desafio pessoal, depois encampado por um grupo de músicos e atores, e afinal apoiado por diversas associações que colaboraram como o cineasta Vladimir Modesto, do Cinefavela de Heliópolis; Toninho da Galeria do Rock; jornalista Leão Lobo, na época com programa na TV Bandeirantes; Simone Fontoura, que veio de Brasília a SP para uma participação super especial; a ex-vereadora e militante transexual Camille Cabral do PASST, de Paris, entre outros. O filme conta possivelmente com o maior número de figurantes da história do cinema (o diretor filmou dois anos a maior parada gay do mundo, três milhões de pessoas em SP), e uma trilha sonora com a mesma letra cantada em três estilos diferentes, de acordo com o clima da história: balada, punk e eletro apoteótica.
Josane Peer – Ao tratar da diversidade sexual, o filme tem também essa pluralidade de origem dos atores e colaboradores. Foi intencional?
- Tede Silva – São Paulo e Paris são metrópoles cosmopolitas e, além de argentinos e chilenos que colaboraram no filme e trilha sonora, aos poucos a equipe representou uma comunidade de nações: a alemã Juliane Elting fez o papel de uma lésbica; o chileno Jorge Jarufe fez uma cena em academia de musculação com o Jon Itcaina, um francês de origem basca; um casal ucraniano de origem russa colaborou com parte na trilha sonora. Uma das cenas e a montagem final foram feitas em Paris, onde tivemos uma francesa de origem israelense e um árabe, que colaboraram na música final.
Josane Peer – Como você vê essa boa receptividade na França e em outros países?
- Tede Silva – Em diversas projeções, as risadas são constantes do início ao fim, pois, apesar de tratar de questões graves, é uma comédia, comédia dramática. Recebemos elogios pela atuação e também pela pertinência do tema abordado. Em uma noite, um pai de família, com uma criança nos braços, veio me cumprimentar dizendo que o filme tinha sido muito importante para ele. Outros me parabenizaram pelo trabalho de ator, sou suspeito para considerar onde acertamos mais.
Josane Peer – De onde veio seu interesse pelo cinema?
- Tede Silva – Sou filho da geração do cinema. Não por acaso o século XX foi apelidado de século do cinema. Com certeza meu pai e minha mãe assistiram antes em uma sala escura um filme na noite em que me conceberam. Na minha infância, pai e mãe falavam de nomes como Tony Curtis e Jack Lemmon como se fossem pessoas próximas. Lembro-me que quando criança, em Goiânia, minha mãe me levava a um parque de diversões de amigos dela, junto com meus irmãos. E ao serviço de som do Parque, ela sempre pedia para tocarem Tema de Lara, que anos depois eu viria a descobrir ser o tema de um dos clássicos do cinema, Doutor Jivago. Aos 10 anos ganhei o primeiro prêmio no principal canal de TV, um troféu que guardo até hoje, em um concurso de desenhos. Havia muitos bons participantes. Mas fiz uns 20 desenhos sobre o mesmo personagem. Foi meu primeiro storyboard. A minha adolescência foi passada em salas de cinema e ainda hoje acredito que ainda não criaram um outro formato capaz de superar o cinema como espetáculo e como testemunho de um tempo.
Josane Peer – Voce lançou Sasha, What Is To Be Done? e Oulalie! pela Amazon, obras que têm vocação para se transformar em roteiros. Como nasceram essas histórias?
- TedeSilva– Oulalie! é a história de dois surdos-mudos que conversam com objetos e é uma metáfora sobre dificuldades de comunicação e consumismo. Demorou oito anos para ser escrito. Eu morava em Suresnes, uma cidade próxima a Paris, quando recebi a visita do amigo Nicanor Jacinto, poeta e parceiro de SP, inclusive gravamos a l gumas cenas referentes a essa ideia. Sasha… foi inspirada em viagens a Coimbra (Portugal), e a São Francisco(EUA), é um conto filosófico sobre o fim da guerra fria e a jornada de três personagens portugueses pela Europa desse nosso novo século. Esse escrevi em seis meses.
Josane Peer – Sasha… foi parar nas mãos do diretor Oliver Stone, do ator Tom Hanks, também sócio de uma produtora em Santa Mônica, na Califórnia, e de Raul Peck, outro diretor engajado. Vai nascer um filme daí?
- Tede Silva – Projetos têm diversas fases, e publicidade é a última deles. Enfim, cada um é como uma criança. Eles têm a vocação para a vida, para crescer. Mas dependem também dos ambientes e das influências. Prefiro me concentrar em divulgar aquilo que já foi feito. Além de ser uma história divertida e enriquecedora do ponto de vista do conteúdo, Matrículas Abertas, Vagas Limitadas é também um excelente presente para aquele seu amigo ou parente que ainda tem reticências sobre o respeito à orientação sexual das pessoas, em um tempo onde profetas da intolerância proliferam e usam de forma oportunista todos os espaços para se promover. Você pode comprar no Brasil pelo Mercado Livre, e na Europa nos sites de distribuidoras, como a Potemkin e Librairie Portuguesa et Brésilien.