Moacir Faria ganha exposição no Encontro de Culturas Tradicionais
Redação Online
Publicado em 16 de outubro de 2026 às 20:58 | Atualizado há 1 hora
Mestre da forma e do tom: Moacir de Faria reinventou cotidiano do Cerrado por meio do universo de cores, formas e figuras fantásticas | Foto: Andréia Pires
Marcus Vinícius Beck
Vila de São Jorge (GO) – A tarde está quente na Vila de São Jorge, em Alto Paraíso, a 426 km de Goiânia. Na Rua Bacupari, defronte à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, a cadência da percussão marca o ritmo. É, caríssimo Chico Science, toda fauna-flora grita de amor.
Quem segura o porta-estandarte tem a arte. Só o cantor Chico mesmo para despertar os olhos deste cronista para a cena: três instrumentistas subindo e descendo a via pavimentada com bloquetes de cimento. A música, em baque acelerado e solto, ressoa pela comunidade.
Horas antes, a manhã cochichou na vereda ancestral, fazendo redemoinho e borbulhando. Um ar caloroso subia em ondas, trazendo o cheiro de arte e cultura. Moradores andavam em bicicletas, donos de seus destinos. Cigarros eram fumados debaixo do pé de manga, os tocos recolhidos dali e jogados no lixo. O motorista do caminhão engatou a marcha à ré e parou.
No meio-fio, tempo, tempo, tempo, tempo, estribilha outro tipo de vínculo. O DM havia acabado de ser recebido por José Vidal de Brito, cunhado do artista plástico Moacir Soares de Faria. A reportagem visitou a casa-ateliê de Moacir e, ali, contemplou os traços e as cores tenazes extraídas do giz de cera e do lápis colorido. Bem-vindo ao admirável mundo novo.

“Não tinha comércio [na vila]. Depois da década de 1980, começou a vir um pessoal pra cá”, conta Vidal de Brito, cuidador de Moacir em seus últimos anos de vida. “Como desenhava bem, trouxeram papel pra ele, tinta, essas coisas. Nos anos 1990, ficou conhecido no Brasil.”
Animais, flores, frutas, morros e rios juntam-se a homens e mulheres — mulheres desnudas, sexo à vista, sem esse falso pudor. Conforme o jornalista Henrique Skujis, da revista piauí, Moacir rabiscou pela primeira vez aos sete anos, utilizando o carvão do forno a lenha. Seus pais, escreve Skujis, foram garimpeiros nos tempos da mineração que assolara o Cerrado.
O artista nasceu e cresceu em São Jorge. Ao falar dos pais, emocionava-se e levava as mãos para o peito, mostrando como a saudade o afetava e indicando que, se o assunto persistisse, iria chorar. Vivia, desde a infância, em seu próprio universo. Por isso, deram-no por louco.
Para o escritor Antonin Artaud (1896-1948), uma sociedade adoecida inventou a psiquiatria para se defender das investigações de “alguns iluminados superiores”, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. Artaud explica que os loucos são todos aqueles que se livram da hipocrisia e preferem o isolamento a se converterem em cúmplices de certas porcarias.

Enquanto isso
Enquanto manufatura o marca-páginas de fio de cobre, o artesão Marcos Floresta conta ter conhecido o artista Moacir de Faria nos anos 1980. “Ele ainda desenvolvia a sua linguagem artística. Não tinha essa coisa da cor e estava chegando à forma que o consagrou”, lembra.
Moacir foi artista autodidata e do inconsciente. No começo, pintava nas pedras, troncos e em papelão. A jornalista Ana Ferrareze, coordenadora do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, relatou que os quadros “se espalhavam pendurados e encostados nas paredes” da casa-ateliê. “Foi um homem de mente brilhante”, salientou Ferrareze, em 2015.
“Em caixas expostas e escondidas, que traz vez ou outra para quem tem a sorte de ganhar sua confiança, estão fotos reveladas de obras, que ele mesmo tira, e também teses científicas sobre seu trabalho, que ele apenas admira, já que nunca aprendeu a ler nem escrever”, disse.
Dez anos antes, em 2005, Walter Carvalho se deslocou até a Vila de São Jorge para filmar o documentário “Arte Bruta”, disponível no Prime Video. Na ocasião, o cineasta ficou atraído pelas silhuetas demoníacas nas telas do goiano, um sobrevivente da pobreza durante a vida.
A noite chega à Vila de São Jorge. Mal o sol se afunda — como que caindo nas montanhas —, já é hora da conferência de grilos e cigarras. O 26º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros se acaba neste sábado (17), mas dá tempo de admirar a mostra “Arte Absoluta”, realizada na casa do artista goiano entre 14h e 22h. Moacir encantou-se em 2025.
