Entretenimento

Música não cartesiana

Redação DM

Publicado em 2 de março de 2018 às 23:49 | Atualizado há 1 ano

Planejamento complexo – uma forma de fazer música que se atenta à impossibilidade de pré-determinar aquilo que se esta­belece diante de nós. O novo DVD do maestro Otávio Soares Brandão, Outro Olhar, disponibilizado em plataformas digitais como o Youtu­be, procura responder alguns ques­tionamentos constantes em sua car­reira. Com leituras não-lineares de partituras como o Prelúdio Nº 1 de Bach e O cravo brigou com a rosa, ele apresenta, através do piano, a força da percussão (elemento pou­quíssimo comum na música euro­péia moderna). Em entrevista ao Diário da Manhã, Soares Brandão fala sobre contraposição entre pla­nejamento linear e planejamento complexo na música erudita.

Utilizando peças conhecidas do público, como o Prelúdio Nº 1 de Bach, Soares Brandão fala da volatilidade dos sons, e de como várias coisas interferem na re­lação que se estabelece entre o músico, o público e o ambien­te. “Neste DVD eu contraponho o trabalho que faço de música instrumental com a música ins­trumental produzida na Europa. Vou mostrando a distinção do meu trabalho em relação a essa música”, expõe. “A música erudi­ta europeia é fundamentada na chamada série harmônica, e ela é linear, ou seja, tudo nela é pré­-determinado. Se eu escrevo uma partitura, eu pré-determino tudo que vai acontecer. Isso é linear. Ou seja, eu toco isso agora, ama­nhã eu vou tocar a mesma coisa”.

Em conversa com Soares Bran­dão via Facebook, o maestro e compositor Ricardo Tacuchian, membro da Academia Brasileira de Música, falou sobre a propos­ta de Outro Olhar em sua página do Facebook. Tacuchian ressalta a instigação presente nos 55 minu­tos do DVD, que intercala números musicais com alguns comentários mediados por Ibis Soares Brandão, produtora cultural que desenvol­veu o roteiro do materia. “Trata-se de uma concepção inovadora de Soares Brandão e um desafio para o ouvinte que se formou dentro de uma tradição linear e cartesiana. Para penetrar na proposta do artis­ta, o ouvinte terá que se despir de todos os paramentos da tradição e assumir um Outro Olhar”.

Tacuchian observa Outro Olhar como uma proposta “revo­lucionária”, no qual Soares Bran­dão tem o desafio de “trazer uma nova perspectiva estética para um instrumento que, desde as suas origens, foi concebido para uma música linear e cartesiana”. Em resposta à Tacuchian, Soares Brandão fala sobre a hegemonia que sustenta a música erudita li­near, e sobre a necessidade de se questionar essa hegemonia através de uma outra forma de se planejar a música instrumen­tal. “Não somos contra os pla­nejamentos lineares, e sim a he­gemonia deles. Afinal Descartes não é um demônio, graças a ele e a Newton que o ocidente con­cebeu e construiu uma diversida­de enorme de máquinas”, explica.

Na entrevista ao Diário, Soa­res Brandão também falou so­bre a forma com que os registros mecânicos (e digitais) em vídeos e áudios de suas apresentações deturpam algumas característi­cas do planejamento complexo na música. “Mais um fato com­plicado é a gravação, que é pro­duzida por uma máquina. Você ouve hoje, e daqui há pouco vai ouvir a mesma coisa. Eu não faço assim. Cada vez que eu toco é de um jeito. Mas como a gravação é produzida pela máquina, que é um ser eminentemente linear, aquilo se torna linear”.

Soares Brandão exemplificou o que acontece utilizando um para­lelo entre meios de transporte. “O problema não é a máquina ser li­near, é você querer que o ser vivo seja máquina. Andar de cavalo não é a mesma coisa que andar de máquina. Se jogar o carro contra a parede ele vai, o cavalo não vai, ele vai relinchar e parar. Ele tem decisão. Você tem que interagir com o ser vivo, pois ele tem esco­lha, então o tipo de planejamen­to é outro”, conclui.

RITMO

Em um momento do DVD Um outro olhar, Soares Brandão ex­plica que o ritmo é algo que está presente em sua forma de fazer música. “O calor da música vem da percussão, da música rítmica. Coloco a nota tocada de maneira percutiva. Isso vem da minha for­mação. No meu toque do piano, me inspirei muito na Tabla, ins­trumento de percussão hindu to­cado com os dedos”. O maestro, é carioca e já trabalhou na escola de samba Mangueira formando mes­tre de bateria, falou da ausência de ritmos na música clássica européia moderna. “Na minha virtuosidade, coloco os sons percutidos. Numa postura clássica, toca-se só os sons harmônicos, não tem ritmo”

O maestro, acompanhado da artista plástica, roteirista e en­trevistadora do DVD (além de esposa) Ibis Soares Brandão, fa­laram de como o ritmo e a per­cussão sempre foram persegui­dos pela música hegemônica, e como a harmonia musical desa­companhada dos batuques pas­sou a representar um status so­cial. “A bossa nova simplificou a percussão do samba, colocan­do harmonias mais sofisticadas. O samba não, ele se interessa, pela ascendência que vem da África, a percussão. Eles fazem polirritmia -vários instrumen­tos tocando de maneira diferen­te mas cuja unidade é dada por uma pulsação comum”.

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