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No Cine Cultura, ‘Alma Negra’ recupera soul brasileiro e bailes black dos anos 1970

Redação Online

Publicado em 18 de maio de 2026 às 20:45 | Atualizado há 2 meses

Sandra de Sá em depoimento para o doc "Alma Negra" - Foto: Divulgação
Sandra de Sá em depoimento para o doc "Alma Negra" - Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Vá ao cinema. Pense e dance. O documentário “Alma Negra”, de Flavio Frederico, recupera a trajetória do soul brasileiro e a reafirmação do orgulho negro em um contexto de ditadura militar. Vai do quilombo ao baile. Um filme-pedagogia que deveria ser exibido nas escolas.

Enquanto isso não acontece, o doc está em cartaz no Cine Cultura desde a última quinta (14). O longa investiga o soul junto da repercussão política e cultural dos bailes black durante os anos 1970 e 1980. Como falou o diretor à “Noize”, a produção é um manifesto antirracista.

A princípio, “Alma Negra” seria apenas sobre a música soul. “Mas, à medida que fomos aprofundando e entendendo a ebulição dos anos 70, os bailes black, a intelectualidade negra, o movimento negro e o empoderamento da população negra, o filme foi crescendo”, disse.

Em 102 minutos, o longa revive os bailes como espaços nos quais havia a construção da coletividade negra. O jornalista Hamilton Cardoso, durante depoimento, enfatiza que o movimento no Rio e em São Paulo encorajava essas pessoas a lutar contra o racismo.

O doc, no entanto, é centrado nas reflexões da pesquisadora Ednéia Gonçalves. Por meio de sua percepção sociológica, “Alma Negra” conecta os encontros ocorridos no subúrbio à ideia de quilombo. Para ela, os dois momentos evidenciam pertencimento e resistência cultural.

Na monografia “Baile, Identidade e Mídia”, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2024, o jornalista Hyago de Paula Bandeira diz que o público majoritário do soul era composto, em grande medida, por jovens negros, de baixa renda e periféricos.

Cenário

“Os bailes abriram caminho para o lançamento de coletâneas que marcariam a presença do soul brasileiro no cenário musical e desafiaram até mesmo grandes nomes da indústria”, analisa Hyago, em seu estudo. É o caso do Soul Grand Prix — com sua formação original, pôs nas lojas quatro coletâneas. A primeira ficou à frente de Roberto Carlos nas vendagens.

Foi o suficiente para que setores da imprensa se mostrassem incomodados. Segundo eles, esse som não representava a realidade afro-brasileira. O crítico José Ramos Tinhorão, no “Jornal do Brasil”, em 1977, confessou perceber no Black Rio uma imitação do Black Power. Marxista ortodoxo, Tinhorão via a luta contra o racismo se sobrepondo às questões sociais.

Um equívoco, sem dúvida. Conforme revela “Alma Negra”, Ray Charles misturou R&B e sentimentos para interpretar canções de Hank Williams e Don Gibson. “Modern Sounds In Country And Western Music” saiu em 1962, um ano antes de Martin Luther King Jr. ter seu sonho inclusivo. Até hoje, os compassos iniciais de “Bye Bye Love” soam deliciosos.

Nascia aí a soul music. Com roupa sexy e dançando sem parar, James Brown solta a voz no LP “Live At The Apollo”, de 1963. “You got the power”, assinala à plateia, empoderando-a. Nesse álbum, Brown atinge um nível feroz de precisão. Brilha mesmo. Quase não há espaço para o naipe de metais. Por isso, aplausos são ouvidos durante a sessão gravada no Harlem.

Após voltar dos EUA, Tim Maia mostrou soul ao Brasil

Tim inaugurou linguagem com disco lançado em 1970 – Foto: Divulgação

Tim Maia viu o soul de perto. Quando ouvira Brown cantando “I Got You (I Feel Good)”, do disco “Out of Sight”, ele pirou. Tim andava desanimado após o fim do grupo The Sputniks, mas logo esqueceu isso. Foi para os EUA no fim dos anos 1950, onde conheceu a música black. Em 1970, lançou seu primeiro LP, no qual trouxe o suingue funky à música brasileira.

No doc “Alma Negra”, o cineasta Flavio Frederico retoma uma entrevista concedida por Tim em 1985. O artista, sentado no banco de trás de um carro conversível, tece uma interessante análise histórica. “Isso aqui era Angola, o Rio de Janeiro era Angola e Angola era o Rio de Janeiro, então eu estou vivendo em Angola”, declara Tim, reafirmando a sua negritude.

Frederico perfila ainda o soulman Cassiano, fã de Marvin Gaye. Nesse momento, o jornalista e produtor musical Nelson Motta o descreve como “gênio”. Imagens dos LPs “Apresentamos Nosso Cassiano”, de 1973, e “Cuban Soul: 18 Kilates”, de 1976, passam pela telona. Sob os hits “A Lua e Eu” e “Coleção”, músicos e pesquisadores reavaliam a obra do compositor.

Produção tem apelo pedagógico em país com baixo letramento racial – Foto: Alma Negra/ Instagram

Outros nomes essenciais à black music brasileira, como Jorge Ben Jor e Carlos Dafé, surgem durante o documentário. Mestre do ritmo, Ben Jor sugere que o mundo precisa lidar com a “questão nuclear”. Já Dafé, em suas intervenções, sublinha a relevância estética do soul.

No entanto, o soulman Hyldon, dono de obra relevante, recebe um tímido espaço. Luiz Melodia, por sua vez, nem essa chance teve. Morto aos 66 anos, em 2017, Melodia faz blues, funk, jazz, soul e samba no disco “Pérola Negra”, de 73. É quando o morro chega ao asfalto.

Protagonista do filme “Xica da Silva”, de Cacá Diegues — cuja canção-tema se tornou marco da obra de Ben Jor —, Zezé Motta lembra de uma viagem que fizera aos EUA nos anos 1960: “Percebi que os negros brasileiros andavam cabisbaixos. Lá eles andam de cabeça erguida.”

Toni Tornado, em diferentes trechos, teve sua grandeza artística reconhecida. É ponto alto do longa-metragem, que se encerrou com a canção antirracista “Olhos Coloridos”, de Sandra de Sá. “Jamais deixarei de cantá-la”, avisou, ao violão. Vá ao cinema e veja “Alma Negra”.

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