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Obra desconhecida de Clarice Lispector surge após décadas

Giovanna Gonçalves - Estágio DM

Publicado em 27 de março de 2026 às 16:09 | Atualizado há 4 meses

Exemplar raro com assinatura da escritora levanta dúvidas sobre autoria e contexto | Foto: Reprodução
Exemplar raro com assinatura da escritora levanta dúvidas sobre autoria e contexto | Foto: Reprodução

Um livro de Clarice Lispector, até agora desconhecido pelos grandes estudiosos, acaba de chegar às mãos de seu biógrafo, Benjamin Moser. O exemplar, um livro de receitas intitulado Cozinha para Brincar, foi comprado no início deste mês na feira de antiguidades do Bixiga, em São Paulo, pelo livreiro Gilvaldo Amaral Santos.

Ao notar a assinatura de Clarice na primeira página, o dono do sebo de raridades O Buquineiro entrou em contato com o pesquisador americano, autor da biografia Clarice, publicada em 2009.

Achado inesperado

Os dois se conheceram quando Moser escrevia o livro e, desde então, mantêm contato para compartilhar achados raros de Clarice e de outros nomes da literatura brasileira. Mesmo após anos de pesquisa, ambos afirmam desconhecer o livro encontrado neste mês.

Cozinha para Brincar foi impresso pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica em 1970 e, como diz Moser, parece o tipo de publicação distribuída em supermercados. A obra, ilustrada pela artista plástica Odiléa Setti Toscano, reúne receitas como “barcos de salsicha”, “omelete tira-prosa”, “mingau engraçado” e “bolo peteleco”, que utilizam produtos da marca Nestlé.

Obra desconhecida de Clarice Lispector surge após décadas | Vídeo: Instagram/@clarice_cafe

Além da assinatura no prefácio, o biógrafo afirma que o tom de Clarice, especialmente presente em seus livros infantis, indica que ao menos o texto de abertura foi escrito por ela. “Quem conhece a escrita de Clarice a reconhece no livro, porque é algo que não se pode imitar.”

Relação com a autora

Moser se voltou à autora e à literatura brasileira ainda na faculdade, quando estudou português. Em mais de três décadas de pesquisa, ele nunca encontrou registros que destacassem a relação de Clarice com a cozinha. O próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente, já disse ao biógrafo que não se lembrava da mãe preparando nada além de uma xícara de café.

A nova descoberta, segundo Moser, não altera suas impressões sobre a autora, mas o leva a refletir sobre o contexto em que o livro foi produzido. A Clarice desta obra se aproxima de uma mulher de classe média típica da época, diz. “Poderíamos fazer uma grande crítica feminista com base no livro. Clarice não escreve: ‘faça isso com sua filha’, mas isso está implícito.”

“O livro não é um A Paixão Segundo G.H. e não acrescenta muito ao que já sabemos sobre Clarice, mas ainda assim é uma descoberta emocionante.”

Segundo Moser, é possível que ela tenha escrito o livro porque, após se separar do diplomata Maury Gurgel Valente, em 1959, precisava de dinheiro.

Destino e preservação

Outro aspecto que chamou a atenção de Moser foi o estado de conservação do livro que, segundo ele, comprova sua origem brasileira. “É possível identificar um livro do Brasil pelo cheiro de mofo”, diz, atribuindo essa característica ao clima quente e úmido do país.

Moser afirma que muitos dos livros brasileiros raros fogem do padrão tradicional de obras valiosas e se parecem com Cozinha para Brincar: “baratos e impossíveis de encontrar”. Ele aponta essa falta de tradição na preservação como um dos fatores que levaram o livro a ficar nas sombras por tanto tempo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há o costume de doar e vender coleções literárias para instituições públicas. “Por isso as bibliotecas e universidades por aqui são tão ricas”, afirma.

O biógrafo atribui o achado de Cozinha para Brincar à frase latina habent sua fata libelli, que, em português, pode ser traduzida como “os livros têm o seu próprio destino”.

(Isadora Laviola e Walter Porto/Folhapress)


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