Oscar abriu os olhos?
Redação DM
Publicado em 5 de março de 2018 às 23:44 | Atualizado há 1 ano
O cinema, assim com a arte em geral, nasceu não só para entretenimento. Embora efeitos especiais e comédias românticas sejam blockbusters garantidos, a sétima arte é uma arma poderosa para mostrar o indizível, resgatar a história, denunciar injustiças ou ainda amplificar realidades tão particulares, que podem fazer muito sentido para o coletivo. Nesta 90ª edição do Oscar – que aconteceu domingo (4), isso se tornou mais claro. Os apelos políticos a favor da inclusão nos anos anteriores parecem ter sido ouvidos, com a participação mais ativa das mulheres, negros e da comunidade LGBT.
Na noite em que ‘A forma da água’ foi o grande vencedor, foi o discurso de agradecimento de Frances McDormand que ainda está repercutindo. Quando ganhou o Oscar de Melhor Atriz por “Três Anúncios Para um Crime” pediu a todas as mulheres indicadas ao Oscar 2018 que se levantassem. Mas antes brincou com “dona do Oscar”, que também concorria à categoria. “Meryl (Streep), se você fizer, todas as demais farão”, para então começar a falar sério:
“Todas nós temos histórias para contar e projetos para financiar. Não falem conosco sobre isso nas festas esta noite. Nos convidem para seus escritórios daqui uns dias. Ou podem ir aos nossos. O que for melhor. E contaremos tudo sobre eles. Tenho três palavras para deixar com vocês esta noite, senhoras e senhores: cláusula de inclusão”, pediu a atriz, se referindo à uma cláusula que exige que tanto o elenco quanto a equipe técnica tenham um certo nível de diversidade.

EFEITOS
O discurso de Frances McDormand, completou uma noite com mais representatividade e feitos inéditos. Jordan Peele, por exemplo, se tornou primeiro negro a ganhar Oscar de Roteiro Original, por “Corra!”, que ainda assinava a direção.
Outros roteiristas negros já ganharam a estatueta, mas na categoria de roteiro adaptado. Barry Jenkins e Tarrell Alvin McCraney levaram por “Moonlight”, Geoffrey Fletcher ganhou por “Precious” e John Ridley, por “12 anos de escravidão. O que faz com que muitos cinéfilos, diretores e atores, considerem a conquista tardia, pois o cineasta, escritor, produtor e ator norte-americano Spike Lee, por exemplo, nunca ganhou uma estatueta.
E mais um acontecimento acontecimento inédito no Oscar, aconteceu com a premiação do filme chileno “Mulher Fantástica”, ganhador do prêmio de melhor longa estrangeiro. Estrelado pela atriz transgênero, Daniela Vega, a produção foi o primeiro filme estrelado por uma pessoa transexual a levar o Oscar.
“Isso mostra que até mesmo uma premiação baseada no mercado cinematográfico, como é o Oscar, também evoluiu a ponto de entender que representatividade importa”, explica estudante de Estudos Literários, na UFG, Rafaela Lincoln, uma mulher transgênera que participou da construção do documentário “Duas Vezes Senzala”, onde pessoas LGBTs negras falam da luta diária contra o preconceito (o filme está disponível no You Tube).

CINEMA GOIANO NA LUTA
Fã de Frances McDormand, a escritora, produtora cultural e atriz, Carol Schimid – que é uma das idealizadoras do Sarau das Minas – disse que ao ler o discurso da ganhadora do Oscar de melhor atriz, o termo usado por ela “inclusion rider”, que significa cláusula de inclusão, ficou “martelando” em sua cabeça.
“A cláusula de inclusão é geralmente utilizada por artistas quando condicionam sua participação em determinado projeto à presença de mulheres, negros e/ou LGBTT’s na equipe e no elenco. Esta cláusula exige representatividade e isso faz diferença. Uma criança negra que cresce assistindo filmes apenas com elenco branco pode ser levada à crença de que nos filmes não há lugar para ela. Basta acompanhar a repercussão de “Pantera Negra” para compreender o que estou falando”, comentou Carol Schimid.
Nesta edição do Oscar, a atriz disse notar “relativos avanços”, nesta educação, como a presença e consagração de Daniela Vega e o troféu de melhor direção de fotografia para Rachel Morrison. “Digo ‘relativo avanço’ porque premiou-se menos mulheres do que no ano passado e ainda há muito o que caminhar rumo a uma verdadeira “igualdade na diversidade”. E essa caminhada é necessária não apenas no Oscar”, argumentou.
REPRESENTATIVIDADE GOIANA
Em Goiânia, Carol Schimid nota que, embora a participação de mulheres seja ainda pequena em algumas funções específicas do audiovisual, como direção e direção de fotografia, o cenário tem mudado. Ela conta que no final de maio, por exemplo, será produzido o curta-metragem “O Retorno da Vênus”, dirigido pela Vanessa Goveia, protagonizado por uma atriz negra e que conta com uma equipe composta integralmente por mulheres.
Porém para montar a equipe deste filme, que aborda as dificuldades enfrentadas por mulheres vítimas de crime sexual, Vanessa Gouveia contou ter sido um grande desafio. “Agora que as mulheres estão conseguindo aparecer mais no cenário audiovisual, conseguimos enxergá-las em uma posição que antes eram compostas basicamente por homens, como direção, fotografia, montagem. E observando todo esse movimento resolvemos mostrar que o cinema goiano também está nessa luta”, argumenta, a diretora, que buscou ainda trazer ao filme representatividade da mulher negra diante e atrás das câmeras.
Outro filme goiano que mostra que a diversidade importa e está em fase de produção é o curta “Ela só quer ser Maria”, que será protagonizado por uma atriz transgênera. Porém, o diretor da produção Víctor Vinícius, contou que tem passado dificuldades para encontrar uma atriz que se encaixe neste perfil, já que precisa de alguém que ainda não tenha passado por cirurgia ou iniciado o processo de transição.
“A ideia é utilizar a linguagem cinematográfica em prol de uma narrativa que não se restrinja a problematizar a existência LGBTQ+. Apesar de se relacionar com aspectos da violência e do preconceito, o filme é muito mais uma tentativa de mostrar que mesmo em meio à adversidade essas pessoas vivem, se divertem, precisam de visibilidade e de voz para que não sejam apagadas da sociedade. Até por isso a vontade de ter uma atriz transgênera no papel principal”, explica o diretor.

