“Radioacidentados foram esquecidos”, afirma cineasta Angelo Lima
Redação Online
Publicado em 9 de abril de 2026 às 19:59 | Atualizado há 2 meses
Diretor fecha trilogia do Césio-137 com curta-metragem - Foto: Acervo Pessoal
Marcus Vinícius Beck
Angelo Lima calcula mais uns cinco curtas-metragens. Ama fazer cinema, não vai parar. Para o cineasta, curtas são tipo crônicas. Além disso, Kurosawa filmou até os 90 anos. Ettore Scola tinha 84 anos e pensava no próximo filme. Buñuel, por pouco, não morreu no set.
Angelo acaba de finalizar seu novo filme. Nos últimos dias, ele tem se dedicado aos últimos ajustes antes da estreia, nesta sexta (10/4), no Coletivo Aruá, na Rua 20, a partir das 20h. É sobre a saudade. Memória e sofrimento. Lourdes das Neves, diz, é um exemplo de vida.
Mãe da menina Leide — morta aos sete anos —, Lourdes vive alegre. Mas, como todos os radioacidentados, foi esquecida. O Césio-137 tirou vidas, deletou memórias. Apesar disso, Lourdes das Neves segue em frente. Não tem escolha. Não desiste. Ainda dói, ainda fere.
Pelas lentes de Angelo, a gente vê que a filha não está ali. A filha se foi. Lourdes acorda e encontra fotografias, notícias de jornais, televisão. Ou vê imagens produzidas pelo cinema. Tudo isso porque houve um acidente radioativo. Ninguém tinha nada a ver com isso.
“Leide das Neves perdeu a infância, o amor que nunca teve, as brincadeiras. Tudo isso por causa de um desastre radioativo. E ela não tinha nada a ver com nada. Montei essa história, nessa simplicidade. Havia um sol quente, azul, lindo”, conta o diretor ao Diário da Manhã.
Aqui está Angelo Lima. Angelo e Lourdes. Diretor e protagonista. Ele fala, na entrevista que se segue, sobre cinema, Césio-137 e a trilogia que fez a respeito do desastre radioativo:
Diário da Manhã – Você é um resistente. Por que não desiste do cinema?
Ângelo Lima – Cinema é uma coisa da qual não se desiste. Eu fui expulso da sala de cinema aos seis anos de idade, sete anos, porque eu fazia um pouco de bagunça, e antigamente tinha um personagem chamado Lanterninha. Era o Lanterninha que ficava vigiando as pessoas que faziam bagunça no cinema. A sala de cinema era um mistério. Era onde as pessoas choravam, riam, onde se beijavam. Onde namoravam escondido, onde se refugiavam. Eu fui expulso porque estava fazendo bagunça. Essa pequena história me pegou e ficou marcada. Meu pai nunca bateu em mim, nunca foi violento comigo. A única violência que ele fazia era me deixar de castigo por um mês, sem ir pro cinema. Acho que tudo isso me influenciou a fazer cinema. A ter amor pelo cinema. A gente não deixa o que ama. Kurosawa [cineasta japonês] fez cinema até quase os 90 anos. Ettore Scola [diretor italiano] filmou até os 84. Buñuel [surrealista], até quase morrer. Cinema é uma cachaça.
DM – Daqui pra frente, qual é a sua perspectiva?
Ângelo – Vou continuar a fazer cinema. Minha perspectiva é fazer mais uns cinco curtas-metragens. Curtas são como crônicas. Tem pessoas que escrevem romance, eu faço curtas. Escrevo crônicas.
DM – Como foi realizar um filme sobre Lourdes das Neves?
Ângelo – Foi um prazer imenso, das coisas mais prazerosas. Depois de dias de filmagem, dentro da casa de dona Lourdes, chegando todo dia cedo, entrando com a equipe, montando o set de filmagem… Eu sou um cara que, muitas vezes, trabalha de forma solitária. No sentido de fazer cinema. Vai eu e mais uma pessoa. Ela faz o som. Mas, nesse curta, umas quatro pessoas foram. Foi feito em 4k, tem uma qualidade incrível, uma bela fotografia. O Delano Vaz, que é um amigo meu fotógrafo, fez questão de fazer o filme. Ele me disse: “vamos levar tudo o que pode. Não tem problema. Vam’bora”. Fazer cinema é, também, uma coisa de amigos. A gente precisa tê-los e convencê-los a viajar nessa história. “Lourdes” foi um prazer imenso. Dona Lourdes é uma mulher de uma alegria incrível. Com todo o sofrimento dela, ela passa por cima de tudo. Pra mim, é um exemplo de vida.

DM – Por que Lourdes das Neves foi esquecida?
Ângelo – Não só a Lourdes foi esquecida. Foram esquecidos todos os radioacidentados. Quando vim com essa carga de emoção em cima dela, ela é uma mulher que perde a sua filha. Perder um filho é uma coisa muito forte. Eu nunca perdi. Graças a Deus. Mas sei de pessoas que… sabe? Nunca mais voltaram a ser as mesmas. Nunca mais. A gente pensa que é brincadeira. Brincadeira, não. Morreu lá e tá tudo bem. Não. Comove de maneira muito forte. O filme é sobre isso também, né? O filho que se foi. Não está mais ali. Você acorda e só tem as fotografias, as notícias de jornais, a televisão. Só tem as imagens do filme que o cara fez — no caso, eu. Lourdes representa todo o esquecimento dos radioacidentados.
DM – Teve algum filme que foi referência para contar essa história?
Ângelo – Depois de assistir a um filme (acho que belga), de três horas, sobre uma mulher que fica dentro de casa, eu falei: “vou fazer algo parecido com isso”. Vamos explorar os toques, a ação lenta, de catar feijão. Tudo é muito homenagem. Quem faz cinema homenageia o cinema. Aquela cena de catar feijão é uma homenagem a “Eles Não Usam Black-Tie” [do diretor Leon Hirszman]. A cena do café é uma homenagem a um filme de [Jean-Luc] Godard. A gente faz cinema dessa maneira. Faz citações cinematográficas de cenas de que gostamos. É preciso conhecer cinema para fazer cinema.
DM – O acidente radioativo gerou sofrimento humano. Por que não se fala sobre esse episódio como se deveria?
Ângelo – Eu tenho três filmes sobre o acidente radioativo. Minha luta não para aí. Estou tentando escrever uma série, porque eu tenho quase 30 horas de depoimento da época em que fiz o “Pesadelo é Azul”. Estou querendo produzir uma série documental sobre o acidente. Não sei se eu consigo, não gosto muito de série. Não sei se eu consigo fazer isso. Acho que é preciso falar sobre o acidente radioativo. É preciso que a gente se lembre dessa história. Isso pode acontecer novamente. Isso [o material radioativo] pode vazar. Além disso, deixou uma sequela social muito grande em Goiás, principalmente em Goiânia.
DM – Qual momento mais te marcou na trilogia sobre o Césio 137 e seus personagens?
Ângelo – Todos me marcaram. “Amarelinha” foi um filme que fiz na garra. Não tinha câmera, não tinha nada. Eu queria fazer um filme. Tinha um amigo chamado Eduardo, que já faleceu. Ele falou: “eu faço pra você, pinto no chão. Deixo lá, no outro dia você filma”. Teve um outro amigo que disse: “você tem três horas de câmera de graça”. Falei: “pô, três horas, cara?!”. Juntei um amigo meu, Raimundo Alves, hoje Raio. Ele fez a câmera. Chamamos a sobrinha dele, a Amanda, que é Amanda Costa. Fomos pra lá juntamente com outro amigo, o Divanir. Fizemos em três horas. É um clássico, ganhou um dos principais prêmios do cinema brasileiro, o Ocic. Onde passa, emociona as pessoas.
DM – Esse filme tem cada história, cada momento… É lúdico e poético.
Ângelo – É sensível. É um soco no estômago — no bom sentido da palavra. São três minutos de duração. Mas não importa. O filme tem o Gilson Mundim e o Cambai. Cambai é um grande músico, o Gilson também. E fizemos isto, porque cinema é isto: uma junção de artistas. A gente faz cinema pra emocionar, não tenha dúvida. A gente tenta. E é isso que acontece. Quando vejo que as pessoas falam de “Amarelinha” até hoje, fico muito satisfeito.
DM – Na trilogia, “Amarelinha” foi o que mais te marcou?
Ângelo – Foi o que mais me marcou. E agora, nesses últimos momentos, eu estava comemorando meu aniversário no ano passado, no dia 30 de novembro, na Rua 8. Me chamaram a uma mesa. Um amigo me chamou: “vem cá, Ângelo, vamos cantar parabéns pra você. Quero apresentar você pra uns amigos.” Fui à mesa, cantaram parabéns. O cara disse: “aqui é o Ângelo, grande cineasta, amigo”. Aquelas coisas. E cantaram parabéns e, nesse momento, tinha uma mulher bonita, jovem. Ela se levantou, se aproximou de mim. Olhou bem e falou: “eu te conheço”. Pensei: “será que é uma fria que eu nunca registrei?” Pensei assim mesmo. E o namorado dela ao lado. Ela só falou assim: “eu sou a Amanda, de ‘Amarelinha’”. Comecei a chorar de emoção. São essas coisas que levam a gente pra frente.

DM – E esse encontro ocorreu 20 anos depois.
Ângelo – Vinte anos que eu não via a Amanda. Tá entendendo como é que é? A gente fez o filme e nunca mais a viu. Na época, era uma criança. Quando a encontrei, na Rua 8, ela falou: “muito obrigado por tudo o que você fez. Me tornei uma outra pessoa após ‘Amarelinha’.” Isso é muito gratificante.
DM – Como “Amarelinha” nasceu?
Ângelo – Essa obra nasceu de uma coisa bem simples. “Amarelinha” é a história de uma menina, a primeira que morreu no Césio. E amarelinha também é um jogo que geralmente a mulher joga. Não que eu tenha preconceito. As pessoas falam assim. É um jogo de números. Tem céu e inferno. Tudo isso comove. É jogado com uma pedra. Colocamos uma música: “essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas de brilhante”. Era o brilhante do césio. Aí dizia: “para o meu amor passar”. Um amor que ela nunca teve. Nunca viveu. Só viveu até os sete anos. Perdeu a infância. Leide das Neves perdeu a infância, o amor que nunca teve, as brincadeiras. Tudo isso por causa de um desastre radioativo. E ela não tinha nada a ver com nada. Montei essa história, nessa simplicidade. Havia um sol quente, um céu azul, lindo. A gente faz cinema dessas maneiras, se juntando, juntando as emoções e as possibilidades. E agora finalizamos com Lourdes. Lancei o filme na casa dela, pra mais de 30 pessoas. Fizemos uma festa. Veio a família toda, os netos, os bisnetos, o presidente da Associação dos Radioacidentados. Todo mundo pra comemorar Lourdes. Ela é resistência.
DM – “O Pesadelo é Azul” se tornou um clássico do cinema. O que tem nesse filme?
Ângelo – Como você disse, tornou-se um clássico. É um filme muito pesado, verdadeiro, que coloca os radioacidentados de frente para a câmera. Eles falam de todas as suas agonias. Foi o primeiro filme que fez isso. Tem um grande filme do Luiz Eduardo Jorge, mas não faz o cinema que eu faço. Esse filme, “O Pesadelo Azul”, é muito pancada. É parecido com os documentários de Eduardo Coutinho, que fez “O Cabra Marcado para Morrer”. Tinha hora que a equipe chorava, de tão fortes que eram os depoimentos. Eu precisava parar o filme. Tem uma densidade muito grande. Gostei muito de ter feito. Foi muito premiado.