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Seduce apoia evento que promove etnosaberes na região da Chapada dos Veadeiros

Redação DM

Publicado em 2 de junho de 2018 às 00:57 | Atualizado há 1 ano

A Secretaria de Educação, Cultura e Esporte do Esta­do de Goiás (Seduce/GO) apoiou e participou, por meio do Instituto de Pesquisa, Ensi­no e Extensão em Arte Educa­ção e Tecnologias Sustentáveis (Ipeartes), da terceira edição do Raízes: Encontro de Raizeir@s, Benzedeiras, Parteiras e Pajés. O evento, que ocorreu no municí­pio de Alto Paraíso de Goiás, en­tre os dias 24 e 27 de maio, reu­niu cerca de 80 mestres e mestras da cultura tradicional, incluindo representantes de populações indígenas e quilombolas.

A iniciativa visa fomentar estu­dos e políticas públicas na área da saúde, sobretudo no ramo da Fi­toterapia, além de contribuir para a preservação do Bioma Cerrado, por meio de atividades vincula­das à pesquisa em etnobotânica e à educação ambiental.

Na ocasião, a equipe de educo­municação do Ipeartes, que este­ve encarregada de fazer a cober­tura do evento, reuniu materiais para futuros projetos educativos relacionados à divulgação e pro­moção da diversidade de sabe­res sobre plantas medicinais e ou­tras curas naturais presentes na região da Chapada dos Veadei­ros, onde o instituto atua. Profes­sores e estudantes da referida en­tidade estiveram envolvidos com as atividades de registro do evento e também com a acolhida e acom­panhamento de cada um dos con­vidados, além de terem prestado apoio logístico para as atividades da programação.

Luz Marina de Alcantara, atual responsável pelo instituto, desta­ca que o evento dialoga com um dos princípios do Ipeartes, que se refere à perspectiva de constitui­ção de Cidades Educadoras na re­gião da Chapada dos Veadeiros. Ela informa também que essa é uma das principais linhas de atuação da entidade que representa. Tra­ta-se, portanto, de vertente funda­mental para a consolidação do Pro­grama de Educação do Bem Viver, em torno do qual estão reunidos todos os propósitos e ações da re­ferida instituição.

“Apoiar o Raízes é potencializar nosso ideal de Bem Viver coletivo, pois, ao promover, reconhecer e apoiar o encontro desses saberes, a Seduce está, então, confirmando a legitimidade do conhecimento que é criado na comunidade e que para ela retorna. É isso que a gente entende como Educação do Bem Viver. Um projeto que reconhece e valoriza os diversos espaços de aprendizagem e seus educadores e busca fortalecer e dar autonomia a esses saberes locais, entendendo que o saber se constitui em todo o território e não apenas dentro da sala de aula da escola regular. É a ampliação das oportunidades de aprendizagem para outros espa­ços, que vão além de educação me­ramente escolarizada e que incor­poram todas as possibilidades de conhecimento que a cidade pode oferecer”, defende Luz Marina.

O EVENTO

O Raízes é organizado pela Três Luas, produtora cultural local espe­cializada na promoção de eventos e atividades relacionados ao ramo da etnobotânica. Além do Ipear­tes/Seduce, para edição deste ano, o evento contou com a parceria da Universidade de Brasília, a partir do Centro de Estudos do Cerrado da Chapada dos Veadeiros (UnB Cerrado).

Mesmo diante das dificuldades geradas pela crise de desabasteci­mento de combustível (resultante da greve nacional dos caminho­neiros), a audiência do III Raízes não foi prejudicada. Um público de mais de duas mil pessoas mar­cou presença no evento (mais de 500 por dia), preenchendo todos os espaços da programação, ao longo dos quatro dias de realização das atividades.

Daniela Ribeiro é integrante da Três Luas e principal idealizado­ra do evento. Ela destaca o poten­cial educativo do trabalho, sobre­tudo no que tange aos processos de educação ambiental, visto que o evento guarda uma conexão di­reta com os anseios humanos por uma vida saudável.

“O remédio do mato tem o equi­líbrio da natureza, a sinergia perfei­ta. O Cerrado é uma farmácia com­pleta, tem todas as medicinas. Por isso, mais vale ele em pé do que deitado. A fitoterapia popular tra­dicional, a medicina caseira, esses saberes ancestrais de cura é o que a gente trabalha nesses encontros”, complementa.

Daniela comenta ainda que, por diversos fatores, estes saberes en­contram-se ameaçados. Um deles diz respeito à falta de interesse das gerações mais novas em dar con­tinuidade à sabedoria legada por seus pais e avós. Tratam-se de co­nhecimentos passados por uma tradição oral, que correm o risco de serem perdidos caso não sejam re­cuperados a tempo, isto é, antes da morte de seus detentores. Tal situa­ção torna mais urgente a necessi­dade de projetos que visem devol­ver aos jovens o interesse por essas formas de aprendizagem, para o que a educação desempenha um papel fundamental, daí a impor­tância da parceria com a Seduce.

Ela termina sua fala, comen­tando sobre as dificuldades para a realização do Raízes, que tem sido feito a partir da mobilização volun­tária dos organizadores e agradece aos colaboradores pelas doações e outras contribuições prestadas, sem as quais, informa, que o even­to não teria sido possível.

A programação do III Raízes en­volveu a realização de oficinas de remédios caseiros, rodas de con­versa, saídas de campo para identi­ficação de plantas medicinais, ben­zimentos, palestras, exibições de documentários, feira de produtos artesanais, apresentações cultu­rais, dentre outras. A abertura (24) e o encerramento (27) ocorreram em Alto Paraíso de Goiás. Já as ati­vidades dos dias 25 e 26 foram dis­tribuídas entre a Vila de São Jorge, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e Fazenda Volta da Serra.

ETNOSABERES

Os conhecimentos reunidos em torno do Raízes e que Luz Marina recupera em sua fala, trazem à tona um conceito importante para os processos de aprendizagem atual. Trata-se do etnosaber, perspecti­va que incorpora toda forma de sabedoria ancestral, guardada por comunidades tradicionais, nota­damente indígenas e afro-brasi­leiras, e que são, via de regra, re­passadas ao longo das gerações através da oralidade. A lei nº 11.645, de 10 março de 2008, torna obriga­tória a inserção desses conteúdos nos currículos da educação bási­ca nacional.

A fim de melhor contribuir para a promoção desses saberes, um grande inventário botânico come­çou a ser realizado, de forma cole­tiva, durante as saídas de campo inseridas na programação do III Raízes. A iniciativa foi encabeçada pela especialista no ramo, Renata Corrêa Martins, professora da Unb Cerrado, e contou com a parceria de professores e pesquisadores do Ipeartes, além dos próprios raizei­ros, que foram os mestres condu­tores dos processos de identifica­ção de plantas e raízes medicinais ao longo das duas trilhas guiadas. As caminhadas pedagógicas foram realizadas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, na ma­nhã do dia 25, e na Fazenda Volta da Serra, no dia 26.

Ela destaca que o objetivo do trabalho é sistematizar o conhe­cimento coletado junto aos raizei­ros e reuní-los numa publicação impressa.

“Esse registro é importante para levantar a autoestima de cada um dos raizeiros, visto que são povos que tiveram suas culturas negligen­ciadas e desrespeitadas. Também é fundamental para a valorização do conhecimento e das espécies cita­das com importância de uso, pro­tegendo essa mega biodiversida­de ameaçada com a expansão da monocultura, da pecuária e da pró­pria ocupação humana. São raízes, cascas, flores, todas muito impor­tantes para esses povos que vivem da natureza já há muito tempo. Os Kalunga viveram isolados quase 200 anos e você encontra espécies botânicas, no caso, as palmeiras, que estiveram atreladas à sobrevi­vência dessas pessoas. Sistematizar esse conhecimento, dar um nome científico ao que eles conhecem, é importante. A ciência precisa pres­tar esse serviço, aprender a dialogar com humildade e reconhecer a sa­bedoria desses mestres que vivem aqui. A urbanização acelerou a des­truição e a desconexão do ser hu­mano com a natureza. Precisamos retornar, voltar a ouvir essas pes­soas, fazer expedições de escuta”, pondera Renata.

Josué Faustino de Souza, o Seu Josué, é raizeiro e artesão do muni­cípio de Teresina de Goiás. Ele fala do seu encantamento pela vida em contato com a natureza, exaltando a biodiversidade do Cerrado e des­tacando sua paixão especial pelo Buriti, espécie de palmeira nativa, símbolo do III Raízes.

“Eu fui nascido e criado na na­tureza e sou feliz por morar num lugar onde muitos ainda preser­vam o Cerrado, embora alguns queiram ter lucros exorbitantes em detrimento da vida, acaban­do com a biodiversidade, princi­palmente o Buriti. O Buriti para mim é como uma pessoa, porque ele complementa a vida huma­na, pois muitos dele dependem e nas veredas é o mais imponente. Eu tive uma ideia que quero pas­sar para todos os admiradores da medicina natural: temos que criar uma cadeia nacional de medicina alternativa natural, que seja uma instituição em benefício da saúde e da natureza”, argumenta.

Na área da saúde, os conheci­mentos compartilhados ao longo do III Raízes são fontes de estudo para a produção de remédios fito­terápicos e outros 28 procedimen­tos terapêuticos inseridos na Políti­ca Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). As 29 modalidades atualmente reconhe­cidas pela Ministério da Saúde, já se encontram consolidadas nos atendimentos ofertados pelo Sis­tema Único de Saúde (SUS).

Segundo dados recentemente divulgados pelo Departamento de Atenção Básica do referido órgão ministerial, em 2017, foram realiza­dos, no Brasil, 1,4 milhão de aten­dimentos individuais referentes à oferta de modalidades integrativas na saúde pública. Os serviços esti­veram presentes em 9.350 estabe­lecimentos espalhados em 3.173 municípios do país.

IPEARTES

O Ipeartes é uma entidade cria­da pela Seduce para dar suporte ao Projeto “Alto Paraíso: Território do Bem Viver”. A iniciativa foi instituí­da por meio do decreto 8.824/2016, promulgado pelo Governo de Goiás. Trata-se de norma que es­tabelece Acordo de Cooperação Técnica para a implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU. A parceria conta com assinatura da Prefeitura de Alto Pa­raíso e a Associação Awaken Love.

O instituto surge como piloto da educação estadual nessa perspec­tiva e se consolida a partir de uma visão holística do desenvolvimen­to humano, baseada na ODS #4 da ONU, que tem como objetivo geral “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promo­ver oportunidades de aprendiza­gem ao longo da vida para todas e todos”. Para alcançar tal propó­sito, cria a “Plataforma de Educa­ção do Bem Viver”, que envolve um conjunto de ações comprometidas com os Projetos de Escola Inovado­ra e Cidade Educadora.

A bandeira da Educação Inte­gral é a força motriz do Ipeartes, uma vez em que este se preocupa com a garantia de uma formação integrada aos diversos níveis de realidade e percepção existentes. Explora, nesse sentido, não ape­nas as dimensões cognitivas e in­telectuais dos processos de ensi­no-aprendizagens, mas também seus aspectos afetivos, estéticos, éticos, físicos, emocionais, espiri­tuais, ambientais, culturais e so­ciais, guardando, assim, relações diretas com a proposta do evento em questão. Para tanto, adota ain­da como princípios a Arte Educa­ção, a Cultura de Paz, a Educação em Direitos Humanos para a Di­versidade e a Sustentabilidade e busca trabalhar, em todos os seus projetos, a Autorresponsabilida­de, o Respeito, a Presença, a Hu­mildade e a Empatia.

A busca pela inovação de con­teúdos e formatos é uma constan­te do trabalho do Ipeartes e suas ações estão sempre voltadas a atender as demandas apresenta­das pelas comunidades, respeitan­do suas especificidades. Desenvol­ve atualmente atividades voltadas ao ensino formal (da Educação in­fantil à Educação de Jovens e Adul­tos) e não formal, estando presente em diferentes instituições escola­res da Área de Proteção Ambien­tal Pouso Alto, que inclui as cidades de Alto Paraíso, Cavalcante, Co­linas do Sul, Nova Roma, Teresi­na de Goiás e São João da Aliança.

Em Alto Paraíso, além da área urbana, atua também nas co­munidades da Vila de São Jorge, Moinho, Sertão e Cidade da Fra­ternidade, a maior parte delas lo­calizada na zona rural.

Na educação não formal, o des­taque vai para ações como o Cole­tivo Jovem, a Olimpíada de Huma­nidades, além de projetos e cursos livres realizados na sede do pró­prio instituto em Alto Paraíso, bem como outras efetuadas em parceria com o Centro de Referência em As­sistência Social (Cras) e o Centro de Convivência da Criança e do Ado­lescente (CCCA).

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