Tambores de Orum levam ópera negra ao Setor Central na terça-feira (17/2)
Redação Online
Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 21:04 | Atualizado há 5 meses
Foliões se concentram no Teatro Goiânia
Marcus Vinícius Beck
Oba, lá vêm eles. Estamos de olho neles. O bloco Orum Aiyê Quilombo Cultural desfila nesta terça-feira (17/2), a partir das 16h, pelas ruas do Setor Central. Com enredo “Palmares: por uma nação negra brasileira”, os foliões cantam e narram a luta contra a opressão racista.
Desta vez, os Tambores do Orum se concentram no Teatro Goiânia. Dali, através do batuque e seu impacto rítmico, eles partem para o Bosque dos Buritis, no Setor Oeste. Atrás de justiça racial, encantam pela 3ª vez o carnaval goianiense, apoiados pelo Programa Folia Goiás.
No próximo sábado (21/2), também às 16h, a ressaca momesca leva o bloco à Rua W-7, no residencial Morada do Ipê, região norte da capital. A chegada será na sede do Orum Aiyê, no Residencial Nossa Morada. Lá, haverá um after com a DJ Iara Kavene — só black music.
Sob direção-geral de Marcelo Marques e Raquel Rocha, os Tambores de Orum se destacam pelos enredos que abordam a história preta sob perspectiva decolonial. No ano passado, por exemplo, trouxeram a dança dos orixás e dos voduns para retratar a Revolta dos Malês.
Os malês se constituíam de homens e mulheres alfabetizados em árabe e português. Autor de “Cidadania no Brasil: o Longo Caminho”, o historiador José Murilo de Carvalho acredita que a revolta ocorrida em Salvador (BA), em 1835, “reclamava o direito civil da liberdade”.

Mais uma vez, porém, o bloco reafirma seu compromisso social com a memória. A regência, tal qual em 2025, fica sob o comando de Noel Carvalho e Weiller Jahmaika. Já Setchegnon Sokenou e Codjo Kpade assinam a coreografia, enquanto Raquel Rocha cria o figurino.
Além disso, os foliões compuseram músicas, desenvolvidas a partir de pesquisas sobre o tema central. Como diz Martinho da Vila em seu samba, Palmares não morreu, porque mais do que gente era ideia — e, na visão do cantor carioca, as grandes ideias jamais morrerão.
“Sonhou criar um estado com o seu coração. Pernambuco até as Alagoas ser o mesmo chão”, canta Martinho, entre batuques e síncopes. “Então surgiram aos milhares por estes brasis Quilombos, Mocambos, Palmares e novos Zumbis. Até hoje norteiam cabeças pensantes.”
Criado em 1590, o Quilombo dos Palmares converteu-se em um estado autônomo, segundo o Ministério da Cultura (MinC). A comunidade resistiu, por mais de um século, aos ataques holandeses, luso-brasileiros e de bandeirantes, algo que dimensiona o tamanho de sua luta.
Zumbi teria nascido em 1655, já no Quilombo dos Palmares. É provável que, quando criança, perto dos sete ou oito anos, ele tenha sido capturado e entregue escravizado a religiosos, que o criaram. Morreu pelas mãos do bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, aos 39 anos.
Palmares é motivo de orgulho, diz diretor-geral

Para Marcelo Marques, diretor-geral dos Tambores do Orum, o espírito palmarista é, sem dúvida, motivo de “profundo orgulho” para o povo negro brasileiro. “O legado de Palmares perpetua-se como um farol de resistência, dignidade e autodeterminação”, declara Marques.
Na música “Zumbi”, o soul-sambista Jorge Ben Jor se refere a Zumbi como “o senhor das guerras e das demandas”. A faixa, gravada em “A Tábua de Esmeralda”, de 1974, fala sobre os senhores sentados e “vendo a colheita do algodão branco pelas mãos negras”.
Sobre a rotina opressora, Marques é categórico. “Este quilombo representou a materialização da esperança, tornando possível que diversas pessoas negras tivessem a oportunidade de nascer, crescer e viver livres no período do Brasil escravocrata”, afirma o diretor.

O quilombo, localizado em Alagoas, desafiou a ordem escravocrata existente. Segundo o diretor-geral, o conjunto de mocambos (aldeamentos) que compunham Palmares chegou a abrigar cerca de 20 mil habitantes, quatro mil a menos do que a Cidade de Goiás hoje.
“A título de comparação, isso significava que Palmares era, na época, uma das maiores aglomerações urbanas das Américas, rivalizando em tamanho com cidades coloniais”, explica Marcelo Marques. Nesse lugar, havia uma organização social complexa.
Afora Zumbi, figuras históricas lideraram o quilombo dos Palmares, como Ganga Zumba, Aqualtune, Acotirene e Dandara. Baseavam-se em sistemas de organização militar de origem africana, o que impôs derrotas ao império português no auge de seu poderio.
“Palmares tornou-se o grande símbolo da luta pela liberdade no Brasil, conseguindo impor derrotas humilhantes às expedições militares tanto de Portugal — no auge do seu poderio bélico e econômico — quanto da Holanda”, afirma Marques. Oba, lá vêm eles.
Foto: Mayara Varalho